O presídio e o sorvete…

Normalmente programamos um final de semana ou as férias para conhecer lugares bonitos, pitorescos, exóticos ou simplesmente diferentes que nos impactem. Pode ser uma linda paisagem nas montanhas ou uma bela praia no litoral. Um lindo por do sol no campo ou uma Catedral imponente numa cidade. Enfim, museus, teatros, cataratas, entre outras opções de turismo e lazer que nos fascinam. É algo importante e, quem puder, deve fazê-lo regularmente. Porém, não se pode fechar os olhos para a realidade humana, aquela que, na maioria das vezes, somente vemos pela TV, jornais ou sites de notícias. Pode-se surpreender com uma realidade que está ao nosso lado e não conhecemos. Na última sexta-feira fiz algo que me impactou de tal forma como há muito tempo não ocorria. Simplesmente sem comparação, porque  foi um choque de realidade. Na companhia de um amigo, viajamos 200km conversando sobre parentes, amizades e nossos “graves” problemas profissionais, assim como de algumas frustrações pela não realização de sonhos pessoais. “Ah!”, disse meu amigo, “Não posso esquecer de levar sorvete para casa hoje, senão o bicho pega…”. Não levá-lo seria um problema. Passamos mais de duas horas nessa conversação agradável e também choramingona. Finalmente havíamos chegado ao nosso destino. Estávamos em frente de uma Unidade Prisional. A psicóloga da unidade havia mantido contato comigo para avaliar a possibilidade de realizar uma palestra de cunho motivacional para todas as pessoas que trabalhavam na unidade. Mal sabíamos o que nos esperava.

O local onde o presídio estava construído era um pouco afastado da cidade. Avançamos por uma estradinha de terra que nos levava até ele. Chegamos devagarinho olhando para aquelas altas paredes. Mal rebocadas. Não pintadas, manchadas pela infiltração de água. Aquela cena já criou uma inquietação só de imaginar que o local estava cheio de gente. A princípio não vimos onde seria a parte administrativa. Eu, na minha santa ignorância acreditava que seria uma parte a parte da região onde ficavam os detentos. Não vimos nada que pudesse se parecer com isso. Circulamos por toda a extensão até um ponto onde vimos algumas janelas na altura de uma pessoa. Vimos gente circulando lá dentro. Vimos um portão de acesso. À sua frente algumas mulheres sentadas em alguns bancos de concreto. Imaginei que fossem pessoas que trabalhavam no local, talvez ajudantes de limpeza ou da cozinha. “Bom, a entrada deve ser ali mesmo..”, pensei. Estacionamos o carro e desembarcamos. Enquanto isso vi uma portinhola na enorme porta de metal se abrir, um rosto masculino aparecer e duas das mulheres que ali estavam sentadas, entraram. Restou uma última. Nós a cumprimentamos e indaguei:
Para falar com o pessoal do presídio, como faço?
– Acho que o senhor tem que tocar a campainha ali… Disse ela.

Tocamos a campainha. Minha apreensão inicial aumentou. Pareceu-me que meu peito ficava um pouco mais apertado. Eu estava para entrar num presídio real pela primeira vez na minha vida. Não seriam imagens da televisão. Não seriam joguinhos de bandidos e policiais. Eram pessoas que viviam, sentiam e trabalhavam com outras pessoas que viviam e sentiam, mas estavam ali detidas. Em seguida a portinhola se abriu e o agente penitenciário olhou para perguntar:
O que os senhores desejam?

A voz quase não saiu. Enrosquei-me todo para falar. Gaguejei. Finalmente articulei uma frase completa:
– Nós queremos falar com a psicóloga…
– Qual o motivo?

A conversa seguiu até que eu tivesse dado as explicações do motivo da visita e que se tratava de um agendamento já feito. Ele pediu para que aguardássemos um pouco. Enquanto isso conversamos com aquela senhora que nos disse ser a primeira vez que estava ali no presídio. Viera acompanhar a filha que estava fazendo uma visita ao marido que estava preso. Disse-nos ela:
Meu genro é gente boa, mas às vezes ele apronta algumas…Continuou explicando os motivos da sua presença, assim como a de seu genro naquele local. Justificava-se para nós também para se justificar perante si, creio.

Nesse momento a porta se abriu. Meu amigo estava calado. Pensativo. Talvez lembrando do sorvete… Convidaram-nos a entrar. Passamos pelo vão do portão e nos deparamos com uma movimentação de pessoas que empurravam carrinhos para um lado e outro. Transportavam alimentos e também roupas. Era uma espécie de recepção, um mini hall de entrada de onde saiam diferentes pequenos corredores. Fiquei um pouco perdido, meio deslocado. Nisso se aproxima uma mulher jovem, alta e muito simpática para nos cumprimentar:
– Oi, você é o Moacir?
– Sim, sim. Você é a psicóloga com quem falei sobre um evento?
– Sim, sou eu, disse ela. Siga-me, venha até a minha sala.

