Direitos e deveres: uma ligação intrínseca

Moacir Rauber

Lembro-me de um período em que trabalhei numa universidade, na qual dava aulas três vezes por semana. Nos dias que me dirigia a ela, quase sempre estacionava no mesmo lugar, uma vez que havia vagas reservadas para pessoas com deficiência. Meu caso de cadeirante. Logicamente que a vaga não estava reservada exclusivamente para mim, mas para todas as pessoas com deficiência, desde que disso dessem visibilidade identificando o carro com o selo apropriado. Numa determinada noite cheguei ao trabalho para aplicar uma prova. As vagas estavam todas ocupadas. Observei os veículos que ocupavam as duas vagas reservadas e pude identificar um como sendo de um aluno da universidade, também cadeirante. O outro era de uma empresa conhecida na cidade. O vigia da universidade que me conhecia aproximou-se e disse: Olha, eu não sei quem é esse cidadão, mas ele não tem deficiência. Quando o vi disse-lhe que ele não poderia estacionar nessa vaga, mas ele não me deu a mínima! Depois dessa informação estacionei tão próxima da traseira do carro que estava inapropriadamente estacionado que não haveria como ele manobrar para sair antes de mim. Desembarquei, dirigi-me a sala de aulas e comecei a aplicar a prova. Passados uns 20 minutos o vigia bateu na porta da sala para dizer-me que o dono do carro havia voltado e gostaria de sair. Disse-lhe que assim que os alunos terminassem a prova eu iria tirá-lo. Passaram-se mais de 30 minutos até que, finalmente, todos os alunos terminaram a avaliação. Somente então voltei calmamente até o carro. Observei o dono do carro de longe. Lá estava ele, engravatado, com sua pasta executiva numa mão e na outra o celular, falando com alguém. Ele caminhava de um lado para o outro, todo nervoso. Aproximei-me em minha cadeira de rodas. Ao ver-me ele se acercou e pediu-me mil e uma desculpas, dizendo que havia chegado atrasado para uma reunião da universidade que deveria ter sido rápida e que agora já estava atrasado para outra reunião. Cumprimentei-o, embarquei no carro, carreguei minha cadeira e fui embora.
Certamente que os compromissos desse senhor eram importantes para ele, assim como os meus são para mim e os seus são para você. Todavia isso não dá o direito para quem quer que seja de invadir o direito de outrem. E mais. A reserva de vagas para as pessoas com deficiência representa um aspecto legal, proposto, discutido, debatido e regulamentado em lei, além do bom senso comum indiscutível. Em muitas situações não faço questão de me beneficiar dessas “vantagens” destinadas as pessoas com deficiência, mas especificamente no caso da reserva de vagas de estacionamento sempre busco esses espaços, porque senão meu veículo ocuparia dois lugares. Explico. Os cumpridores das leis não estacionam em vagas reservadas, motivo pelo qual, se eu, pessoa com deficiência, estacionar numa vaga convencional e deixar uma vaga reservada sem uso, ocuparei dois espaços. E isso também não é justo, assim como não é a situação exposta acima. Por isso que direitos e deveres estão tão intrinsecamente ligados, reforçando o dito popular que o direito de um vai até onde começa o direito do outro. Nem um centímetro a mais!

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