FACETAS!
Somos únicos.
Somos múltiplos.

By Moacir Rauber
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Um pouco de humildade nas pretensões da ciência…

Fiquei feliz ao ler o título da matéria “Ciência perto de comprovar que pessoas absorvem energia de outras”, porque indica que aqui os cientistas descobriram a diferença entre descoberta e constatação ou comprovação científica. Como já escrevi no artigo “As descobertas da Psicologia Positiva e da Neurociência?” tenho ressalvas sobre aquilo que é anunciado como descoberta científica na área comportamental. Falar que a meditação para melhorar a qualidade de vida das pessoas é uma descoberta da neurociência é um disparate. Anunciar a descoberta da inteligência espiritual é no mínimo falta de bom senso perante uma história humana construída em bases espirituais. Certamente que muitas práticas espirituais desencadearam processos de estreitamento da espiritualidade, mas isso não quer dizer que as pessoas comuns deixaram de entender a espiritualidade como uma realidade. Nunca se precisou da ciência para saber que a meditação é um processo que melhora a qualidade de vida ou que a espiritualidade é algo real para as pessoas. Quem se afastou da espiritualidade foram os cientistas! E as manchetes sobre as descobertas da neurociência também se transformam em técnicas que pelos títulos seriam algo novo. A matéria “4 técnicas da neurociência para acelerar o seu aprendizado”, publicada no dia 22-02-18, atesta a tendência da neurociência de assumir para si e anunciar como descobertas práticas milenares. A primeira técnica apresentada é a necessidade de se atrelar emoções positivas ao fato de estudar. Isso é novo? Logicamente não. Em culturas ancestrais, muito mais do que emoções, as pessoas só faziam atividades que tinham sentido. A segunda técnica alerta para que as pessoas não exercitem apenas o cérebro, mas também o corpo. Onde está a novidade? As atividades física e mental sempre foram complementares na grande maioria das civilizações e essa dissociação ocorreu no nosso tempo em que automatizamos quase tudo que exige esforço físico. A terceira técnica versa sobre a importância de que cada um descubra o seu estilo de aprender. Mais uma vez, qual é a descoberta se nos povos em outros tempos as pessoas aprendiam ao fazer aquilo que fazia sentido? Por fim, a quarta técnica destaca que é preciso eliminar os ralos de atenção, sugerindo a aprendizagem da atenção plena para obter melhores resultados. Novidade? De maneira nenhuma. Ao se olhar para trás na história, as pessoas tinham como respeito aos tutores, mentores e seu semelhante o fato de estar com a mente onde se está com o corpo. Por isso, as pretensas descobertas estão muito mais para uma redescoberta ou um reencontro com caminhos que já havíamos percorrido em outros momentos da trajetória humana no planeta.

No meu ponto de vista, a ciência e, principalmente, a neurociência tem descoberto ferramentas, muitas de cunho tecnológico, para comprovar fenômenos há tempos aceitos pelo ser humano comum. Entendo, também,  que em muitas áreas a ciência tem exercido o papel de validadora do conhecimento humano com um trabalho não menos importante, muitas vezes, separando o charlatanismo de práticas verdadeiras. No início do texto destaco que se apresenta a possibilidade de comprovação de que as pessoas absorvam energia umas das outras, sendo um desses casos em que a ciência poderá exercer o seu papel de validadora de um conhecimento já existente e aceito por um enorme contingente de pessoas. Porém, medir o fenômeno não muda o fenômeno. A realidade daqueles que nunca duvidaram ou que sempre viveram de maneira a considerar o fenômeno continuará da mesma forma. Trata-se apenas da comprovação de maneira visual de um fenômeno até então não perceptível pelos cinco sentidos humanos para atender aos céticos vindos da ciência.

Enfim, para mim a ciência ou a neurociência pode servir para invalidar certas crenças ou para atestar a ignorância de muitas pessoas comuns. Entretanto, defendo que a ciência e a neurociência deveriam ter a capacidade de investigar com humildade para reconhecer todo o conhecimento humano acumulado na sua trajetória no planeta, sem a pretensão de ser a dona da verdade.

Moacir Rauber

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Falar não é o mesmo que viver

Nunca vi tantas pessoas falando de amor, de gratidão, de paz, de autenticidade e de empatia como nos dias de hoje, mas quase não vejo os seus reflexos no dia a dia. Fala-se dos conceitos. Porém, falar de um conceito não é o mesmo do que viver  o conceito.

Falar de Amor não é o mesmo do que viver amorosamente.

Falar de Gratidão não é o mesmo do que viver gratamente.

Falar de Paz não é o mesmo do que viver pacificamente.

Falar de Autenticidade não é o mesmo do que viver autenticamente.

Falar de empatia não é o mesmo do que viver empaticamente.

Viver o conceito é a escolha que trará reflexos no dia a dia.  Depende de cada um!

Ainda não aprendi. É uma luta diária…

Fonte da imagem: https://paizinhovirgula.com/amor-incondicional/

Deus não mata, mas castiga…

Hoje foi um daqueles dias estranhos. Saí pela manhã para deixar o carro para lavar e aproveitei para ir ao correio. Na rua encontrei um amigo que estava acompanhado de um amigo dele. Logo fui apresentado ao amigo do meu amigo:

– Olha, este é o Fulano, somos amigos desde a infância. Fizemos muitas festas juntos!

O amigo do meu amigo, vestindo um terno preto e uma pasta executiva nas mãos, estendeu-me a mão e disse:

– É, mas é passado… Aquele homem não existe mais. Foi parte do caminho para chegar até o Senhor Deus…

O meu amigo o interrompeu dizendo:

– Sim, hoje ele faz parte da igreja TAL (citou o nome de uma igreja que eu nunca ouvira falar).

Após ouvir o nome da sua igreja o amigo do meu amigo se sentiu à vontade para fazer o seu trabalho de evangelização. Embora a questão de permissão não seja nenhum empecilho para muitos dos novos convertidos, porque a grande maioria não está nenhum um pouco preocupada em ter licença ou anuência para falar. Muitos querem salvar o mundo obrigando os outros a aceitarem a sua verdade sem deixar espaço para as diferenças.

Ele continuava a sua pregação. A situação ficou um pouco embaraçosa e o meu amigo puxou outro assunto. Mas não foi o suficiente, porque em seguida o amigo do meu amigo interrompeu a conversa:

– Você usa cadeira… Qual é o seu problema?

A forma como fez a pergunta era quase uma acusação, pois parecia que me dizia que eu estava na cadeira por merecimento. Olhei-o nos olhos, antes de dizer, calmamente, que eu não tinha nenhum problema e que o uso da cadeira de rodas se deu em função de um acidente de trânsito. Foi então que veio a expressão mais assustadora que já ouvi:

– É, Deus não mata, mas castiga!

Fiquei paralisado. Não me refiro a paralisia física, mas sim ao que se passou na minha mente. O espanto e a incredulidade pela estupidez da fala foram tamanhas que não soube o que fazer. O nada absoluto tomou conta de mim. Talvez eu tenha pensado algo como, “Não, eu não estou ouvindo isso…”. Como cadeirante há mais de trinta anos já ouvi muitos comentários infelizes, porém nunca, nunca mesmo alguém me havia dito que o fato de estar numa cadeira de rodas fora um castigo divino. Quando retomei a consciência apenas me despedi e fui embora.

Fiquei confuso e atordoado por horas. Fui rodando com a minha cadeira de rodas pelas calçadas malconservadas da cidade. Desviava de um buraco e de outro num zigue zague maluco a que os cadeirantes estão obrigados quando querem circular pela maioria das cidades brasileiras. Cadeirantes não, segundo aquele sujeito, os amaldiçoados! Nada, absolutamente nada contra as pessoas terem a sua religião e as suas convicções, assim como o fato de ser uma religião mais antiga ou mais nova não faz a mínima diferença. Entendo que nem sempre o antigo nos garante que seja verdadeiro, assim como o novo não nos assegura que seja uma evolução. Espanta-me o fato de que apesar de toda a sua professada fé muitas pessoas não conseguem entender o verdadeiro milagre presente na benção da vida, ainda que se tenha limitações físicas ou intelectuais. O milagre da vida não se revela pelo fato de caminhar, de correr ou de falar bem. O milagre da vida se manifesta em saber viver bem com aquilo que se tem e com a satisfação das próprias conquistas.

