A motivação, as oportunidades e os resultados

Moacir Rauber

A proposta hoje é fazer uma reflexão sobre áreas diferentes buscando o entendimento do todo. Essa reflexão será acompanhada pela exposição de ideias, pela apresentação de conceitos, pela descrição de situações, entre cômicas, reais e fictícias, vinculando-as de alguma forma ao conteúdo proposto, que volta-se para as oportunidades, para a motivação e para os resultados.

O fato de hoje estar frente a vocês um cadeirante para falar sobre esse tema deve lhes causar alguma estranheza, que são expressas em inúmeras situações por mim vividas nestes últimos 25 anos. Situações como aquela em que havia comprado uma mesa para participar de um baile. Ao chegar no salão do clube um amigo, que me havia vendido a mesa, saudou-me efusivamente e disse-me: Moacir, Moacir, acompanhe-me. Eu lhe reservei uma mesa bem especial. Vem até aqui. Olha, ela está aqui neste canto, assim você naõ estorva ninguém! E continuou falando e sorrindo, todo orgulhoso pela boa ação que havia praticado. Apesar do mundo ter melhorado e evoluído muito, constatação minha, ainda tem muito por melhorar para não estranhar pessoas nem situações. Para entender que a atual necessidade é a busca pelo ser humano integral e integrado, em que se reconheça a diversidade e a pluralidade por meio do indivíduo, ser único, que compõe a sociedade.

Sob esta perspectiva tratarei de oportunidades, motivação e resultados. Oportunidades em todas as situações, desde que se esteja disposto a olhar mais uma vez. Motivação para fazer o que se quer e e o que se deve fazer para alcançar o resultado pretendido em consonância com o meio organizacional no qual se está inserido.

Para esse fim, iniciamos com uma viagem comparativa entre as possibilidades existentes para as pessoas por volta do ano 1000 da era cristã em relação aquelas existentes nos dias de hoje. Naquele período as pessoas sequer questionavam a possibilidade de mudança, enquanto hoje a mudança é uma constante. Considere-se que toda mudança enseja um sem número de oportunidades, desde que se esteja disposto a olhar mais uma vez. Mesmo que eu faça escolhas erradas a forma como nos organizamos atualmente permite que eu mude e faça novas escolhas. Não há prejuízo nisso, havendo, em muitos caso, uma mais valia. Quando reflito sobre quais seriam as possibilidades de um cadeirante em qualquer outro período da história da humanidade, convenço-me, ainda mais, dos aspectos positivos do atual momento. Não que não existam problemas. Muito pelo contrário. Existem e muitos deles são reais, mas na solução de em cada um deles também existe uma nova oportunidade, transformando nossas vidas numa sucessão incrível de oportunidades. Mesmo sabendo que nunca se vê a mesma oportunidade, mas inúmeras outras continuam por aí, reinventando-se, assim como as pessoas. Por isso, deve-se viver como se fôssemos viver por 100 anos, com a consciência de que se pode deixar a vida a qualquer momento.

Nesse mundo e nesse momento é que nos encontramos. Aqui faço um parêntese. Antes de falar sobre motivação quero lhes dizer que não existe nada, mas nada mesmo, fora da natureza que não seja feito pelas pessoas e para as pessoas. Minha formação anterior tratava da gestão da qualidade por meio do acompanhamento dos processos, mas após estudar sobre gestão de pessoas entendi que se pode comprar ração para cachorro, mas é para uma pessoa. Foi isso que me fez entender que tem pouca serventia pensar em gerir processos se eu não pensar nas pessoas. Portanto, o grande atual desafio é fazer com que a visão do homem econômico seja alterada para um homem mais humano. Porque assim como nós evoluímos tecnologicamente também nossas motivações se desenvolveram. Se há 50 mil anos nossa motivação maior era terminar o dia vivo ao não ser morto por um predador, hoje nossa é outra. Passou-se certo período trabalhando com a motivação das pessoas na base da cenoura e do chicote. Metáfora em que um burro faz aquilo que se quer estimulando-o com uma cenoura. Caso não resulte postivamente usa-se o chicote, aplicando-lhe um castigo. A tão propalada teoria da recompensa e do castigo. Se nenhuma das duas estratégias surtir efeito troca-se o burro. Em inúmeras organizações ainda é assim. Com muitas tarefas ainda se obtém resultados dessa maneira. Entretanto, as motivações reais dos seres humanos já são outras. Tome-se como exemplo o caso de doadores de sangue. Na década de 1970 um pesquisador supôs que se o banco de sangue da Inglaterra começa-se a remunerar os doadores o estoque cairia drasticamente. Os economistas riram. Ficou por isso mesmo. No final da década de 90 um grupo de pesquisadores suecos fez a experiência com as doadoras de um banco de sangue de uma cidade. Separaram as doadoras em três grupos. Para o primeiro grupo apenas citaram a importância do gesto da doação. Para o segundo grupo ofereceram uma recompensa de $ 10,00. E para o terceiro grupo falaram da importância e ofereceram uma recompensa, mas acrescentaram a opção de repassar a recompensa para um hospital que tratava de crianças com câncer. O primeiro grupo obteve a adesão de 52% das mulheres. O segundo grupo obteve tão somente 30% de adesão, enquanto o terceiro grupo manteve índice próximo ao primeiro, por volta de 53% de doação de sangue.

