FACETAS!
Somos únicos.
Somos múltiplos.

By Moacir Rauber
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Tecnologia que isola…

Entramos no restaurante e fomos até a nossa mesa. Dois casais, uma garrafa de vinho e muita conversa pela frente. Num momento em que o ritmo da conversa diminuiu passei a observar a mesa ao nosso lado. Eram três casais. De um lado, os homens, dois jovens e, entre eles, um senhorzinho bem idoso. Diretamente a sua frente as mulheres, duas jovens e uma senhorinha bem idosa. Parecia que os avós haviam levado os netos com as suas namoradas ao restaurante. Os dois idosos se entreolhavam e conversavam baixinho entre si. Aproximavam-se sobre a mesa para não interferir nas conversas dos jovens que ocupavam as extremidades da mesa. Os jovens, tanto os homens como as mulheres, portavam os seus smartphones dos quais não tiravam os olhos nem os dedos. A conversa deles era virtual. Estavam fisicamente no restaurante, mas não estavam presentes. Conversavam com pessoas que não estavam no restaurante. E os avós, isolados, conversavam entre si.

É facilmente justificável por ser um tempo de grandes mudanças que situações como essa sejam registradas. Porém, falar em mudança é algo comum há muito tempo. Tanto é que os gregos afirmavam que nunca se vê a mesma árvore, a mesma rua, a mesma pessoa ou a mesma oportunidade, porque no instante em que se observa aquilo que se vê, ele já não é o mesmo. Mas todos continuam sua existência, reinventando-se. Nós, mais do que ninguém, deveríamos saber e viver bem com isso. Ampliar as perspectivas por meio do uso da tecnologia que os povos antigos não tinham.  Desenvolver nossas capacidades por meio das diferentes formas de aprendizagem disponíveis. Incrementar nossos talentos pela liberdade que se tem em definir aquilo que se quer fazer. Mas aceitar o fenômeno da mudança não se dá tão somente pelo uso constante, fanático e até dependente da tecnologia. Sempre que participo de eventos observo as pessoas, de diferentes faixas etárias e profissões, e invariavelmente elas estão lá, cada vez mais usando freneticamente os seus smartphones ou outros equipamentos tecnológicos de forma, aparentemente natural e dependente. Aquele momento no restaurante mostrava bem isso. Os jovens usavam a tecnologia para não mudar. Eles usavam os recursos benéficos de uma tecnologia que abre as portas de diferentes mundos para se isolar em meio as pessoas. Eles usavam a tecnologia para não mudar com aquilo que os avós poderiam oferecer, porque a mudança de que eu falo é aquela que não se vê. É a mudança que mais facilmente ocorre no contato com o outro, inclusive e principalmente com os mais velhos. No meu entendimento, o fato de alguém usar todos os recursos tecnológicos existentes não é garantia de que viva bem com as mudanças, que tenha a mente aberta ou esteja em real sintonia com aquilo que ocorre a nossa volta. Muitas vezes, aquele que ainda usa uma caneta, um lápis e uma borracha tem a mente flexível. A tecnologia deveria servir para nos conectar com os outros quando estamos sozinhos, porém ela tem sido utilizada nos isolar em meio a multidão.

Use a tecnologia para ampliar, incrementar e provocar as mudanças mentais que nos aproximam das pessoas. Converse com o seu avô, com o tio, com o parceiro ou com quem estiver na sua presença. Quando se está na presença de alguém esteja você presente também. Por outro lado, quando estiver sozinho, use a tecnologia para estar na presença de alguém. Só assim para a tecnologia cumprir o seu papel de desenvolver o ser humano.

Como você usa a tecnologia?

Créditos de imagem: Rastro Selvagem

Moacir Rauber

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E-mail: mjrauber@gmail.com

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Por que acredito nas pessoas?

O dia havia sido duro. Tivemos aulas pela manhã, tarde e noite. Como de costume fui para a cama por volta das 23h30min e em poucos minutos dormia profundamente. O celular estava na cabeceira da cama e de repente ouvi algo tocar. Não sabia o que era. Estava atordoado pelo sono profundo e pareceu-me ter sido apenas um alerta. Alguns segundos depois um novo alerta. Ainda meio confuso, consegui identificar que se tratava de uma mensagem no celular. Quem seria naquela hora da noite? Deveriam ser umas 3 ou 4h… pensei. Sobressaltado procurei o celular e tateei em busca dos óculos. Estava realmente preocupado, porque eu estava fora da minha cidade e meus pais e irmãos em outro país. Será que aconteceu algo ruim com alguém?, foi o pensamento que me veio a cabeça. Ajeitei os óculos e ainda meio zonzo vi que haviam passado apenas 50 minutos desde que me deitara. Em seguida identifiquei a origem da mensagem, o que me deixou intrigado. Muito estranho, o que será que o Domingos, o taxista, quer uma hora dessas?, perguntava-me. Fiquei aliviado porque coisa ruim não seria, já que o Domingos não conhecia nem parentes nem amigos meus.  Devo ter esquecido algo no táxi hoje… foi o meu pensamento seguinte. Eu estava naquela cidade por volta de um mês e sempre me deslocava com o mesmo taxista de um lado ao outro. Nessas idas e vindas o Domingos e eu já havíamos conversado muito. Durante aquele dia foram duas corridas e altas conversas.