Também fico assustado como o totalitarismo pode se expressar por meio de pensamentos tão tacanhos revestidos de mensagens divinas. Pensamentos em que não se reconhece a liberdade de que outros pensem e ajam de forma diferente. No mundo ideal do amigo do meu amigo todos deveriam seguir a sua lei, pois somente no dia em que todos pensarem de forma exatamente igual e seguirem a sua cartilha é que o mundo estará a salvo. Pergunto-me: a salvo de quem? Da diversidade? Das diferenças?

Imagem: Rastro Selvagem

 

Moacir Rauber

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Como você AFETA o mundo?

O DOUTORADO FOI CONCLUÍDO!

A trajetória teve a parte das disciplinas em comum com outros amigos. Depois veio a tese que é um trabalho solitário. A tese teve começo, meio e fim com prazos cumpridos e metas alcançadas. Mas nada se faz sozinho. A Maria Alice esteve presente como amiga e conselheira em todas as fases. Sem ela não teria sido possível, porque ela é uma pessoa que se ocupa de outras pessoas. Tive o privilégio de que ela se ocupasse também de mim.

Maria Alice AFETA com AFETO, por isso o mundo é melhor com a sua presença!

Muito obrigado!!!

 

 

Quem arranca a sua mandioca?

Na última semana me deparei com uma cena, hoje em dia, inusitada. Vi uma mulher com uma enxada na mão tentando arrancar um pé de mandioca. Deu uma enxadada e exclamou:

– Não vou conseguir. Não dá.

Fez um muxoxo e jogou a enxada de lado. Desistiu. Eu estava ao seu lado, mas era apenas um observador. Nisso, nós olhamos por sobre a cerca e vimos outra mulher, bem franzina, arrancando um, dois, três pés de mandioca um após o outro. Ela sequer usava uma enxada. Nós nos entreolhamos. Não precisamos nem falar, mas a pergunta que nos rondava a cabeça era:

– Como ela consegue?

Realmente parecia incrível como ela o fazia fazendo parecer tão fácil. Foi então que pensei que se ela consegue fazer é porque os outros também o podem fazer. E isso se aplica a tudo aquilo que o ser humano faz ou imagina ser possível fazer. Quando olhamos um mecânico desmontar e montar um motor nos parece incrível, mas é oportuno pensar que se é possível para ele também o seria para mim. Quando observamos um médico fazer uma cirurgia difícil também nos indagamos como ele consegue? Porém, deve-se lembrar de que se ele pode fazê-lo também eu o poderia fazer. Quando vemos um professor dando uma aula fantástica ficamos maravilhados. Contudo, mais uma vez é preciso se lembrar de que se ele pode dá-la eu também a poderei ministrar magistralmente. Quando vemos um engenheiro realizando cálculos complicadíssimos ficamos impressionados. Entretanto, é importante saber que se ele pode realizar tais cálculos também eu poderei realizá-los. Basta querer.

E então vem a pergunta: você realmente quer? O quanto você quer? São perguntas simples, mas que as pessoas não respondem. Infelizmente, há hoje uma grande maioria que observa o que os outros fazem e os invejam, mas não fazem nada para mudar a própria realidade. Esses conformados nunca vão arrancar a sua mandioca. Para eles o não fazer já está feito. É mais fácil se admirar das habilidades dos outros e nada fazer para melhorar as próprias. Para esses acomodados o não conseguir já está conseguido. É tão simples ter sempre tudo a mão e desistir frente às primeiras dificuldades. Para esses resignados o não realizar já está realizado. Para que investir o próprio tempo para realizar algo que os outros podem fazer por mim? Verdade. Alguém sempre o fará. Aqueles que não aceitam “não” como resposta o farão. Esteja certo disso. Eles vão pagar o preço.

