Você quer colo?

Mal entendidos e humor andam lado a lado…
As más intenções, algumas vezes, também podem gerar situações de humor. Depende dos fatos…
Você quer colo? é uma história que poderia ter acontecido em qualquer lugar, mas foi em Portugal. 
Não é piada, mas pode-se rir um bocado. Leia abaixo ou Ouça, clicando aqui. 
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Você quer colo?
A vida de um cadeirante tem inúmeras particularidades, entre elas a curiosidade que desperta em homens e mulheres convencionais sobre o seu desempenho, principalmente, sexual. Quando eu era mais jovem, lembro-me que esse fato facilitava a minha aproximação das mulheres curiosas. Os homens tratavam-me como um igual, desde que eu estivesse sozinho. Porém, bastava eu aparecer acompanhado por uma mulher, fosse amiga ou namorada, os olhares masculinos expressavam certo interesse bisbilhoteiro, quase que revelando uma pergunta: será que ele vai dar conta?

Nos mais de 25 anos como cadeirante sempre soube lidar muito bem com essa situação, embora isso não queira dizer que nunca tenha reagido frente as indiscrições maiores. Em 2009, morava com minha esposa, Andreia, em Portugal. Passados alguns meses conhecemos um vizinho de prédio, um senhor português com 82 anos, que havia vivido por mais de 40 anos na cidade do Rio de Janeiro. O primeiro encontro foi na rua, em frente ao prédio, enquanto voltávamos das compras feitas no mercado da esquina, 50 metros adiante. Ele nos cumprimetou e fez referência ao fato de sermos brasileiros. Puxou conversa. Falou das maravilhas do Brasil. Quando soube que éramos do Sul do país se empolgou ao descrever uma de suas viagens pela região serrana de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, com ênfase nas vinícolas de Bento Gonçalves, uma vez que era um pequeno produtor de vinho em Portugal. Foi simpaticíssimo! Por fim, ofereceu-se para nos fazer uma visita um sábado qualquer. Logicamente nós reforçamos o convite, como manda a boa educação, além de ser uma oportunidade para fazer novas amizades. Passadas duas semanas, um sábado à tarde, por volta das 15h, toca a campainha. Abro à porta e vejo o Seu Fernando com duas sacolas nas mãos. Pedi-lhe o que era aquilo e ele, simpaticamente, respondeu, Ah, nada, apenas alguns mimos em sinal de amizade! Fiquei tentado a recusar, entretanto não seria muito lisonjeiro da minha parte. Ele deixou as sacolas na mesa da cozinha. Ao abri-las, vi beterrabas e vagens, entre outros legumes. Algumas nozes, salames e queijo. Um mini rancho. Fiquei constrangido,  dizendo que aquilo não era necessário. Ele minimizou a importância das compras e destacou a garrafa de vinho de sua produção que nos oferecia. Esse sim, agradou-me. Em seguida fomos até a sala onde ficamos conversando a tarde toda. Logo após a primeira hora de conversa começamos a notar que algumas histórias se repetiam. Mas sentíamos que lhe fazia bem que pudesse compartilhar com brasileiros suas experiências vividas no Brasil. Por vezes, destacava algumas passagens um pouco picantes de sua vida, deixando-nos um pouco apreensivos. Mas ao final da tarde havia sido uma visita agradável. Quando ele se despediu disse-lhe que as portas de nossa casa estariam abertas para outras visitas, mas que não necessitava para isso trazer-nos presentes. Nos apertamos as mãos e ele saiu.
Duas semanas depois, novamente por volta das 15h, lá estava o seu Fernando. Trazia consigo, outra vez, duas sacolas de compras. Aquela situação me era constrangedora. Aceitei, mas com a condição de que aquilo não se repetisse. Fomos até a sala e recomeçaram as mesmas histórias da visita anterior. Ao final da visita ele nos convidou para que fôssemos até a sua casa para conhecer a sua esposa. Combinamos a data e lá fomos nós. Chegamos ao seu apartamento e fomos recebidos por sua esposa, uma mulher 26 anos mais jovem do que ele. Ela viria a ser sua sobrinha, filha de um irmão, segundo o que nos contaram naquela tarde. Ambos falaram-nos das brigas e da rejeição por parte da família em aceitar o namoro e o quanto tiveram que lutar para que pudessem ficar juntos, uma vez que todos eram contrários por se tratar de um relacionamento incestuoso. Por fim, o amor venceu. Uma história muito bonita. Entretanto, não tiveram filhos, o que gerava entre os seus parentes o comentário de que se tratava de castigo divino. Mas isso é outra história… A visita a casa do seu Fernando terminou com um soboroso café acompanhados por uma farta bandeja de bolinhos de bacalhau.
Sábado à tarde, quinze dias depois, às 15h, toca a campainha. Lá vou eu até a porta com a certeza do que veria ao abri-la. É, não deu outra. Lá estava o seu Fernando, com duas sacolas de compras, esperando para ser convidado a entrar. Olhei, demonstrando em parte minha insatisfação pelas sacolas, mas dei-lhe passagem. Ele já se dirigiu a cozinha para deixar as compras. Repetiu-se a tarde. Repetiram-se as histórias. Mais uma ou duas visitas nas mesmas condições. Porém, chegou um sábado em que eu não estava em casa. A história se repetiu, com a diferença de que minha esposa foi abrir a porta. Ele se dirigiu a sala e sentou-se num sofá. A Andreia noutro. Como eu estava demorando para aparecer ele perguntou onde eu estava. Ela lhe contou que eu saíra. Imediatamente, com um agilidade acima do normal para a sua idade, ele saiu do sofá em que estava, pegou uma banqueta e sentou bem em frente a minha esposa, que se assustou. Começou a conversar sobre as suas aventuras amorosas e extraconjugais no Brasil. Reforçou que as mulheres brasileiras são excepcionais, carinhosas e muito amorosas. Passou a insinuar-se, para por fim sugerir que ela lhe fizesse carinhos, já que a sua esposa não mais fazia. Ele a recompesaria por isso. A Andreia se espantou. Não sabia como lidar com a situação. Estava muda. Ele avançou, pedindo para que pudesse sentar em seu colo. Ela se esquivou. Saiu da sala, dirigindo-se até a  porta. Disse-lhe que eu chegaria em breve. Por fim, conseguiu convencê-lo a sair de casa.

