A nossa vida em projetos: “nós” e “eles”


Já escrevi sobre a tendência de que a gestão priorize cada vez mais os projetos com início meio e fim. Destaquei que, apesar de ter sido apontado como uma novidade, não passa de mais do mesmo. “Nós” sempre fomos e seremos parte de um projeto. Alguns maiores, outros menores. Alguns mais extensos, outros mais curtos. Alguns mais importantes, outros menos. No texto A nossa vida em projetos falo do tema, assim como em Liderança, uma questão de bom senso.  Não importa onde nem quando, mas cada um pode ser “nós” em muitos lugares. Pode ser “nós” com carteira assinada ou sem.  O que realmente conta é o quanto cada um se doa ao projeto do qual participa e o quanto acredita naquilo que faz. Espanta-me, porém, que muitos detentores de uma carteira assinada por prazo indeterminado não conseguem incluir na conjugação “nós” aqueles que trabalham na organização com contratos temporários. Miopia? Falta de compreensão que mesmo uma carteira assinada por prazo indeterminado pode acabar a qualquer hora? Sim, no fundo todos nós somos temporários…

Lembro do término de outro contrato de trabalho por prazo determinado. Os resultados foram excelentes. A equipe que se desligaria da organização já começava a trocar mensagens de despedidas. Uma semana antes do término do contrato o gerente comunicou a confirmação da dispensa. Porém, na conversa com a equipe o gerente disse que havia uma notícia ruim, mas também uma boa. A ruim já fora dada. A boa era que algumas pessoas seguiriam por mais um período para dar a devida manutenção, uma vez que se tratava de um produto com alto grau de tecnologia aplicado. As respostas dos membros daquela equipe me emocionam, reforçando-me a crença de que estamos num caminho evolutivo.
– Não se trata em absoluto de uma notícia ruim… Disse um deles. Nós já sabíamos do final desde o início. Estamos tristes com a separação, claro. Mas mil vezes a dor do fim do que nunca ter vivido tudo o que vivemos juntos. Acho que tivemos muita sorte! Fiquei muito feliz em participar com um time de pessoas tão diferentes e ao mesmo tempo tão complementares como aqui. Arrisco dizer, em nome de todos, que foi humanamente enriquecedor, além de toda a diversão mais pura e gratuita mesmo!!! Piadas, palavrões, risadas, gargalhadas, dancinhas, comilanças e  cantorias… Sorte a minha e também daqueles que continuarão. Parabéns e obrigado pela oportunidade!

Esse foi o primeiro e-mail enviado como resposta ao comunicado anterior. A ele se seguiram vários concordando em gênero, número e grau com a opinião dada. Todos orgulhosos por terem participado de um projeto tão importante. Sentiam-se “nós” naquele espaço e naquela organização. Muitos trabalhadores “efetivos” não se sentem tão “nós” em muitas organizações. Isso mais uma vez ficou evidente quando o gerente temporário dos trabalhadores temporários fazia a avaliação final com a equipe de trabalhadores permanentes da organização. Ele disse:
– Sim, nós concluímos todas as etapas, fizemos todas as tarefas a nós pedidas e entregamos um produto que está dentro dos melhores padrões de qualidade… E continuou discorrendo sobre a harmonia na equipe e no ambiente. Sobre a alta produtividade. Disse ainda que se preocuparam em fazer uma revisão final de todos os itens entregues, com os custos muito abaixo do que fora  inicialmente estimado. Falou com tanto orgulho, incluindo-se na própria companhia.

Um dos coordenadores efetivos disse:
– É, eles realmente formavam um bom time. Sempre foram muito produtivos.
E o outro emendou:
­– Lembrando que vocês não fazem parte da (citou o nome da empresa). Vocês são ligados a (disse o nome da empresa terceirizada). Uma coisa é bem diferente da outra.
O gerente temporário se ruborizou. Calou-se. Não disse mais nada. Depois disso a reunião foi encerrada.

É lamentável, entretanto, o entendimento, ou a sua falta, demonstrado pelos coordenadores permanentes da organização sobre os trabalhadores temporários na interação com o gerente, também temporário. Quantas empresas investem milhões em formação e qualificação esperando um dia que os seus colaboradores permanentes assumam a organização como sua referindo-se a ela como “nossa”? A grande maioria investe altos valores com índices baixíssimos de êxito. E aqueles coordenadores permanentes tiveram em mãos uma equipe temporária que vestiu a camisa da organização como se ela deles fosse. Não souberam entender. Menosprezaram o envolvimento e o comprometimento de seres humanos com o desenvolvimento de um produto de qualidade do qual eles seriam os primeiros beneficiários. Não só não entenderam como também revelaram uma certa arrogância e até falta de respeito derivados da falta de visão sistêmica da organização. Não tiveram a capacidade de captar que uma organização somente tem sucesso quando ela faz parte do “nós” de acionistas, diretores, gerentes, trabalhadores, consumidores e comunidade.  Segundo meu entendimento, deveria ser muito mais fácil, inclusive obrigatório, para os colaboradores efetivos incluir os temporários no uso do “nós” do que o contrário. Por isso, acredito que esses coordenadores mereceriam um intensivo programa de qualificação sobre visão sistêmica organizacional ou senão o desligamento sumário em benefício da própria organização.

Cada um com a sua visão, mas nós podemos ser “nós” em diferentes esferas da vida, assim como devemos reconhecer o “nós” na composição com o outro. Pode-se ser “nós” na relação afetiva, na família, nos amigos, no time de futebol, na profissão, no departamento, na organização e em tantas outras áreas.  Dessa maneira, nos projetos organizacionais em que se participa pouco importa a opinião de colaboradores mais ou menos efetivos em função de uma carteira de trabalho. Cada “nós” nesse ambiente é determinado pelo envolvimento e comprometimento de cada um com aquilo que faz.

Onde você é “nós”? Em qual projeto a sua doação lhe permite referir-se a ele como “nós”? Qual a organização você sente como sua podendo referir-se a ela como “nossa”?


“Nós” e “eles” depende de cada um.

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