Ao olhar o mecânico, o médico, o professor e o engenheiro fazendo as coisas incríveis que fazem, é preciso lembrar que teve um dia em que eles também não sabiam fazer o que hoje fazem com maestria. Esse era o dia em que o não fazer estava feito, em que o não conseguir estava conseguido e em que o não realizar estava realizado. Porém, eles não aceitaram “não” como resposta. Todos os profissionais que hoje exibem habilidades acima da média quiseram aprender e aprenderam a querer. Empenharam-se, investiram o seu tempo, aplicaram a sua força e afiaram a sua enxada para arrancar a sua mandioca.

Você sabe arrancar a sua mandioca?

É bom ser adulto!

Os anos passam rápido, até parece que voam. Porém, cada vez mais me convenço que é muito bom ser adulto. Lembro-me que quando era adolescente havia tantas questões pequenas que me incomodavam muito: uma espinha no rosto, o cabelo que não se ajeitava, uma mancha na calça ou um tênis que não era exatamente o que eu queria eram motivo de sofrimento. A falta de autonomia era um tormento, fazendo com que eu quisesse parecer o que não era: um adulto. Todas essas situações rapidamente se transformavam num drama. Hoje não. Uma espinha não me incomoda pela aparência, apenas pela dor. O cabelo despenteado não é problema, é apenas uma saudade. A calça manchada é irrelevante, pois pode ser sinal de trabalho ou de diversão. A marca do tênis pouco importa, porque sou eu que o pago. Isso tudo é resultado da autonomia que um adulto tem. Por tudo isso, é bom ser adulto! A pergunta é por que tem tantos adultos querendo parecer adolescentes?

Quando vejo adolescentes fazendo de tudo para parecer diferentes na sua busca pela identidade ou criando problemas onde não há, às vezes, fico irritado. Em seguida, dou de ombros, porque recordo dos meus grandes dilemas da adolescência e sei que vão passar. Ou melhor, eu sabia que os dilemas iriam passar, porque cada vez mais vejo pessoas que já deveriam ter a autonomia que a idade lhes faculta se comportando como adolescentes numa dependência doentia de parecer o que não são. Muitos deles pararam na adolescência e não conseguem levar sua vida adiante. Pessoas na idade adulta que continuam a sofrer pelas espinhas, pelas calças, pelos tênis e pela falta de identidade comum nos adolescentes. Muitos deles já estão na terceira idade, mas continuam adolescentes no comportamento e nas responsabilidades. Inclusive tentam manter a aparência de adolescentes. Esses sim me deixam boquiabertos. Um jovem querendo parecer adulto é natural, é a sequência da vida. Entretanto, idosos ou adultos querendo parecer adolescentes é constrangedor, porque ainda não entenderam que muito mais do que parecer ser, é importante ser aquilo que se é. Essas pessoas ainda não entenderam que ser adulto é muito bom.

Não quer dizer que ser adulto lhe tire o direito de sorrir, de ser espontâneo ou de ter um espírito jovem. Não quer dizer que você como adulto não possa transgredir, ir além, sonhar e fazer. Claro que pode. Ser adulto é exatamente isso, ser aquilo que se quer ser com a responsabilidade daquilo que se é. Quando você é adulto você tem autonomia, a responsabilidade e a propriedade para fazer aquilo que quer, quando e com quem quiser. Por isso, é muito bom ser adulto, porque posso ser exatamente aquilo que sou.

Ser adulto me permite ter um espírito jovem, sem ser bobalhão.

Ser adulto me permite assumir responsabilidades, sem sofrer com isso.

Ser adulto me permite ter identidade própria, sem me preocupar em parecer aquilo que não sou.

Ser adulto me permite desfrutar da plenitude mental, fonte de saberes e prazeres que somente os anos nos trazem.

Por isso, cada vez mais me convenço que é muito bom ser adulto, assim como foi bom ser adolescente e tenho a certeza de que será bom chegar à terceira idade. Enfim, é bom ser aquilo que se é!

Moacir Rauber

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