Naquele dia, ao chegar em casa, percebi a Andreia meio estranha. Ela não estava como de costume. Perguntei-lhe: O que foi? Aconteceu algo?Ela disse que estava tudo bem, mas em seguida contou-me o ocorrido. Aquilo chocou-me, deixando-me bastante irritado, a princípio. Pensava comigo mesmo, mas o que é isso? O velhote está gagá e ainda quer tirar uma lasquinha com a mulher do próximo? Foi aí que me lembrei que não se tratava da mulher do próximo, mas sim da mulher do cadeirante. E como a muitos outros homens deve ter lhe ocorrido a fatídica pergunta, Será que ele dá conta do recado? Comecei a rir. Logo em seguida veio-me uma ideia a cabeça. Deixa comigo!, pensei. Passaram-se as duas semanas de costume. Naquele sábado à tarde quem não estaria em casa era a Andreia. Às 15h toca a campainha. Eu estava de prontidão. Dirigi-me à porta e a entreabri. Enquanto segurava com uma mão a porta entreaberta me colocava no vão impedindo a passagem, bem em frente ao seu Fernando. Ele me cumprimetou com um largo sorriso, segurando as duas sacolas nas mãos fez um gesto como quem pede para entrar. Eu não me movi, mas lhe retribui o sorriso, para em seguida comentar, Pois então, seu Fernando, hoje a Andreia não está em casa, mas já que o senhor falou de sentar no colo para receber um carinho, quem sabe eu não possa fazê-lo hoje? Vi o terror em seus olhos. Ele deu dois passos atrás, deixando cair suas sacolas. Eu prossegui com uma voz melodiosa, Venha, seu Fernando, eu sou muito bom nisso. Senta aqui no meu colinho… batendo nas pernas… que eu lhe faço carinhos… e dei outro sorriso. Ele quase enfartou na minha frente. Titubeou, mas ainda tentou articular alguma explicação que não saiu. Fui até o elevador, apertei o botão e voltei até a porta do apartamento. Antes de fechá-la ainda lhe disse, Ah, e leve suas sacolas! Não mais vi o Seu Fernando.

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