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By Moacir Rauber
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O Oscar para Poder da Inteligência Social vai para: A Hora Mais Negra

A lista “Greater Goodies” elaborada por Greater Good Magazine ressalta filmes do último ano que são exemplos de perdão, resiliência, empatia e outras palavras chave que reforçam comportamentos que produzem o nosso bem estar.

O Oscar para Poder da Inteligência Social vai para: A Hora Mais Negra (The Darkest Hour)

No começo do filme o Primeiro Ministro Winston Churchill não passa de um prepotente arrogante da classe dominante. Ele é desagradável com as pessoas mais humildes, sem capacidade de sentir o sofrimento delas e incapaz de persuadir os outros, porque ele não sabe se colocar no lugar de ninguém. Ele não é empático. Fica evidente no momento em que ele grita com um subordinado: “Você quer parar de me interromper enquanto eu interrompo você?”

De muitas maneiras, o Churchill do filme incorpora o conceito de poder elaborado por Dacher Keller, o Co-fundador do Greater Good Science Center, em seu artigo O Paradoxo do Poder: “As habilidades mais importantes para obter poder e liderar efetivamente são as mesmas habilidades que se perdem uma vez que se tem o poder”. As soluções propostas por Keller são as mesmas que Churchill teve que adotar para salvar as tropas em Dunkerke: ele aprendeu a escutar e a ser empático, ainda que de modo imperfeito.

No enredo do filme, Churchill está cercado por homens parecidos com ele: ricos, nobres, instruídos e poderosos. Esses homens, por sua vez, são muito mais tendenciosos ao fascismo do que o grande público britânico. Por isso, eles pressionam, constantemente, Churchill para fazer as pazes com Hitler e Mussolini.

O filme gira em torno de uma cena (provavelmente apócrifa) em que Churchill se aventura no metrô de Londres para conversar sobre a guerra com as mulheres e os homens comuns. Ele faz uma série de perguntas e descobre que eles estão esperando a oportunidade de se sacrificar para conter o fascismo. Por isso, conhecer o foco do grupo deu forças para Churchill encontrar a solução, mas ele teria que desenvolver habilidades para convencer o rei, o seu gabinete, o parlamento e lutar contra o eixo do poder, ao invés de se subordinar a ele.

Como já sabido, o resto é história.

Churchill não é um bom exemplo para o nosso conceito de poder que deve ser exercido com responsabilidade e empatia. No entanto, não há outro filme feito no ano passado que tenha defendido tão veementemente a importância do exercício do poder com responsabilidade social. Churchill é um ser humano falho, porém o seu heroísmo se dá justamente ao aprender a dominar os seus piores instintos.

A esposa de Churchill lhe diz: “Você é forte porque você é imperfeito. Você é sábio porque você tem dúvidas.”

Texto produzido por Jeremy Adam Smith

Tradução: Moacir Rauber

Winston Churchill (Gary Oldman) fala com a população do metrô de Londres em A Hora Mais Negra.

 

 

 

Por que tantas pessoas ensinam a felicidade?

Acredito que nunca na história da humanidade tínhamos tamanha profusão de pessoas com a pretensão de ensinar os segredos de uma vida feliz. Basta ter um e-mail ou uma conta numa rede social para você se dar conta disso. Não passará um dia sequer sem que você receba uma, duas ou mais mensagens oferecendo o milagre das facilidades de uma vida feliz, completa e realizada que pode acontecer num piscar de olhos. Basta você querer. “Exercite a gratidão!”, “Seja autêntico”, “Eleve a sua autoestima e seja feliz!”, “Você é quem cria o seu mundo”, “A empatia é o segredo”, “Pratique a meditação e encontre o seu foco” e por aí seguem os bordões que buscam tocar a nossa alma infeliz. Nas entrelinhas fica a mensagem de que somente somos infelizes porque escolhemos ser infelizes. Sinceramente, boa parte daquilo que está expresso nas chamadas propostas tende a ser verdade. Porém, a minha indagação se propõe a questionar aqueles que ensinam os segredos da felicidade: seriam tais pessoas felizes caso não fossem pagas para serem felizes?

Ao analisar rapidamente a trajetória humana, pode-se dizer que houve algum momento em que ocorreu uma desconexão entre aquilo que fazemos e o sentido que tem aquilo que fazemos. Houve um tempo em que as pessoas entendiam o ciclo completo daquilo que faziam. Sabiam que o que faziam impactava a própria vida e a vida de outras pessoas. Se não se fizesse o que fazia com o sentido da gratidão e do compromisso para aqueles que se beneficiam daquilo que se faz era melhor não o fazer. Para isso, também era preciso reconhecer-se na humildade, na bondade, na esperança, na confiança, na lealdade e na amabilidade de que o que se fazia cumpriria a missão que se esperava. De repente, particionamos tudo. Cada um fazia apenas uma parte e já não se sabia porque se fazia aquela parte e o que ela significava no todo. Perdeu-se o sentido daquilo que se fazia. Não era preciso mais ser grato. Não tinha mais importância o senso de humildade. Fazia pouca diferença ser bondoso ou não. Esperança? Nada disso. Tudo o que importa é aqui e agora. Confiança? O importante levar vantagem, porque a lealdade é para os fracos.  Amabilidade? Tanto faz quando não se conhece para quem se faz o que se faz. Na verdade, quando não se entende o todo ninguém mais é responsabilizado por nada. E assim se passou a priorizar o sucesso e a não se valorizar ser bem-sucedido. Entendo que se nós nos preocupássemos em formar uma sociedade em que ser bem-sucedido fosse o objetivo principal, talvez não faria sentido ter tantas pessoas ensinando os outros a buscarem o sucesso para serem felizes. Acredito que para ser bem-sucedido é importante estar autenticamente alinhado com os valores professados e nem sempre é importante falar bem, cantar espetacularmente, representar maravilhosamente ou ter muito dinheiro. Isso porque ser bem-sucedido independe de ter habilidades espetaculares ou fortunas imensuráveis. Para ser bem-sucedido basta saber o sentido daquilo que se faz para si e para os outros. Isso porque alguém bem-sucedido sempre é um sucesso e nem sempre quem tem sucesso é bem-sucedido.

Desse modo, a partir do momento em que voltássemos a viver do modo que se quer ensinar a viver, é bem provável que o trabalho da legião de magos da felicidade alheia seria dispensável. Penso que ensinar não é uma opção, porque sempre se ensina com aquilo que se faz ou se deixa de fazer. Aprender é a opção. Portanto, se cada um de nós, em nossos diferentes papéis sociais, ao invés de falar de gratidão agisse com gratidão; ao invés de falar de humildade vivesse humildemente; ao invés de falar de bondade fosse bondoso; ao invés de falar de esperança exibisse a esperança; ao invés de falar de amabilidade praticasse a amabilidade; ao invés de falar de confiança fosse de confiança; ao invés de falar de lealdade se comportasse lealmente; ao invés de falar de empatia exercitasse a empatia; e ao invés de buscar o sucesso se satisfizesse em ser bem-sucedido, talvez um maior nível de felicidade seria uma consequência do aprendizado natural daquilo que se vive.

Por fim pergunto: qual seria a função daqueles que hoje são pagos para ensinar a felicidade? Seriam essas pessoas felizes caso não fossem pagas para serem felizes? Talvez seja um passo necessário para um reencontro com a nossa unidade…

Créditos: Rastro Selvagem

Excesso de confiança ou Zona de Conforto?

