FACETAS!
Somos únicos.
Somos múltiplos.

By Moacir Rauber
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Como você está?

“Como você está?”, uma pergunta tão fácil e direta que deveria expressar a verdadeira preocupação de um colega, de um conhecido, de amigos e familiares em saber como você se encontra. Esta pergunta deveria conter, simplesmente, o que ela quer dizer. Entretanto, nesse mundano mundo que vivemos as pessoas ao dirigirem a pergunta a alguém, muitas vezes, não querem saber se a pessoa está bem consigo mesma e com os mais próximos. Querem saber muito mais do que “sobre o seu dia”. A pergunta pode vir carregada de duplo sentido, porque o que querem saber é o quanto você tem, o quanto você ganha, quais os bens você conquistou nesse tempo em que não se viram e qual a posição social que ocupa no lugar onde vive. Caso você apareça com um carro novo já vão logo dizendo, “Você está bem, hein?” Mas quando o carro não é tão bom a pergunta vem sublinhada de malícia, “Você está bem?”. E se por acaso você vier de ônibus tudo muda, porque lhe dirigem uma pergunta parecida com, “Mas o que foi que aconteceu?”. A confusão havida para uma simples pergunta que se faz repetidamente ao encontrarmos pessoas que não vemos por um determinado tempo é resultado de uma deturpação de valores. Passou-se a valorizar mais uma pessoa de sucesso do que uma pessoa bem-sucedida.

Entenda-se por pessoa de sucesso aquela que alcança brilho, destaque e exposição naquilo que faz profissionalmente. Vemos cantores, compositores, empresários e profissionais das mais diferentes áreas alcançarem o sucesso, muitas vezes de forma meteórica. Mas também vemos ladrões, bandidos, criminosos e corruptos que tem sucesso. Bem-sucedido, por outro lado, é quem se sente bem com aquilo que faz ou deixa de fazer, mas principalmente com o que é. Isto porque o que a pessoa bem-sucedida é faz bem àqueles que o circundam. É bom estar com alguém bem-sucedido, porém nem sempre é bom estar com alguém de sucesso. O sentimento sobre a dubiedade da pergunta tem sido despertado em mim quando reencontro pessoas que vejo de tempos em tempos. Quando me perguntam, “Como vai você? Há quanto tempo que não o vejo!”, na maioria das vezes respondo, “Muito bem!”. “O que você está fazendo?” é a pergunta seguinte, para a qual respondo que tenho dedicado meu tempo para escrever e a praticar esportes. Quase sempre, a expressão de espanto vem acompanhada de outra pergunta, “Mas o que você está ganhando com isso?” Neste momento só me resta responder, “Prazer!”.

Prazer esse obtido pelo fato de fazer o que sempre sonhei sem ser arrastado pela roda viva a que o mundo nos tem imposto. Não que isso seja um convite ao ostracismo, a falta de dedicação ou o incentivo a não qualificação profissional, muito pelo contrário. Para escrever é preciso ler, estudar e dedicar-se aos temas sobre os quais se escreve. Para praticar esportes é exigida a disciplina de dominar a mente para comandar o corpo. De um atleta é cobrada a dedicação constante, o aprimoramento técnico e o desempenho competitivo, muitas vezes, maior do que qualquer outra atividade profissional. Porém, considero-me bem-sucedido porque posso fazer exatamente aquilo que quis no momento por mim escolhido.

Certamente que o sucesso pode nos trazer dinheiro, destaque e prestígio social, mas, sobretudo, ele deve vir acompanhado pela sensação de ser bem-sucedido.  Desse modo, sempre que fizer a pergunta, “como você está?”, faça-a a alguém com quem você realmente se importa e saiba que os seus valores podem ser diferentes. Por outro lado, sempre que lhe fizerem esta pergunta e você puder respondê-la de modo positivo, expressando o que sente e não o que os outros esperam, considere-se uma pessoa bem-sucedida. Por isso pergunto, “Como você está?”

Crédito: Rastro Selvagem

Moacir Rauber

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O Oscar de Perdão vai para Lady Bird

Como pode um filme que trata dos conflitos entre uma mãe e a sua filha adolescente nos encher de inspiração? Lady Bird consegue fazer isso.

No filme a protagonista Lady Bird – um nome que ela mesma se dá – descobre a sua própria identidade e objetivos ao assumir riscos criativos, testar as amizades e explorar a sua nascente sexualidade. Os conflitos aparecem quando a sua perturbada mãe encontra dificuldades para dar suporte as suas escolhas. O filme está repleto de cenas com discussões entre mãe e filha que não conseguem entender a sua clara conexão.

O filme toca em muitos assuntos tratados em Greater Good, mas especialmente aborda a importância do perdão. Um exemplo, Lady Bird se encontra e se apaixona por um rapaz que mais tarde ela descobre ser gay. Ao confrontá-lo de forma veemente, ele cai no choro ao expressar o seu medo de revelar a verdade para os seus pais católicos. Lady Bird o conforta e, com isso, consegue-se ver o perdão surgindo na construção de uma amizade.

