A importância do segundo


Moacir Rauber

Encostei o barco no trapiche da linda raia de Munique, na Alemanha. Estava ofegante, exausto, completamente esbaforido. Havia terminado a regata em quarto lugar, um resultado muito aquém do esperado. Logicamente, neste momento passam pela cabeça todo o período de dedicação, as opções feitas e, consequentemente, as abdicações resultantes daquela escolha. O período de treinamento dedicado, visando especificamente este campeonato mundial de remo, havia começado em fevereiro e agora estávamos em setembro. Foram horas, dias, semanas e meses de treinamentos diários, com raras folgas, muito esforço e muito suor, frutos de uma rotina cansativa de treinos repetitivos de musculação e remadas. Um circuito completo dos exercícios de musculação consistia no uso de dez diferentes aparelhos e equipamentos, entre eles o temível remo ergômetro, totalizando três horas. Puxa e solta o peso, repete uma, duas, quinze, trinta vezes. Olhar fixo na parede, no branco que não nos reconforta. Intervalo de um minuto e meio entre uma repetição e outra. Neste momento o tempo voa, depois pára. Voa no intervalo e pára no exercício. Cansaço e suor. Um objetivo fixo na memória, os exercícios e os dias se repetem. “Não há esporte de alto rendimento sem sofrimento, sem comprometimento”, dizia o treinador. O sofrimento fazia parte dessa rotina e o comprometimento tinha dois lados. O primeiro era o compromisso do atleta com o programa de treinos, o objetivo traçado de alcançar o melhor resultado com a maior doação. O segundo lado do comprometimento se referia aos malefícios trazidos ao corpo pelo ritmo excessivo de treinos, sobrecarga a que são expostos os músculos, os ossos, os ligamentos, as articulações e toda a estrutura orgânica do atleta visando um desempenho acima do que permite o próprio corpo, pensando em superar os tempos dos adversários. “Esporte de alto rendimento não é saúde, é exagero” vaticinava outra vez o treinador. E deixava bem claro que se nós quiséssemos ter mínimo de êxito nas competições deveríamos ter superação, dedicação e comprometimento em todos os dias de nossa preparação. Os treinos na água eram menos tediosos, porém não menos desgastantes. A minha categoria, que rema usando somente os braços, faz em média dez quilômetros de percurso na água por sessão de treinamento, muitas vezes se dava em dois períodos diários. Mas esse percurso não consiste em remadas de passeio. São diferentes exercícios sempre buscando o melhor desempenho. Na saída a orientação para que se fizesse cinco quilômetros de aquecimento, iniciando num ritmo mais lento, mas gradativamente alcançando uma pegada mais forte. Depois vinham exercícios de força e velocidade. Repetições intermináveis de vinte remadas em força máxima, dez remadas suaves, vinte, dez, e assim até completar mais quatro quilômetros. Por fim, mais um quilômetro de tiro livre em força máxima.

Toda essa preparação, toda a infindável repetição dos treinos diariamente para chegar em QUARTO lugar? Lembrar de todos os domingos que fiquei em casa ou no alojamento, enquanto meus familiares se reuniam para churrascos de fim de semana ou mesmo para alguns dias na praia… Todas as sextas à noite em que fui cedo para a cama, enquanto meus amigos se divertiam nas baladas… Não ter aceitado nenhuma oferta de trabalho para poder me dedicar exclusivamente aos treinos pensando em chegar em primeiro… Mas, no final, apesar de todo o empenho, cheguei em quarto lugar naquela derradeira regata! Naquele momento, soube que seria a última, pois não teria mais pique nem ânimo para repetir tudo outra vez. Mas, por outro lado, olhando para aquelas mais de vinte mil pessoas assistindo à regata, telões armados, empresas instaladas no local, emissoras de televisão transmitindo ao vivo, enfim, o circo armado, percebi que nada disso seria feito se somente participasse do evento aquele que chegou em primeiro lugar. Percebi que isso se aplica a todos os esportes. No futebol participam de uma competição 20 ou trinta equipes, mas em primeiro lugar chega somente uma. No tênis o ranking enumera mais de 1500 atletas, sendo um privilégio constar na lista, mas primeiro lugar existe somente um. Nas corridas de Fórmula 1, são vinte equipes, mas ao final da etapa somente uma chega em primeiro, bem como no final do campeonato… Também lembrei que sempre há lugar para o segundo, para o terceiro, para o quarto lugar, enfim… sempre há lugar para aquele que faz o melhor que pode! Afinal, quem seria o primeiro se não houvesse o segundo? E o segundo sem o terceiro? E o que seria de todos os anteriores se não houvesse o último? E este último certamente é melhor do que aquelas milhões de pessoas que sequer tentaram!! O nosso mundo é formado muito mais por pessoas que não alcançaram o primeiro lugar, ou seja, de segundos, terceiros e tantos lugares quanto haja na classificação.

E você, está buscando ser o primeiro ou está


caminhando para ser sempre melhor?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *