FACETAS!
Somos únicos.
Somos múltiplos.

By Moacir Rauber
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Qual é a sua luta? Luto a favor!

Naquele dia decidi que não lutaria contra a discriminação, o preconceito, a corrupção ou qualquer outra injustiça.

A minha luta seria a favor!

Depois de quatro anos indo todos os dias para a universidade, finalmente chegou o dia da formatura. Tinha sido um grande orgulho para mim, como usuário de cadeira de rodas, ter conseguido frequentar autonomamente a universidade. Agora a comissão de formatura estava escolhendo o local onde seria realizada a entrega dos diplomas. Optaram pelo local mais bonito e mais tradicional da cidade. Porém, tinha uma questão: o local não era acessível. A comissão se reuniu e me convidou. Obviamente, coloquei-me contra a escolha e sugeri a mudança de local. Não fazia sentido frequentar a universidade autonomamente durante todo o curso e no dia da entrega do diploma escolher um local não acessível. Teria que ser carregado por outras pessoas para retirar o meu diploma. Seria um retrocesso. Três representantes da comissão concordaram que era importante mudar de local para marcar um posicionamento de acessibilidade e de inclusão. Entretanto, teve uma pessoa que queria permanecer com o local tradicionalmente usado, argumentando que não seria justo que por causa de uma pessoa o brilho da sua formatura e das demais pessoas fosse diminuído. Foi um choque para mim. Que tipo de brilho seria esse se para que ele acontecesse alguém deveria ser apagado, discriminado? E mais, a pessoa que se posicionou contra a mudança de local era de um curso que trabalharia com questões sociais, sendo uma de suas pautas a luta contra a discriminação social. Naquele dia decidi que não lutaria contra a discriminação, o preconceito, a corrupção ou qualquer outra injustiça. A minha lutar seria a favor!

Explico. Trata-se de um ponto de vista. Particularmente acredito que a nossa luta como pessoas deveria dar mais ênfase naquilo que se quer, o que automaticamente elimina aquilo que não se quer. Quando se fala tanto em diminuir a discriminação, o foco deveria ser o de incentivar a inclusão/integração. Quando se aponta tanto a necessidade de lutar contra o preconceito, a direção apontada deveria ser o aumento da tolerância. Quando se dá tanto destaque ao combate à corrupção, o foco talvez devesse ser o estímulo à honestidade. Acredito que muita energia tem sido despendida no combate da eliminação daquilo que não se quer, porém defendo que se deveria direcionar a luta para aquilo que se quer. Por isso, a luta a favor me parece muito mais lógica e produtiva. No exemplo citado, a pessoa que depois de formada teria como missão o combate à discriminação e ao preconceito não percebeu a oportunidade diante de seus olhos. Ao concordar em mudar de um local glamouroso para um local acessível ela estaria lutando a favor daquilo que ela prometia defender pelo curso que ela estava concluindo. A escolha pela mudança de local seria a prática da integração/inclusão e da tolerância o que seria um ato de honestidade entre a teoria e a prática do compromisso com a defesa de um mundo mais justo.

Entendo perfeitamente que ações de mitigação da discriminação, do preconceito e da corrupção sejam necessárias. Porém, acredito que o maior combate aos fatores negativos se dá pelo estímulo aos comportamentos positivos. Desse modo, no dia em que me coloquei contra a escolha de um local não acessível para realizar uma formatura pública eu lutei a favor. Sim, eu lutei a favor da integração/inclusão, da tolerância e da honestidade entre a teoria e a prática para que tenhamos um mundo mais justo. Defendo que todos possam brilhar e que ninguém precise ser apagado por isso.

Qual é a sua luta?

Moacir Rauber

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O Mundo tem jeito?

Era sábado pela manhã, 8h, e começava o evento de empreendedorismo organizado pela Junior Achievement (JA) de Santa Catarina (http://www.jabrasil.org.br/jasc). Estavam presentes mais ou menos 120 jovens entre 15 e 18 que poderiam estar em qualquer lugar, mas eles escolheram participar de um evento que começaria com duas palestras sobre empreendedorismo e prosseguiria com uma feira. Na feira eles venderiam os produtos resultado do desenvolvimento das suas ideias empreendedoras. A teoria das boas ideias seria testada na prática. Eles estavam dando a cara a tapa em que saíam das salas de aula e dos laboratórios para o contato com a realidade dos consumidores. Os produtos pensados, desenvolvidos e produzidos por eles seriam viáveis? Os produtos despertariam o interesse do público? As respostas para essas perguntas viriam durante o dia, mas antes eles teriam contato com as palestras. Na primeira, a minha colega fez as ponderações sobre a importância da boa alimentação, das atividades físicas e do cuidado com o corpo e com a mente para se ter uma vida produtiva e saudável. Na minha abordagem, explorei um pouco a importância de se indagar quem cada um é e qual é o seu sonho na vida. Pode parecer básico, mas boa parte das pessoas termina os seus dias sem terem sabido quem foram na vida e sem saber o porquê da sua passagem por aqui. Vivem como num sonho, sem conseguir dar um sentido àquilo que fazem ou que fizeram. Não realizam sonhos. Assim, logo após as reflexões sobre os temas, uma menina fez a seguinte pergunta:

– Professor, acredito que muitas pessoas têm os seus sonhos, mas elas ficam inseguras e não sabem se realmente poderiam alcançar os sonhos. Como podemos saber se somos bons o suficiente para realizar os nossos sonhos?