Muitas vezes, deixo o carro estacionado bem em frente ao portão de saída para a rua do meu prédio que está a mais ou menos vinte metros da esquina. Assim, saio com a minha cadeira de rodas e a empino para descer direto para a rua sem ir até a esquina onde tem o rebaixamento do meio fio. É um movimento que faço há muito tempo, resultado da habilidade desenvolvida pelos mais de trinta anos de uso. Consigo subir ou descer pequenos degraus. Logicamente que essa habilidade não veio de graça. Para aprender a usar a cadeira de rodas de forma ágil foram horas e horas de muita prática. Foram tentativas, erros e acertos. Na maioria das vezes, um erro ao manobrar a cadeira de rodas significava um tombo. Mas depois de tanto tempo de prática descer um meio fio era algo simples de se fazer. Já fazia parte da minha zona de conforto e eu tinha toda a confiança do mundo em fazer tal manobra. Naquele dia, estava prestes a descer o meio fio quando alguém ao meu lado me chama pelo nome:

– Moacir, cuidado para não cair.

Eu parei o movimento e voltei-me para o meu vizinho. Começamos a conversar sobre o que eu faria e expliquei-lhe com toda a confiança:

– Não, fica tranquilo. Faço isso há muito tempo. É só um pequeno degrau.

Terminamos nossa conversa, empinei a cadeira, movimentei-me para descer o meio fio e caí na rua. O que aconteceu comigo?

Vivem-se situações parecidas nas empresas e nas profissões. Naquele momento, eu fui traído pelo meu excesso de confiança que tinha origem na minha zona de conforto. Ao empinar a cadeira ainda olhava para o lado e perdi a noção da distância até o início do meio fio. Com isso, o meu ponto de equilíbrio foi para o espaço e eu fui para o chão bem em frente ao meu vizinho que olhava horrorizado. Fiquei deitado com o rosto virado para o chão com vergonha de encarar o meu vizinho. Ele até pode ter pensado, Tava querendo se exibir…, mas logo se movimentou para me ajudar de forma comovida. Algo parecido ocorre conosco em outras situações, como quando vemos um amigo fracassar em seu novo empreendimento. Inicialmente, também ficamos comovidos. Muitas vezes, porém, dirigimos ao outro um pensamento maldoso ou mesmo uma crítica aberta. Por um lado, para quem está falido ou estirado no chão a comoção pode servir como alívio, porém traz em si o risco ao estímulo para nada mais fazer. Os sentimentos de pena e dó são cruéis, porque eles até podem abrandar a dor, porém podem fazer com que alguém não queira se levantar. Por outro lado, para sair de onde eu estava, no chão, havia somente uma coisa a ser feita: demonstrar atitude. Somente eu poderia me tirar de onde eu estava. Assim, levantei a cabeça, olhei para o meu vizinho e disse-lhe:

– Tá tranquilo. Caí sozinho e vou me levantar sozinho!

Girei, sentei-me e puxei minha cadeira para perto de mim. Posicionei-me de forma a poder subir e com um movimento brusco subi na cadeira de rodas. Olhei para o vizinho que demonstrava uma sensação de alívio.

Acredito que a situação nos permite fazer uma reflexão sobre as habilidades que nos levam para a zona de conforto e que fomenta o excesso de confiança. Percebi que eu caí justamente numa manobra que fiz e faço muitas vezes. Era a minha zona de conforto que gerava o excesso de confiança. Entretanto, para se sair da zona de conforto ou do desconforto das quedas provocadas pelo excesso de confiança, somente há uma forma e ela se chama atitude. Atitude para fazer o que deve ser feito. Atitude para não aceitar o falso conforto que encontramos no fundo do poço. Atitude para se mover em direção aos nossos objetivos. Atitude para se levantar, sabendo que o maior prejudicado é aquele que fica no chão depois de uma queda. Atitude é se manter em movimento. O que você vai fazer para se mover?

* O excesso de confiança pode representar que você está numa zona de conforto.

O Prêmio do Propósito vai para: Coco

A lista “Greater Goodies” elaborada por Greater Good Magazine ressalta filmes do último ano que são exemplos de perdão, resiliência, empatia e outras palavras chave que reforçam comportamentos que produzem o nosso bem estar.

