Tão jovem…

Mais uma das situações inusitadas vividas por um cadeirante.
Véspera de Natal, compras, passeio, centro da cidade, feriado a vista. Estávamos, minha esposa e eu, no final das compras que antecedem o Natal. Havíamos comprado alguns itens para nós, pois passaríamos o feriado num local fora da cidade, e outros tantos presentes para amigos e parentes. Já estávamos rumando para casa, aproveitando ainda o passeio na linda região central da cidade. Zona exclusiva para pedestres, bem urbanizada, que permite a um cadeirante circular com facilidade. O caminhar, ou melhor o rodar, tranquilo, despretensioso e sossegado. Ora de mãos dadas com a esposa, ora olhando para aquelas pessoas desconhecidas que passavam por nós. Dificilmente haveria alguém entre elas que nós pudéssemos conhecer, porque afinal estávamos na cidade há apenas seis meses. De repente, surge do meio da multidão, uma senhora que se joga para cima de mim, abraça-me com força e diz, Feliz Natal! Tudo de bom para você!, numa expressão de felicidade típica de uma velha amiga. Quando ela se afastou um pouco observei-a, tentando buscar no meu banco de imagens alguma que pudesse me dar uma indicação de quem era aquela pessoa esfuziante e alegre em minha frente. Não teve jeito, não a reconheci. Pensei comigo, Devo ter esquecido, mas quem será essa mulher? Mas ela não se intimidou pela minha falta de reconhecimento e continuou, olhando para minha esposa, disse, É sua filha?. Respondi que não, que se tratava da esposa. Foi então que percebi que ela não me conhecia, assim como eu não a conhecia. Ela fez uma cara um pouco decepcionada, olhou-me nos olhos e com aquela cara de pena disse, Tão jovem, tão bonito e aleijado. Que pena! Logicamente deve ter pensado, Mas como se atreve a ter uma esposa?Como se atreve a parecer tão bem? Ele até parece feliz…
Por isso, não se deve tomar o mundo apenas sob a nossa ótica, pois há grandes possibilidades de estarmos equivocados. A felicidade, a realização e a satisfação pessoal ou profissional se manifestam de formas diversas para as pessoas, que são diferentes e únicas. Os parâmetros não são homogêneos e a presunção de que o mundo funciona exatamente como nós o entendemos nos leva a cometer grandes erros. Certamente a abordagem daquela senhora não expressou nenhuma maldade, apenas falta de conhecimento.

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