Era uma menina que tinha lá os seus quinze anos. Eu fiquei pasmo com a qualidade do vocabulário utilizado e pela profundidade da pergunta. Na verdade, eu estava encantado por estar com aqueles jovens que me davam a impressão de que o mundo tem jeito. Fiz algumas considerações, mas respondi à pergunta da menina com outra pergunta:

– Se você tem um sonho é porque você imagina que pode realizá-lo. Então pergunto: o que a impede de alcançar o teu sonho?

A pergunta dada como resposta foi feita de forma suave e amorosa. Não havia crítica, mas uma leve provocação para que ela corresse atrás do seu sonho, porque, ainda que ela usara o recurso da impessoalidade na pergunta, era dela que ela falava. Também aproveitei as palavras do diretor da JA (Evandro Badin) que havia comentado sobre a importância de compartilhar os sonhos para que seja possível aglutinar forças para realizá-los. As palestras terminaram e fomos para a feira. Os jovens estavam ocupados com os seus estandes. Nós, os mais velhos, visitamos cada um dos novos empreendimentos e nos sentamos num banco ao lado da feira onde ficamos conversando. De repente, veio até nós aquela menina que havia feito a pergunta. Ela queria agradecer. Em seguida, tomei a liberdade e perguntei qual era o sonho dela. Entre um sorriso meio tímido e o incentivo da amiga ela respondeu que ela havia escrito um livro, mas não sabia como fazer para chegar a um editor. Agora eu sabia a origem do seu rico vocabulário. Ela era uma leitora antes de ser escritora. O diretor da JA, que estava ao meu lado, disse:

– Envia o material para mim que eu posso encaminhá-lo para um amigo que é editor. Talvez nós possamos publicá-lo como parte do projeto de empreendedorismo… e deu mais algumas indicações.

A menina não cabia em si de alegria. Há algumas horas ela tinha um sonho secreto. Na palestra ela teve a coragem de fazer uma pergunta. Aqui ela teve a coragem de compartilhar o seu sonho que no mesmo instante estava sendo realizado. O empreendedorismo tem disso, premia aquele que se atreve a sonhar e a expor o sonho. Por isso, se os adultos ajudarem os jovens a exibirem os seus talentos eu acredito que o mundo tem jeito!!!

E eu fui lá pensando em dar algo, saí tendo recebido muito mais. Voltei com a esperança de que o mundo tem jeito. E isso não tem preço!!!

 

Moacir Rauber

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Falar de empatia…

Antes de finalizar o curso de dois dias sobre empatia, o facilitador saiu da sala para buscar as apostilas que prometera nos entregar. Deixou a porta entreaberta e ouvimos a sua conversa como a secretária:

– Onde estão as apostilas?

– Elas não ficaram prontas. Só vão chegar amanhã… Respondeu a secretária de forma tímida e receosa.

– O que? Como assim? Mas que &$%@*. Como você faz uma %&*$#@ comigo?

Mais alguns impropérios e o facilitador retornou para a sala. Respirou fundo e acalmou-se. Retomou a aula e pediu desculpas por não poder entregar as apostilas como havia prometido. Nós estávamos boquiabertos. As suas desculpas deveriam ir muito além das apostilas, considerando que o curso que fazíamos era sobre empatia. Entenda-se empatia como sendo a competência para sentir o que o outro sentiria caso se estivesse vivendo a mesma situação, envolvendo aspectos sentimentais e emocionais. Considero fundamental adotar tal perspectiva, porque nós, como indivíduos, somente nos realizamos com a presença do outro. Por isso, é importante procurar entender o mundo a partir de uma visão interna do outro. É possível? Não sei, mas sei que tem muitas pessoas ensinando sobre empatia, que talvez seja apenas uma das palavras da moda. Como descrito, o esforço de quem ensinava não passou no teste da prática de se colocar no lugar do outro.

Após a bronca dada pelo facilitador na secretária, nós nos questionávamos como ele se dedicava a ensinar sobre empatia se não conseguia usar o conceito? Apontaríamos a questão ou exercitaríamos a empatia com a situação do facilitador? E como ser empático com ele se ele não o fora com a secretária? Logo, o facilitador se apercebeu que nós ouvíramos a sua conversa com a secretária e o ambiente ficou pesado, fazendo com que o evento terminasse de forma lúgubre. Porém, o aprendizado ficou com aquilo que o facilitador nos ensinou nas aulas e, principalmente com o seu comportamento com a secretária: falar de um conceito não é o mesmo que viver um conceito. E isso se estende a outras áreas comportamentais, porque acredito nunca ter visto tantas pessoas ensinando sobre empatia, amor, gratidão, paz e autenticidade como nos dias de hoje. Entretanto, faz-me falta ver os seus reflexos no cotidiano. Fala-se dos conceitos e exemplifica-se a prática na sala de aula, porém não se aplica na rua. Ensina-se sobre os conceitos, porém não se vive o conceito no comportamento do dia a dia.

Naqueles dois dias aprendi que: falar de Amor não é o mesmo do que viver amorosamente; falar de Gratidão não é o mesmo do que viver gratamente; falar de Paz não é o mesmo do que viver pacificamente; falar de Autenticidade não é o mesmo do que viver autenticamente; e que falar de Empatia não é o mesmo do que viver empaticamente. É possível exercitar a empatia no dia a dia? Ainda não sei, porque entendo que para ser genuinamente empático eu deveria ter tido a vida que o outro teve e isso não creio ser possível. Entretanto, o exercício da empatia poderá nos levar a respeitar o outro como um verdadeiro outro, fazendo com que se tenham relações mais amorosas, autênticas, pacíficas e sendo gratos por isso. Por fim, aprendi que viver o conceito é a escolha que trará reflexos no dia a dia e isso depende de cada um! Também percebi que o caminho do aprendizado ainda é longo… É uma luta diária!

Moacir Rauber

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