Em outro exemplo, Lady Bird faz amizade com um grupo de meninas populares na escola que são próximas de um garoto de quem ela gosta. Isso cria uma tensão entre ela e a sua melhor amiga que não é tão popular e que se ressente por ser deixada de lado. Na sequência, Lady Bird se dá conta de que não é legal disfarçar ser alguém que você não é, porque ela sente demais a falta da sua velha amiga. Após perceber o seu erro e pedir perdão as duas se reconciliam reatando a amizade.

Enquanto isso, o conflito entre mãe e filha continua fervendo. Num determinado ponto Lady Bird fala para a sua mãe, “Eu somente desejo que você gostasse de mim”. A mãe responde, “É lógico que eu amo você”. Na diferença entre gostar e amar é possível ver como mãe e filha não se entendem. Esta é uma cena pontuada por um fechar de portas e uma mãe que hesita de bater na porta para tentar novamente.

Porém, como Lady Bird aprende a ver os problemas da mãe, ela percebe que a resistência da mãe em não mudar é uma camuflagem para o amor e a preocupação. Ao final, Lady Bird perdoa a sua mãe e agradece abertamente por seus muitos sacrifícios feitos por ela.

Texto de Jill Suttie

Tradução de Moacir Rauber

O Oscar da Empatia vai para: O Projeto Flórida

A Empatia no filme que não se esforça para obter a simpatia e a compaixão; ele leva o espectador a sentir profundamente com os personagens, acima de tudo pelos olhos das crianças.

No arrojado Documentário Projeto Flórida, um grupo de crianças precoces de seis anos de idade correm através dos campos e dos prédios abandonados nas redondezas de um hotel na favela chamada O Castelo Mágico. O Diretor Sean Baker justapõe a irreprimível energia e a alegria das crianças com cenas de pobreza e caos nas proximidades do Reino Encantado da Disney. Através desse vívido e assombroso retrato de uma comunidade de famílias vivendo na degrada região do Castelo Mágico o filme explora a empatia em diferentes níveis.

“Eu sempre consigo ver quando os adultos estão quase chorando”, diz a jovenzinha Moonee para a sua amiga Scooty. Nesse momento, eles estavam vendo a mãe de Moonee que vende perfume e o seu corpo para sobreviver. Durante o filme os espectadores ficam imaginando quanto que Moonee entende da desesperada vida que a sua mãe leva. Naquela hora se percebe que ela entende e sente muito mais do que uma criança deveria.

Moonee pelo menos tem um adulto que tenta tomar conta dela no filme. O nomeado ao Oscar Willem Dafoe interpreta o ineficaz gerente de hotel Bobby, que acompanha com um olhar empático e protetor a vida das mães solteiras e de suas crianças. Bobby não fala muito e assim Dafoe precisa demonstrar a sua empatia pelo olhar, gestos e ações. Você sente a compaixão e o desamparo de Bobby ao testemunhar as lutas das crianças na propriedade (provavelmente se debatendo com os seus fracassos privados e pessoais).

São poucos os filmes que me emocionaram tão profundamente que me fizeram chorar após assisti-los e este é um deles. O cineasta representa as pessoas vivendo a pobreza com equilíbrio, autenticidade e imaginação. Baker não se esforça para obter a simpatia e a compaixão; ele leva o espectador a sentir profundamente com os personagens, acima de tudo pelos olhos das crianças.

Texto de Amy L. Eva

Tradução de Moacir Rauber

Saber ser para bem-estar: eis um bom desafio!

“E aí, já escolheu a profissão?” ou “Mas isso dá dinheiro?” são perguntas frequentes quando adultos conversam com jovens com a intenção de os estimular a que façam boas escolhas e que trilhem o caminho da constante busca pelo conhecimento. Porém, a mensagem que chega aos jovens, muitas vezes, é a necessidade de “se dar bem” financeiramente. Entendo que o estímulo a que as pessoas trilhem a sua vida buscando constantemente conhecimentos que melhorem as suas competências em diferentes áreas é positivo. Amplia-se, desta forma, a própria expectativa de vida, uma vez que o sujeito passa a ver o mundo sob diferentes ângulos. Entretanto, muitas pessoas têm transformado a busca por competências que os façam ganhar dinheiro numa obsessão, descuidando-se das competências necessárias para viver bem, o que os torna incompetentes para a vida. Quais são as suas competências?