O Prêmio do Propósito vai para: Coco

De forma geral, a Pixar é reconhecida por fazer dois tipos de filmes: aqueles que vendem muitos brinquedos (Cars e Monsters) e aqueles que usam a animação para tocar os adultos.

O filme Coco de 2017 está na categoria que toca os adultos. O jovem e talentoso herói do filme viaja pelos mundos dos vivos e dos mortos para descobrir a complicada relação de sua família com a música. A história tem reviravoltas que poucos adultos conseguem prever e, finalmente, o filme junta vários temas que contribuem para o Bem Maior, tal como a importância do perdão para aqueles que pensamos que nos feriram (spoiler: essas pessoas nem sempre são aquelas que pensamos que são).

Mas o filme Coco está sendo premiado na lista do Greater Goodies porque ele revela o poder de manter objetivos significativos no longo prazo que podem moldar nossas vidas. Graças a uma tragédia, Miguel teve que manter em segredo o seu amor pela música, até o dia em que contou que ele queria tocar no grande Show de Talentos do Dia de Finados. Quando a avó de Miguel quebra o seu violão e o proíbe de tocar ele diz que não quer mais pertencer a família e foge de casa.

Desesperado para tocar no Show de Talentos, Miguel invade o casarão de uma lenda musical da cidade para emprestar o seu violão. Isso desencadeia uma série de transformações que levam Miguel para a terra dos mortos.

De acordo com o psicólogo William Damon, “propósito é uma parte de cada um na busca por significados, mas também inclui o desejo de fazer a diferença no mundo e contribuir de maneira maior do que um mesmo é”. Para Miguel, a sua intenção de se transformar num músico é guiada pela busca de conexão com os seus ancestrais. Esse objetivo leva Miguel a resolver um mal entendido de longa data sobre os seus ancestrais, garantindo que a sua verdadeira identidade seja conhecida e que as suas memórias sobrevivam.

Quando Miguel retorna para viver com a sua família, o seu amor pela música se converte numa forma de reconectar os seus membros. “Nosso amor por cada um vai viver para sempre em cada batida do meu orgulhoso coração”, canta Miguel.

Por Maryam Abdullah and Jesse Antin

Tradução Moacir Rauber

Fonte: https://greatergood.berkeley.edu/article/item/ten_films_that_highlight_the_best_in_humanity

Filmes que destacam o melhor da humanidade: Me chame pelo seu nome

Esqueça a lista de filmes do Oscar, ele recém passou. A lista “Greater Goodies” elaborada por Greater Good Magazine ressalta filmes do último ano que são exemplos de perdão, resiliência, empatia e outras palavras chave que reforçam comportamentos que produzem o nosso bem estar. O Oscar premia atuação, direção, edição e assim por diante e a lista “Greater Goodies” escolheu os ganhadores pelas suas habilidades de ilustrar comportamentos essenciais para o bem estar humano, como a resiliência, o propósito e o perdão.

Alguns filmes são blockbusters repletos de ação, como a Mulher Maravilha ou Star Wars: o último Jedi; outros são filmes independentes, como O Projeto Flórida e Lady Bird. Esperamos que a lista de filmes Greater Goodies ajude você a assistir todos eles a partir de uma nova perspectiva e, talvez, consiga usar essa aprendizagem na própria vida.

Serão dez filmes: (1) Me chame pelo seu nome – RESILIÊNCIA; (2) Coco – PROPÓSITO; (3) A hora mais negra – INTELIGÊNCIA SOCIAL; (4) O projeto Flórida – EMPATIA; (5) Lady Bird – PERDÃO; (6) Star Wars: o último Jedi – MENTALIDADE DE CRESCIMENTO/FLEXÍVEL; (7) A forma da água – HEROÍSMO NÃO VIOLENTO; (8) Extraordinário; e (9 e 10) Mulher Maravilha / Pantera Negra – COMUNIDADE e DIVERRSIDADE.