Ela saiu caminhando rapidamente e nós a seguimos. Alguns corredores, portas, grades, pessoas, cozinha, barulho. Um calor infernal. Aquele foi o dia mais quente do verão. A temperatura se aproximava dos quarenta graus, mas a sensação térmica superava em muito a temperatura como resultado do ambiente fechado, pouca ventilação e muita umidade.

Um pouco depois ela abriu uma porta e estávamos no seu escritório. Uma salinha minúscula que acomodava a sua escrivaninha, um pequeno sofá para a visita, algumas prateleiras com livros e mais uma mesa. Pelo menos a sala estava com uma temperatura suportável, uma vez que tinha ar condicionado.

Ela acomodou-se atrás de sua escrivaninha, meu amigo no sofá e eu fiquei na minha cadeira. A expressão no rosto do meu amigo confirmava a minha própria sensação. Ele, assim como eu, estava chocado. Não há como descrever a sensação de apreensão, receio, temor ou simplesmente de aperto no peito, mas estava estampada em nossas caras.

Enquanto ela mexia em alguns papéis, ainda de forma um pouco acanhada constatei por meio de uma pergunta:
Mas vocês trabalham junto com os detentos…?
– Sim, disse ela exibindo um sorriso franco. Eu atendo os detentos aí onde vocês estão. Somente ontem fiz vinte atendimentos. Alguns deles vem algemados e outros sem nada.

Ela via em nossas caras que estávamos espantados. Foi a vez dela constatar, perguntando:
Vocês nunca entraram antes num presídio…?
– Não, nunca. Estou impressionado com o ambiente…
– É pesado, não é? Parece que as pessoas se sentem oprimidas… E continuou falando sobre algumas características e particularidades de se trabalhar numa unidade prisional.

Aquela psicóloga nos deu uma aula. Não havia nenhuma presunção em sua fala. Havia a descrição de fatos e sentimentos das pessoas que ali trabalham e compartilham as suas vidas com pessoas que ali pagam as suas penas. Percebeu-se a preocupação com os colegas de trabalho que atuam diretamente com os detentos, assim como com os próprios detentos. Tivemos uma aula de cidadania, de direito e de sensibilidade ao demonstrar que ela se importa com as pessoas.

Acho que o meu amigo já nem lembrava mais do sorvete…

Nós ficamos calados ouvindo e sentindo sobre uma realidade que não há como descrever num programa de televisão. Sentíamos o cheiro e ouvíamos os ruídos da prisão. Não existem palavras que possam expressar o que é estar lá.

Ela nos convidou para que visitássemos as alas em que os presos ficam. Comentou que o presídio foi construído para abrigar 117 pessoas, mas hoje contava com a presença de mais de 500. Aceitamos o convite. Ela manteve contato com o chefe do agentes penitenciários. Ele e ela gentilmente nos acompanharam. Um agente nos abre a porta. Outro observa. Sente-se a pressão nos seus gestos. Parece que sempre estão alerta, porque qualquer mudança de rotina pode ser o estopim para algo que possa fugir do controle. E nesse caso a vida está diretamente em jogo. Nós olhamos os presos. Do outro lado os presos também nos observam. Alguns curiosos. É comum eles verem pessoas passando por aqueles corredores, entre visitas, pastores e autoridades, mas não deve ser tão frequente que um usuário de cadeira de rodas circule por ali. Alguns sorriem e nos cumprimentam. Outros simplesmente permanecem isolados em seu mundo. Olhava para aqueles presos que exibiam aquela expressão de cidadãos comuns. Poderia ser um filho, um irmão ou um amigo. Eram gente como a gente.

O agente penitenciário e a psicóloga nos explicam o funcionamento das alas. Mostram as salas de aula. As solitárias para aqueles que provocavam confusões. O pátio de tomar sol. As salas de inspeção para aqueles que trabalham fora da unidade, que são revistados antes de sair e também quando voltam para o presídio. São instalações pequenas ao se considerar a presença de tanta gente.

