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Facetas!


Somos Únicos.
Somos Múltiplos.
By Moacir Rauber

A benção

Moacir Rauber
Nascemos, crescemos, ficamos bobos e casamos. Não é isso que se diz por aí? Pois é, um cadeirante tem os mesmos sonhos, desejos e síndromes como qualquer outro mortal. Assim, depois de 10 anos em cadeira de rodas, finalmente havia encontrado minha alma gêmea. Confesso que apesar de estar com 30 anos não pensava em casar. Minha intenção era ir “ficando”. Mas a intenção da minha namorada era outra. O primeiro beijo veio acompanhado da expressão, Ah, se você não me beijasse hoje eu não sei o que faria…, indicando como nós, os homens somos devagar. Na verdade já vínhamos sendo amigos por algum tempo. A química existia, mas eu nunca tinha a coragem de avançar. Mas no final deu certo….  Logo no dia seguinte ao primeiro beijo ela me telefonou para que eu lhe desse uma carona. Seu pai havia viajado e ela estava sozinha no trabalho. Ótimo!, pensei. Isso quer dizer que ontem não foi um completo desastre… E lá fui eu. Saí do escritório, passei em frente a loja onde ela trabalhava e dei-lhe carona. Seguimos para o mesmo lado da cidade, pois morávamos no mesmo bairro. Durante o caminho a conversa fluiu bem, considerando que até então éramos amigos e passávamos a uma condição diferente. Pareceu-me que nos sentíamos bem um na presença do outro. Isso não impediu que houvesse um momento de silêncio, deixando a impressão de que o tempo havia parado. De repente o silêncio foi interrompido por uma pergunta a queima-roupa dirigida a mim, Então, estamos namorando ou não? No momento em que a pergunta foi feita eu estava contornando um canteiro de uma avenida, seguido por um curva prolongada para a esquerda. O impacto da pergunta foi tão grande que quase perdi o controle do carro. Não sabia o que responder. Não me passava pela cabeça que seria abordado de tal maneira. A noite anterior para mim fora excelente, mas daí a estar namorando havia uma grande distância. Entretanto o que eu poderia responder para que aquele não fosse o primeiro e o último encontro? Engasguei-me um tanto, Bom… Bem… Sei lá…, até que consegui articular, Acho que sim… Olhei para o seu rosto, vi o seu lindo sorriso e entendi, Sim, eu estava namorando! Dali em diante as coisas aconteceram rapidamente. Um ano e meio depois estávamos nos casando. Tudo como manda o figurino. Primeiro o casamento civil. Depois o casamento religioso. Eu morava numa pequena vila em que o pároco era um padre bastante idoso, já um pouco confuso. Mas como eu havia sido seminarista eu tinha um amigo padre que gostaria que realizasse a cerimônia. Quando comuniquei ao meu amigo a data e o local este apenas me alertou, Moacir, desde sempre falei que gostaria de celebrar o teu casamento, mas na tua paróquia só posso fazê-lo se o “padre confuso” não estiver presente. É muito difícil de concelebrar com ele. Eu lhe garanti que não seria problema, porque já havia falado com o padre da paróquia que havia me dito que estaria de férias no período em que planejáramos a data do casamento. Tudo certo!

Chegado o dia do casamento fui no horário marcado para a igreja. Para minha surpresa a primeira pessoa que vejo na entrada era o padre confuso. Ao seu lado o padre meu amigo estava com cara de poucos amigos. Ah, meu Deus, pensei comigo. Agora somente falta uma briga entre os padres… Ao me aproximar e cumprimentá-los o padre confuso foi muito simpático e disse, Ah, Moacir, não podia deixar de vir ao teu casamento… Dei-lhe um sorriso, agradeci e virei-me para o meu amigo que fez aquela cara de indignado, mas deu de ombros e deve ter pensado, Fazer o que… A igreja estava cheia, a noiva chegou e a cerimônia começou. Tudo tranquilo! Uma homilia que tocou a todos que estavam presentes pela simplicidade e sensatez. Quando meu amigo padre estava para terminar a cerimônia o padre confuso não se conteve e pediu o microfone, Num dia como esses eu não poderia deixar de dizer algumas palavras. Eu conheço o Moacir. E vocês que estão vendo os noivos sentados sabem que é porque o Moacir é paralítico das pernas para baixo… Corei na hora. Não precisei sentar, porque realmente já estava, mas me mexi na cadeira incomodado. Deu aquele sentimento da vergonha alheia, principalmente quando ele prosseguiu, A Andreia somente conheci agora, mas posso dizer que ela é uma santa. Ela está se casando com o Moacir e vai ter que cuidá-lo como se fosse uma criancinha para o resto da vida… Nesse momento apenas ouvi um zum zum entre os convidados que assistiam a cerimônia e que me conheciam. O mal estar foi geral. Olhei para Andreia ao meu lado. Ela apenas sorria um sorriso amarelo. Olhei para meu pai que estava do outro lado. Ele apenas abanava a cabeça. Enquanto isso o padre, sem noção, continuava com a sua pregação falando sobre aquilo que não sabia para, por fim, dar uma benção com todo amor e carinho. Não havia nada a ser feito, apenas receber a benção. 

E que Deus o tenha!

Moacir Rauber

Moacir Rauber acredita que tem "MUITAS RAZÕES PARA VIVER BEM!" porque "MELANCOLIA NÃO DÁ IBOPE". Também considera que a "DISCIPLINA É A LIBERDADE" que lhe permite fazer escolhas conscientes, levando-o a viver de forma a "QUE POSSA COMPARTILHAR TUDO COM OS PAIS E QUE TENHA ORGULHO DE CONTAR PARA OS FILHOS".

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