Falando no modo automático…

Ríamos abertamente sobre o episódio recém ocorrido. O comissário de bordo ainda estava rubro e se desculpava mais uma vez.

Naquele dia saímos atrasados do aeroporto porque demorou até que encontrassem alguém que pudesse me ajudar a subir a escada que dá acesso ao avião. Segundo as informações, o equipamento que auxilia os usuários de cadeira de rodas a subir os degraus estava “em manutenção”. Deveria era estar estragado e ninguém se preocupara em consertá-lo. O rapaz que me acompanhava desde o portão de embarque não sabia a quem recorrer para me ajudar a subir. Falou com um. Ele não podia porque estava atendendo outra emergência. Falou com outro que também estava sem tempo. Abordou um terceiro que se recusou porque estava com problemas na coluna e não podia fazer esforço. Assim ficamos mais de dez minutos até que vieram mais duas pessoas que me auxiliaram a entrar na aeronave. Acomodei-me e finalmente todos os demais passageiros puderam entrar.

O comissário de bordo chefe da equipe me recebeu de forma muito atenciosa. A viagem foi tranquila. Não mais do que 55 minutos. Pousamos normalmente. Os demais passageiros desembarcaram. Fiquei ali observando… Primeiro, a cadeira de rodas estava demorando para subir. Segundo, sem ela eu não iria a lugar nenhum. A aeronave havia pousado afastado dos “fingers”, aquelas pontes móveis que dão acesso direto ao interior do aeroporto. Assim como subi eu teria que descer pelas escadas. 

Vi que o comissário estava um pouco nervoso. Perguntei-lhe:
– E a minha cadeira?
– Ela já vai chegar. Deixe-me ver…

Saiu e vi que falava no rádio com alguém. Voltou até mim e disse:
– Seu Moacir, o senhor aguarda aqui por alguns instantes que vou ver o que posso fazer para agilizar o seu desembarque. Parece que vai atrasar uns 20 minutos… e saiu rapidamente.

Não aguentei. Comecei a rir. A aeromoça que ainda estava cabine deu um sorriso encabulado. 

Logo eu falei rindo:
 – É, acho que ele não precisaria se preocupar de eu não esperá-lo…

Ela concordou comigo. Como eu poderia sair dali? Um paraplégico sentado numa cadeira que não tem rodas vai ficar no mesmo lugar por muito tempo.

Em seguida o comissário retornou e me informou:
– Vai demorar um pouco mais do que tínhamos previsto. Algum problema?
– Não, não. Eu espero aqui mesmo. Juro que não vou embora… respondi mais uma vez rindo, desta vez acompanhado pela aeromoça.

O comissário de bordo entendeu.
– É verdade. Desculpe-me. Sei que o senhor não poderia sair daqui. Falei aquilo sem pensar…


Muito fácil de acontecer quando falamos e estamos no modo automático, não é?

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