Terceirização da observação!

A observação é uma das melhores ferramentas de aprendizagem desenvolvida pelo ser humano. Foi a partir da observação dos fenômenos naturais circundantes que o homem aventurou-se por todas as regiões do planeta. A observação permitiu-lhe entender o fenômeno do dia e da noite, o formato da terra, a rotação sobre o seu eixo, as regiões de frio e de calor, a chuva, a neve, o vento entre outros tantos fenômenos que estão ao alcance da inteligência do ser humano hoje. O ser humano passou a entender, a explicar e a dissecar a natureza ao seu redor permitindo-lhe desenvolver estratégias que garantissem a sobrevivência da espécie. Também foi por meio da observação que se entenderam e se estabeleceram as principais leis da física, avançando-se para campos e áreas de conhecimento até então inexplorados e que tem levado a humanidade a um desenvolvimento tecnológico sem precedentes. Nessa esteira, a grande maioria das invenções também surgiu a partir da observação realizada por algum perito ou mesmo por um cidadão comum. O fogo, a roda, a caravela, o arado, a cesta, a escrita, os números, entre outras invenções sem as quais o mundo não seria o que é hoje se deram a partir da observação.

Considere-se, segundo os conceitos encontrados em diferentes dicionários, observação como sendo o ato de ver ou de olhar com atenção, de considerar, de examinar e de notar. Observação também pode ser o ato de examinar miudamente, de olhar mais uma vez e de estudar. Entretanto, a observação pode-se se dar de uma forma passiva ou ativa. Na sua forma passiva o fenômeno simplesmente é observado, sem contudo, tirarem-se conclusões a partir dele. Observa-se, mas não se questiona, não se pergunta, não se duvida e não se interroga como e por que ocorre o fenômeno observado. Não se procura entender para poder melhorar aquilo que se observa. Por outro lado, a observação ativa é aquela em que o fenômeno não só é observado, mas é entendido, é explicado e, continuamente, melhorado. Olha-se mais uma vez!
Lamentavelmente, muitas pessoas têm perdido a capacidade da observação dos fenômenos que as circundam. Tem-se muitos observadores passivos, que padecem do resultado das conquistas obtidas derivadas da observação, sejam elas invenções ou conhecimento. Tem-se as horas, mas já não são entendidas, pois estão disponíveis em quase todos os aparelhos tecnológicos de que dispomos. Tem-se o fogo, mas também já não se sabe produzi-lo sem os apetrechos criados. Esse reflexo também está presente em nosso dia-a-dia como indivíduos ou como membros organizacionais.
Como indíviduos terceirizamos nosso autoconhecimento. Não mais nos observamos com o fim de nos entender e de melhorarmos, preferimos ir a um psicólogo ou psiquiatra. Nas escolas e nos estudos cada vez menos somos observadores com a calma e a paciência necessária para que a observação gere conhecimento profundo. Fazemos cursinhos, contratamos professores particulares, consultamos a internet ou outra fonte rápida de conhecimento. Nas organizações tem-se as pessoas e os processos, mas aquelas por não entenderem o todo não observam estes, porque sabem que alguém ou algum software o controla. Desse modo, mais e mais tem-se terceirizado a observação, seja como indivíduo ou nas organizações. Já não se observa o todo para entender, explicar e melhorar as partes que se refletem na sua composição. Não se olha mais uma vez. Para esse fim, terceiriza-se. Contrata-se uma figura externa que, muitas vezes, conhece muito menos acerca do problema, da atividade ou do produto sobre o qual ele é contratado para opinar do que aqueles que o contratam. Simplesmente porque perdeu-se parte da capacidade de observar o que se faz.
No meio empresarial, esse fenômeno criou a figura do consultor, minha profissão. O nicho de mercado é enorme, simplesmente porque as pessoas tem observado cada vez menos aquilo que fazem e por que o fazem. Na grande maioria dos casos o consultor aponta um caminho que já foi trilhado pelas próprias organizações, uma vez que elas não sabem como chegaram até o ponto em que se encontram. Perdem-se nos próprios passos. Assim, contratam consultores para observar aquilo que de melhor fazem em suas empresas. E você, quais os problemas que está terceirizando? Observe-os e veja se a solução não está no seu próprio conhecimento. E a sua organização? Observe os seus processos e os seus produtos e verá que sempre há uma forma melhor de fazê-lo. Olhe mais uma vez!

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