A resenhas foram feitas por Jeremy Adam Smith, Maryam Abdullah, Jesse Antin, Amy L. Eva, Emiliana R. Simon-Thomas, Jill Suttie em fevereiro de 2018 e publicada na Greater Good Magazine. A tradução é minha, Moacir Rauber.

(1) O Prêmio de Resiliência vai para: ME CHAME PELO SEU NOME

Os atores Timothée Chalamet e Armie Hammer são Elio e Oliver.

Quando o jovem Elio Perlman de dezessete anos encontra pela primeira vez o estudante de doutorado Oliver, eles pareceram não gostar muito um do outro, mas quando eles se afastam isso acontece de forma dolorosa. ME CHAME PELO SEU NOME é sobre o que acontece entre esses dois momentos, mostrando como Elio e Oliver se apaixonam em meio a beleza decadente da Lombardia na Itália.

Durante o caminho, aprende-se muito sobre resiliência. Na cena de sete minutos que fecha o filme, um Elio devastado olha fixamente para o fogo enquanto as lágrimas escorrem pelo seu rosto, mas se sabe que ele vai ficar bem. Por quê?

Principalmente porque Elio está longe de estar sozinho. O pai de Elio sabe que ele está se apaixonando por Oliver. Porém, antes de censurar ou recriminar o filho, o pai de Elio assiste e espera, mantendo a conexão, mesmo nos momentos em que parece que o adolescente está se afastando.

“A natureza tem maneiras engenhosas de descobrir os nossos pontos fracos”, diz ele em determinado ponto, aceitando que cedo ou tarde todos nós sofremos um golpe da vida. Na impressionante cena final em que estão juntos, o pai revela ao filho que sabia de seu romance com Oliver e encoraja-o a ter uma nova perspectiva. “Ele era bom e vocês tiveram a sorte de se terem encontrado, porque você é bom…”, diz o pai. Por fim, ele acrescenta:

“Eu posso ter chegado perto, mas nunca tive o que vocês dois têm. Algo sempre me impediu ou se interpôs no caminho. Como vocês vivem as suas vidas é problema de vocês e lembrem-se, nossos corações e nossos corpos nos são dados apenas uma vez. E antes que você se dê conta o coração está desgastado. Quanto ao corpo chegará o ponto em que ninguém mais vai olhar para ele ou vai querer se aproximar dele. Nesse momento há dor e tristeza. Por isso, não mate isso e com isso não mate a alegria que você sentiu”.

Assim, é a conexão com o pai que faz com que Elio sinta o coração partido, mas é a mensagem do Pai que também importa. Sofrer é parte da vida, ele diz para o seu filho e assim é a alegria, o prazer e o amor. Nós nos fortalecemos sempre que nos permitimos lembrar e sentir tudo isso.

Por Jeremy Adam Smith

Tradução Moacir Rauber

 

Quanto tempo você tem?

O avô e o neto estavam completamente encharcados. A calçada em frente da casa estava molhada e ensaboada e eles não se cansavam de escorregar de um lado a outro. Ora era o avô que deslizava de costas pela calçada. Em seguida vinha o neto. Dali a pouco o neto se jogava de barriga no piso molhado e resvalava até o outro lado da calçada. Para quem olhava de fora, a única certeza era a de que ambos estavam se divertindo muito, porque as gargalhadas não paravam. O avô, quase em êxtase, mas revelando o peso da idade e a tristeza por acreditar que a vida não seria mais muito longa, disse:

– Pena que eu não tenho mais muito tempo… Lamentou.

Que bom, vovô. Eu também não tenho muito tempo. Ontem eu tinha aula de inglês, amanhã vou para a escola de karaté. Eu só tenho tempo hoje. Vamos aproveitar!

Exclamou o neto demonstrando todo o entusiasmo dele com o momento fantástico que vivia com o avô, jogando-se mais uma vez de barriga na calçada escorregadia.