Passamos por vários agentes penitenciários. Encontramos um Policial Militar. Todos muito solícitos, porém sempre com a expressão de quem está alerta. E não há como ser diferente, porque também cruzamos com presos que estavam sendo retirados de suas celas para algum tratamento dentário ou médico. Aquela sensação de apreensão aumentava simplesmente ao imaginar que aquela pessoa ao meu lado era alguém que havia cometido um crime. Qual crime? O que o levara a cometer algo que não está dentro dos padrões estabelecidos pela sociedade? O que se passava pela sua cabeça naquele momento? Outros presos chegavam para a inspeção, pois retornavam de sua jornada de trabalho.

Assim terminamos a nossa visita pelo presídio. Para nós foi um tour. Uma visita impactante num local exótico. Assim que saíssemos dali retomaríamos a nossa rotina no nosso mundo, até certo ponto seguro. Mas ali, internamente a rotina continuaria. O trabalho é diário. Aqueles agentes penitenciários que estavam ali hoje, estiveram ontem e vão estar amanhã. Trata-se da vida daquelas pessoas. Será que eles, todos que trabalham na unidade prisional, tem a real noção da importância para os demais cidadãos do seu próprio trabalho?

Saímos dali e retornamos para a sala da psicóloga. Meu amigo e eu estávamos pálidos, transparentes. A sensação de estar num universo paralelo, cruel e perigoso onde os sonhos não existem e as frustrações são a única realidade era imperativa. Diante daquela situação nossos problemas eram inexistentes. As nossas frustrações eram mínimas. E poderíamos nos considerar plenamente realizados, porque tínhamos a possibilidade de ter sonhos.

Podíamos até pensar num sorvete…

A psicóloga nos confessou que a resposta para a pergunta sobre o reconhecimento da importância do trabalho de quem ali trabalha é quase que inexistente. O reconhecimento não acontece pela sociedade e também não pelos órgãos que são responsáveis pelo sistema prisional. Disse ela:
A direção tenta mostrar a importância do nosso trabalho, mas dificilmente você vai ver alguém chegar aqui e agradecer a essas pessoas pelo que fazem. Não vi nenhuma entidade, associação ou ONG fazer um agradecimento às pessoas que trabalham num presídio por ter recuperado uma pessoa. Muitos dos presos que por aqui passaram nunca mais retornaram, porque voltaram para a sociedade, se reintegraram e levam uma vida completamente normal. Mas o foco sempre recai sobre os reincidentes. Aqueles que vão e voltam…

E continuou:
Normalmente as notícias associam os agentes aos problemas e à corrupção existente no sistema. O nosso quadro de agentes é composto por pessoas boas… Muitos estão cheios de medos, agem de forma rude, mas é a forma de se proteger no ambiente que trabalham.

Ela ainda nos relatou situações incríveis como o valor das mercadorias entre os presos. Apesar de todo o controle o câmbio negro é uma realidade. Citou quanto vale um celular, um pacote de miojo, um chocolate ou outros produtos que entram no presídio. E como entram? Nas visitas dos familiares, dos amigos e dos advogados. Finalizou:
– A pressão sobre quem trabalha aqui é enorme e o reconhecimento mínimo. A questão salarial também é uma demanda, mas não é o principal.

Assim, retomamos o ponto do motivo da nossa visita ao presídio que era a busca por uma palestra de cunho motivacional para todos os que trabalham ali.

Encerrada a visita o caminho de volta com o meu amigo foi muito diferente. Inicialmente, estivemos em silêncio. Toda aquela nossa tagarelice sobre nossos problemas pessoais, familiares e profissionais se haviam dizimado. Nada se comparava àquela realidade que havíamos testemunhado. Sonhos? Sim, podemos tem qualquer um. É uma questão de escolha.

O choque fora imenso. O alívio era enorme. Ainda assim saímos da unidade prisional com uma sensação positiva. Constatamos que existem pessoas que fazem a diferença. Nós estivemos com uma delas. 

Também entendemos que as nossas vidas eram incrivelmente lindas. Chegamos na casa do meu amigo:
Cadê o sorvete? 

Apareceu a sua mulher na maior aflição. E ela não estava brincando. Aquilo era um problema. Nós nos entreolhamos e caímos na gargalhada. Quem estava preocupado com um sorvete naquelas alturas? A esposa dele não entendeu nada, fez beicinho, virou as costas e entrou na casa.

O meu amigo falou:
Lembra que minha esposa pediu um pote de sorvete? Cara, esqueci completamente…
– Sim, sim. Entra no carro e vamos buscar o sorvete…

Rimos de nossa própria mesquinhez. Perto do que vimos nada seria problema. O problema é que a esposa do meu amigo não presenciou a mesma realidade. Para ela, naquele momento, o marido aparecer sem o sorvete em casa era um grande problema.

Somos seres humanos… Somos seres estranhos, não somos?

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