Em seguida abro a mensagem e leio o texto:

– Olá! Vi uma matéria na televisão que dizia que no Reino Unido, um homem paraplégico voltou a andar após um transplante de células do nariz para a medula espinhal…

É realmente uma ótima notícia para um usuário de cadeira de rodas como eu, mas naquela hora da noite certamente eu não faria nenhuma cirurgia para voltar a caminhar… Pensei.

Prosseguiu em outra mensagem:

– Os médicos eram poloneses e trabalharam com a colaboração de cientistas em Londres. Desculpe a hora, mas acabei de ver a notícia no telejornal. Um abraço. Domingos Táxis.

Ri e voltei a dormir.

No dia seguinte fiquei pensando no ocorrido na noite anterior, As pessoas são boas. Elas querem ver os outros bem também!, foi a conclusão a que cheguei. O Domingos disse-me em outra oportunidade que ficara tão feliz com a possibilidade de que eu pudesse voltar a caminhar que não se aguentou e quis informar-me imediatamente. Passou-me também endereços de internet onde eu poderia encontrar mais informações.

As pessoas são boas, por isso acredito nelas!

Créditos da imagem: Rastro Selvagem

Moacir Rauber

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Quanto vale o tempo?

Fui convidado para falar num lar de idosos sobre esperança e vida. Antes da data do evento fui visitar o local. Vi idosos em condições físicas e psicológicas em que, para muitos, a vida teria perdido a esperança. Eram idosos em suas cadeiras de rodas sem conseguir se mover, alguém precisava empurrá-los. Vi outros em conversas intermináveis com as paredes. Vi mais alguns balançando as suas cabeças num movimento repetitivo para talvez tentar recuperar alguma memória que insiste em fugir. Conversei com outros que revelavam as suas histórias para que elas não fossem simplesmente esquecidas. Pode parecer triste, porém eu não vejo dessa forma. Para mim é exatamente o oposto. Acredito que seja a manifestação da vida na sua plenitude em suas diferentes fases, porque ao estar em contato com aquelas pessoas lembrei-me que nós não temos passado e nós não temos futuro. Nós temos tão somente o presente e ele é o presente eterno de cada um. Depois de passar algumas horas com os idosos, ao voltar para casa me lembrei de uma conversa com amigo meu que completava 94 anos. No dia do seu aniversário eu o cumprimentei e disse:

– Eu invejo o senhor.

– Como assim? Você ainda é jovem e tem muita coisa para viver… respondeu ele meio indignado.

– Mas o senhor está onde eu gostaria de estar. O Senhor viveu mais de noventa anos. O senhor tem a garantia. Eu tenho a possibilidade. Quem sabe até eu chegarei? Até amanhã?

Ele balançou a cabeça afirmativamente. Quando somos crianças queremos ser adultos para poder fazer tudo o que queremos. Quando somos adultos fazemos tudo, menos o que queremos. Sentimos saudades dos tempos de criança e somos muito orgulhosos para ouvir os mais velhos. Travamos uma luta para desfrutar daquilo que os outros acham que é importante para que possamos nos sentir realizados. Finalmente, quando somos idosos, muitas vezes, lamentamos que não aproveitamos o nosso tempo de crianças e nem de adultos. Porém, aqui volto a destacar que a única realidade que temos em toda essa trajetória é o momento presente. Então qual é a diferença de termos 5, 10, 40 ou 90 anos? Por que, muitas vezes, nós julgamos que o nosso tempo é mais importante do que o tempo dos outros, principalmente quando estamos naquela idade adulta com milhões de compromissos? Não há diferença nenhuma em ser criança, adulto ou idoso. Cada um somente tem o presente. Não há tempo mais importante para um do que para o outro, porque o valor implícito da vida é o mesmo para cada um. O tempo é valioso para cada um, porque cada um somente tem o seu próprio tempo que acontece a cada momento.

Por isso, o que cada um pode fazer por si mesmo é importante, sabendo que devemos viver com aquilo que está ao nosso alcance. De nada serve ficar pensando naquilo que eu poderia ter sido ou naquilo que eu poderei vir a ser. O importante é que realmente cada um seja aquilo que pode ser agora, no exato momento que está vivendo. Porém, devemos ter em mente que a nossa vida não pode ser vivida sem os outros. Nós somente nos realizamos na presença do outro. Assim, o desafio é transformar a nossa vida num exercício de afeto verbo como ação e substantivo como sentimento. Eu afeto o mundo e o mundo me afeta. É o afeto verbo, é a ação. Sempre que eu afetar o mundo com afeto o mundo será melhor. É o afeto substantivo, é o sentimento. E se chegar o dia em que eu não tiver mais a capacidade de lembrar nada disso terá restado o AFETO, sentimento das ações do AFETO verbo que realizei.

Fazer isso é possível? Acredito que sim, independentemente de ser criança, jovem, adulto ou idoso.

 

Moacir Rauber

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