É preciso eliminar a deficiência…

Estive num evento organizado pelo CREA-PR com o apoio de diversas instituições, entre elas a Usina de Itaipu. Havia sido convidado por uma amiga que conheci há muitos anos, bem antes dela trabalhar na usina. Já haviam se passado outros tantos anos sem que eu a encontrasse. Ao vê-la, porém, pareceu-me que o tempo não havia passado, porque nossa amizade continuava intacta. Conversamos sobre todos os assuntos que velhos amigos conversam. Percebemos que nossas visões de mundo continuavam parecidas. Não podia ser diferente, porque senão não nos encontraríamos num evento que se propunha a tratar de acessibilidade para muito além da simples visão da eliminação das barreiras arquitetônicas. A pretensão dos organizadores do evento, incluindo a da minha amiga, era tratar do ser humano.

Observei a programação que continha muitos temas interessantes. Na segunda-feira à tarde a primeira palestra abordou um programa de governo que visa melhorar as calçadas públicas em pequenas cidades do estado. A segunda mostrou uma experiência de mobilidade urbana de uma cidade espanhola em que o palestrante demonstrou a preocupação com a viagem toda e não somente com os pontos de acesso. A terceira apresentou dados sobre a evolução da média de idade da população brasileira, além de índices de pessoas com deficiência e idosos no total da população. A questão da mobilidade reduzida é algo que nós vamos adquirindo querendo ou não. Não se trata de uma questão de gosto, mas da marcha do tempo. Na sequência mostrou como a tecnologia pode, efetivamente, melhorar a vida dos diferentes segmentos da população, destacando que a melhoria deve ser dirigida ao indivíduo. Assisti e participei. Circulei e conversei com outras pessoas no evento. Engenheiros, arquitetos, gestores e funcionários públicos. Pessoas com e sem deficiência. Pouco importa a classificação recebida. Falei e interagi com pessoas. O melhor de tudo foi perceber que as conversas e as trocas de ideias giravam sobre os temas que poderiam levar a uma verdadeira inclusão das pessoas no nosso formato de organização social. Logicamente que a acessibilidade e a eliminação das barreiras arquitetônicas estava presente, assim como as possibilidades de uso de toda a tecnologia que a humanidade construiu ao longo de sua história. Porém, pude identificar que a visão nos levava a finalmente entender que nós somos os usuários daquilo a que muitas vezes damos a prioridade. Muitas cidades são organizadas para atender aos carros, mas nós não somos carros; outras cidades são pensadas para priorizar os ônibus, mas nós não somos ônibus; por fim, outras cidades são concebidas para acolher carros, ônibus, trens, motos, bicicletas e até cadeiras de rodas. Melhor do que as opções anteriores, mas ainda assim nós não somos nada disso. Nós somos seres humanos usuários dessas tecnologias que devem nos servir. Temos que pensar nelas para que não sejamos regidos por elas. Por isso, muito mais do que acolher todos os meios transportes criados por nós as cidades devem ser pensadas para nós, indivíduos com necessidades particulares oriundas da sua singularidade. Quando a organização de qualquer cidade se pautar nas necessidades do indivíduo aí sim nós teremos uma sociedade inclusiva. A importância não está na calçada, mas no seu usuário. Foi esse o espírito que vi e senti no evento.
Um dos palestrantes tocou no conceito do desenho universal que foi criado para ajustar os produtos e os ambientes as pessoas e não o contrário, mentalidade em vigor sempre que se pensa no homem padrão para se produzir algo. Com isso em mente não há a necessidade de classificar as pessoas como jovens, adultos ou idosos; como baixos, medianos ou altos; como magros, normais ou obesos; ou como pessoa com ou sem deficiência. Entende-se que se a sociedade que organizamos e na qual vivemos não consegue atender a todos os indivíduos que ela abriga é a nossa forma de organização que tem deficiência e não os seus indivíduos.


Por isso, ao respeitar os indivíduos nós podemos sonhar com a eliminação da deficiência do ambiente social por nós criado, independentemente da condição do indivíduo. 

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