Pode-se extrair desta e de outras experiências que já não se trata mais com “burros”. A gestão deve se preocupar com as pessoas que têm diferentes motivações, que se subdividem dependendo da situação na qual a pessoa se encontra. Quando sou gestor tenho uma motivação. Quando sou gerido minha motivação é outra. E não há pessoa no mundo que não esteja ora numa e ora noutra situação. A evolução tem acontecido de forma gradual. Há muitos anos tratavam-se as pessoas como se fossem máquinas. Depois passou-se a substituir pessoas por máquinas. Em seguida tínhamos pessoas cuidando das máquinas. Evoluiu-se rapidamente para a gestão com pessoas. Porque chegamos no estágio em que a qualificação é pré-requisito e se eu não trabalhar aqui trabalharei em outro lugar. Com estas pessoas torna-se mais fácil e mais justo trabalhar, além de mais rentável.

Aí entra o conhecimento. Sempre se diz que nós vivemos na era do conhecimento. Discordo, porque acredito que sempre se viveu na era do conhecimento desde que o mundo se entende por mundo. A diferença é que o conhecimento está acessível a uma parcela maior da população e assim como muitas verdades, pode ser volátil. Por isso, o grande diferencial está em reconhecer as diferenças, aprender com elas, desaprender e aprender de novo, ampliando consideravelmente a nossa qualidade e expectativa de vida. Como ainda não se pode ter uma vida biológica de qualidade superior aos 100 anos, pode-se ampliá-la pela aprendizagem, pela aquisição do conhecimento que permite com que se viva mais por ver mais.
Com o conhecimento pode-se gerar a competência. Entenda-se por competência o saber, o saber fazer, o querer fazer, o poder fazer e o saber ser/estar. Uma vez que se tem alguém com competência certamente se tem alguém com iniciativa. Pessoa com iniciativa provavelmente será também criativo. Avança-se assim, para uma  característica mais que é a da flexibilidade mental. Uma pessoa com conhecimento e competente também deve ter a humildade para ser flexível mentalmente. Porque o conhecimento deve gerar dúvidas. Certezas têm os ignorantes. O conhecimento deve gerar inquietação, curiosidade e flexibilidade. Certezas geram acomodação, passividade e rigidez.

Tem-se assim um caminho para alcançar os resultados, que são nossos objetivos individuais e organizacionais, podendo inclusive ser econômicos. Positivamente vive-se um momento de ampliação do conceito de lucro, objetivo das organizações. O lucro já não se reporta tão somente a questões financeiras, mas também abarca todas as partes com as quais a organização mantém interdependência. Qual é o lucro da sua organização? Pergunte-se, responda e trabalhe nessa direção. Caso você não consiga alinhar os seus objetivos, o seu lucro individual com o lucro organizacional vá em outra direção.

Notadamente as organizações tem caminhado na direção de reconhecer que o lucro teve seu conceito ampliado, porque na atualidade as melhores empresas para trabalhar também são as mais rentáveis economicamente. Isso é reflexo de políticas de gestão que respeitam o cidadão organizacional, os seus anseios e as suas particularidades, conforme a pesquisa feita nas melhores empresas para se trabalhar aponta a satisfação e a motivação como os itens mais importantes para permanecer no trabalho. Mais uma razão para se entender e para se aprofundar nos estudos motivacionais.

Por fim, oportunidades, motivação e resultados conseguem-se mais e melhor quando a organização trabalha com as pessoas, sabendo que não existe produto ou serviço que não seja feito por e para elas.

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