A fala do avô e do neto são sensacionais. Por um lado, o lamento do avô pelo fato de talvez já não ter tantos anos de vida pela frente, mostra a triste realidade de como poucas pessoas conseguem entender o tempo, incluo-me entre elas. Por outro lado, o entendimento do neto sobre viver o momento presente mostra a beleza de uma interpretação simples e verdadeira do tempo. Nós não temos passado, nós não temos futuro, nós apenas temos o presente.

Muitas vezes, quando crianças ou adolescentes queremos ser adultos antes do tempo para podermos aproveitar as maravilhas da autonomia da vida adulta. Nossos sonhos se voltam para poder dirigir, namorar, casar e ter uma profissão. Por isso, muitas vezes, terminamos por esquecer de viver a infância e a adolescência em sua plenitude ao deixarmos de brincar com as coisas simples da vida e ao não darmos valor as inúmeras oportunidades de aprendizagem. Perdemos o tempo. Mais tarde, quando adultos, ficamos na encruzilhada das dúvidas da vida. Sim, temos toda a autonomia para decidir o que faremos de nossas vidas, mas não sabemos mais qual ou quais as nossas prioridades. Vou manter o foco na família? Preciso dedicar mais tempo para a profissão? Onde encaixo os amigos nisso? E quando vou cuidar da espiritualidade? São perguntas que nos atormentam. Nesse momento, sentimos saudades do tempo em que éramos crianças para ter alguém que fizesse as escolhas por nós. Com isso, muitas vezes, deixamos de aproveitar as belezas da autonomia da vida adulta e da sua plenitude física e mental. Inclusive, esquecemos de brincar porque já não temos tempo. O tempo passa e a terceira idade chega. Para muitos, também chega o tempo das lamentações. Devia ter amado mais, ter chorado mais, ter visto o sol nascer… diz a letra da canção expressando a frustração da vida daqueles que esqueceram de viver na infância, na vida adulta e na terceira idade continuam a cometer o mesmo equívoco. Continuam a esquecer de viver o único tempo que se tem: o presente. Por isso a pergunta: quanto tempo você tem?

Volto para a percepção temporal do netinho. Quanto tempo o avô tem? Exatamente o mesmo tempo que o netinho tem. Nada a mais nada a menos. Tanto o neto quanto o avô, assim como você e eu, nós apenas temos hoje, o agora. Nada mais. Desse modo, entendo que a percepção do avô, assim como da grande maioria das pessoas, de que quanto mais jovens somos mais tempo nós temos, é equivocada. Nós não temos passado e nós não temos futuro, porque nós somente temos o presente, eternamente. Então, o nosso melhor tempo é o agora, para sempre.

O que você está fazendo com o único tempo que tem? É tempo de Páscoa. É um bom tempo para refletir sobre o uso do tempo.

Moacir Rauber

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O que você aprendeu hoje?

Quando criança, quase todos os dias ao retornar da aula minha mãe perguntava aos meus irmãos e a mim:

– O que vocês aprenderam hoje?

E lá estávamos nós relembrando o dia na escola para contar em casa qual tinha sido o aprendizado do dia. Era um processo de consolidação do conhecimento. Muitas vezes, quando nos tornamos adultos, acabamos por perder o hábito de revisitar o dia para lembrar o que aprendemos e, com isso, não exploramos todo o nosso potencial. Entende-se que potencial é tudo aquilo que alguém acredita que possa fazer e talento é o ato de explorar isso de forma que resulte em benefício próprio e dos outros. Não explorar as potencialidades termina por ser um desperdício de talento e um entrave para a melhoria do mundo. E o que tem a ver gratidão com esse pensamento? No meu entendimento tem tudo a ver.

A neurociência tem incentivado a que as pessoas façam a sua lista de coisas boas ocorridas no dia para exercer a gratidão. No artigo “Gratidão: quais foram as tuas ações?” desafio as pessoas a também se preocuparem em fazer coisas boas para os outros para que os outros possam ser gratos pela tua existência. E aqui, ao perguntar, “O que você aprendeu hoje?”, a ideia é que ao aprender com as coisas boas que faço e que recebo, assim como com aquelas não tão boas que faço e que recebo, posso orientar o aprendizado para melhorar ainda mais como pessoa. Penso que também posso ser grato por isso. Talvez, a opção pelo aprendizado é que vai permitir que eu possa exibir cada vez mais atitudes melhores. Resultado? Um mundo melhor.

E é bíblico. Cada um é responsável pelas dádivas recebidas. A parábola contada por Jesus sobre o patrão que vai se ausentar e deixa aos cuidados de seus empregados dez moedas de ouro para cada um é um exemplo. Um deles gastou tudo em festas, desperdiçou as moedas. O outro enterrou as moedas para ter a garantia de que poderia devolvê-las no retorno do patrão. E o terceiro trabalhou com as moedas de ouro, fazendo com que elas dessem retorno. Cada um de nós recebe as suas moedas naturalmente por meio das potencialidades. Qual é o seu potencial individual? Viver sem se responsabilizar por nada é desperdiçar o potencial. Esconder-se para não arriscar nada é desperdiçar o potencial. Aprender para transformar todo o potencial em talento, colocando-o a serviço de si mesmo e dos outros, é valorizar as moedas e é ser grato pelas dádivas recebidas. Assim, entendo que a vida seja a mais especial das dádivas, por isso, seja grato pelo privilégio de estar vivo, agradeça. A capacidade de aprender é outra dádiva importante, por isso, seja grato pela capacidade de aprender, aprenda. Criar um mundo melhor é a responsabilidade pelas dádivas da vida e da capacidade de aprender recebidas, por isso, seja grato, faça algo que contribua para um mundo melhor.

Ao final, acredito que muito mais do que a lista de gratidão pelas coisas boas recebidas e da lista de coisas boas realizadas num dia é indispensável que se faça uma lista das coisas aprendidas e das coisas por aprender. Mantendo isso em mente e em movimento é que a gratidão deixará de ser um gesto ou uma emoção passiva para realmente fazer a diferença na própria vida e na vida dos outros. A gratidão exige atitude de ser grato ativamente pelas dádivas recebidas. Enfim, lembre-se que o nosso espírito é de uma criança ávida por aprender e fazer a diferença no mundo.

Fonte da imagem: http://menteemharmonia.com/aprendizado-e-experiencia/

Quais as coisas boas que lhe aconteceram hoje?

Quais as boas ações que você fez hoje?

O que você aprendeu hoje?

E amanhã, o que você vai fazer com aquilo que aprendeu hoje?

Moacir Rauber

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Sucesso ou bem sucedido?

Para ser bem sucedido, muito além de ter sucesso:

mais do que falar de gratidão é importante viver a gratidão.

Mais do que falar de humildade é essencial viver humildemente.

Mais do que falar de bondade é preciso ser bondoso.

Mais do que falar de esperança é necessário manter a esperança.

Mais do que falar de amabilidade é indispensável ser amável.

Mais do que falar de confiança é básico confiar e ser confiável.

Mais do que falar de lealdade o principal é ser leal.

Mais do que falar de educação é obrigatório ser educado.

Mais do que falar de empatia é fundamental viver a empatia.

Mais do que buscar o sucesso é primordial ser bem sucedido.

Para ser bem sucedido nem sempre é importante falar bem, cantar espetacularmente, representar maravilhosamente ou ter muito dinheiro, porque ser bem sucedido independe de ter habilidades espetaculares ou fortunas imensuráveis.

Para ser bem sucedido é importante estar autenticamente alinhado com os valores professados, porque alguém bem sucedido sempre é um sucesso e nem sempre quem tem sucesso é bem sucedido.

Alguma comparação?