Seres humanos, seres estranhos e o uso da água…

Você quer um local onde o uso racional da água não existe? 
Vá para um hotel de alto padrão. Um banho de uma pessoa consome água que daria para outras tantas o fazerem sem nenhum prejuízo da higiene. Vá então para o restaurante. Observe as pessoas tomarem o seu café da manhã num hotel. Elas entram e olham a oferta dos mais variados tipos de alimento. Pegam um prato e se servem de mamão. Comem o mamão. Deixam o prato na mesa. Pegam outro prato e se servem de abacaxi. Comem o abacaxi. Pegam outro prato e se servem de pão  de queijo. Comem o pão de queijo. Pegam outro prato para se servir mais alguma coisa. E assim a cena de repete. As pessoas que ali trabalham quase não conseguem repor os pratos limpos necessários para atender a demanda. Ao final do café da manhã cada hóspede usou uns tantos quantos pratos para fazer uma única refeição. Pratos que usam água para serem lavados. E os congressistas que participavam daquele congresso internacional sobre o uso racional da água estavam lá, lambuzando-se nos prazeres da boa comida desperdiçando água como nunca. E eu também…
O uso racional dos recursos naturais não é só uma tendência, é uma exigência fundamentada na constatação de que não há o suficiente para que se continue a usá-los da forma como os usamos.
Pode-se entender o uso desregrado que fazemos dos recursos naturais? Claro que sim. Os seres humanos têm uma história planetária de mais de uma centena de milhares de anos em que nunca ainda se havia descoberto o último rincão do planeta. De repente, nos últimos séculos, descobrimos que o planeta é finito e que os recursos também o são. Sabemos, mas ainda não internalizamos essa realidade para modificar nosso comportamento. Ainda não paramos de nos reproduzir e nem de aumentar o consumo de tudo que está disponível.
Pode-se condenar o uso desregrado que fazemos dos recursos naturais? Em algum momento terá que se começar e a tomada de consciência da finitude dos recursos naturais é um bom indicador. Em muitos casos, o discurso sobre a percepção da necessidade da mudança dos hábitos de consumo vem se alterando, mas a realidade ainda não é impactada por ele. Fala-se muito  no uso racional dos recursos naturais, bem como do desenvolvimento de modelos sustentáveis de vida, porém com pífios resultados práticos. Um dos itens em pauta, recorrentemente, é a água. Discorre-se, teoriza-se, fala-se e organizam-se eventos internacionais, nacionais e regionais para tratar do tema. Para a surpresa de poucos, mas para o deleite dos pensadores que apresentam dados e números insustentáveis sobre usar mal o recurso “água”, os eventos, em sua grande maioria, são realizados em modernos e chiques hotéis de alto padrão.
E esse é um exemplo mínimo, mas que mostra toda a nossa incongruência como seres humanos. Mas é certo que os congressistas daquele evento sobre o uso racional da água têm boas ideias para os outros implementarem. Sempre assim, não é?
Será que esses debatedores tomaram realmente consciência do discurso que alardeiam?

Quando será que todos nós, simples mortais, tomaremos consciência dessa realidade?

Somos seres humanos. Somos ou não somos seres estranhos?

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