Entenda-se competência como o saber do indivíduo que se transforma em ação pela vontade explícita em consonância com os recursos disponíveis para fazê-lo, alinhados com o meio no qual está inserido. Para destrinchar esse conceito deve-se percorrer o saber, o saber fazer, o querer fazer, o poder fazer e o saber ser/estar. O saber pode ser obtido por meio da aprendizagem formal, informal e de convívio, que cria o arsenal de conhecimento da pessoa. Contudo, existem pessoas que conhecem muito, mas não sabem fazer. Por isso, a pessoa, além de conhecer, deve saber fazer, que é justamente aplicar o conhecimento em situações práticas dentro da atividade que desempenha. Entretanto, somente saber e saber fazer não basta. Deve-se querer fazer, que está diretamente vinculado a vontade de realizar aquilo que se sabe fazer. Dando um passo adiante, além de saber, de saber fazer e de querer fazer, deve-se poder fazer, sendo essa uma das muitas muletas usadas por aqueles que não querem fazer. São inúmeras as pessoas que usam este subterfúgio para não realizar aquilo que até gostariam, transferindo as suas responsabilidades para os outros. Por fim, o tema principal se reporta ao saber ser e ao saber estar, que é onde os obcecados pela busca de conhecimento que visam tão somente o retorno financeiro, muitas vezes, falham. Estudam, qualificam-se, aprimoram-se e desenvolvem tantas habilidades que se estupidificam, pois esquecem que para que todo esse conhecimento tenha algum valor precisam do outro. Todos nós devemos saber ser para poder bem-estar.

Espero que você tenha competências para produzir bem e ser competitivo dentro do seu papel na sociedade, porém desejo principalmente que também exiba as competências humanas que façam com que os outros queiram estar com você pelo que você é. Enfim, preste atenção para ser um profissional com as competências específicas exigidas para sê-lo, contudo, sem se tornar um incompetente para a vida com quem as pessoas não querem estar. É fundamental entender que as oportunidades se concretizam no saber ser e no saber estar, pois não há nenhuma espécie de realização sem a presença do outro. Acredito que é nesse saber que se encontra o propósito de vida, que deve ir muito além de um excelente desempenho profissional que pode garantir dinheiro, mas não garante bem-estar. Finalmente, entendo que o grande desafio é que as nossas competências incluam o saber ser para que onde quer que estejamos se torne um lugar melhor para os outros bem-estarem.

É bom estar onde você está e com quem você é?

Moacir Rauber

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Habilidade é algo que se desenvolve…

 

Começou o campeonato brasileiro e o futebol está em evidência. Para mim, o futebol sempre foi o meu esporte favorito, porque tem alguma magia nele que não encontro nos outros esportes. É um esporte coletivo, justo, inteligente e de habilidade. A coletividade se sobrepõe a importância individual, uma vez que os onze jogadores em campo trabalham com o objetivo de fazer gols e de não levar gols. Justo? Sim, ainda que não seja completamente inclusivo, o futebol é um dos poucos esportes em que você pode se destacar tendo um metro e sessenta ou dois metros de altura. Outros esportes, como o basquete e o voleibol, não têm essa possibilidade. Inteligente? As opções são inúmeras e as decisões precisam ser tomadas em frações de segundos. Ainda hoje gosto de assistir a um bom jogo de futebol para analisar as opções inteligentes feitas pelos jogadores, muitas vezes, não inteligentes. As jogadas não inteligentes feitas por jogadores considerados inteligentes. Como explicar? Para mim é mágico. E essa magia vem desde os tempos de menino em que jogava futebol no seminário que foi quando aprendi que habilidade é algo que se desenvolve. Como?

Um dia, o treinador reuniu os vinte e dois jogadores no meio do campo para a preleção antes do treino. Na verdade, não passava de um bando de meninos entre onze e dezesseis anos todos ávidos para começar a correr atrás da bola. Aquelas histórias, conselhos e jogadas que o treinador pretendia nos passar eram consideradas coisas chatas.

Ele perguntou:

– Quem aqui chuta bem com o pé direito?

Quase todos ergueram a mão.

– Quem aqui chuta bem com o pé esquerdo?

Aqueles poucos que não haviam erguido a mão antes a ergueram agora.

– Quem aqui chuta bem com os dois pés?

Ninguém se manifestou. O treinador nos olhou e disse:

– Aquele que souber chutar bem com os dois pés tem muito mais chances de ser bom jogador…

E continuou a destacar as vantagens de se desenvolver a habilidade nos dois pés. Logo estipulou as regras do treino dizendo que somente valeriam os passes dados e os gols marcados com o pé contrário ao pé que se tem mais habilidade. Ainda informou que os goleiros poderiam defender com as mãos sem agarrar a bola, porque teriam que sair jogando com os pés. Foi uma chiadeira geral. Começamos e terminamos o jogo sem gols. Foi horrível. Todos criticavam o treinador que manteve a regra por alguns treinos e depois tudo voltou ao normal. Entretanto, eu continuei a praticar com o pé contrário. As primeiras semanas continuavam sendo horríveis e os meus colegas brigavam comigo porque eu estava jogando muito mal. Não era como antes. Mas eu insisti. Passaram-se semanas, meses e alguns anos depois eu havia desenvolvido a habilidade para arrematar com os dois pés. Isso foi no final da década de 1970 e eu estava então com mais ou menos 12 anos.

Desse episódio e desse treinador ficou a lição: habilidade é algo que se desenvolve, porém é preciso sair da zona de conforto. E você, o que está fazendo hoje para desenvolver novas habilidades?

Moacir Rauber

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