Joia ou bijuteria

Outro dia estava no balcão de atendimento de uma companhia aérea para despachar minha cadeira de rodas. Logo atrás duas filas. Uma para todos os clientes e outra para os prioritários. Na fila dos prioritários estavam um senhor muito idoso, outro cadeirante, uma senhora com uma criança de colo e, na frente deles, uma linda, elegante e jovem senhora.  Aparentemente, ela não tinha nenhuma característica que a identificasse como prioridade. Uma pessoa da companhia aérea a indagou sobre o fato de estar posicionada na fila das prioridades. Ela respondeu, já agredindo em alto e bom tom:
Eu sou cliente… (deu o nome da categoria especial a que pertencia, uma joia rara. Poderia ser para ela ou para a companhia) e exijo atendimento prioritário.

A elegância daquela senhora desapareceu imediatamente. A joia deixou de brilhar. As cabeças de todas as pessoas se voltaram para ela. A pessoa do balcão, educadamente, tentou explicar:
Minha senhora, a companhia não tem atendimento diferenciado aqui nesta cidade, porque temos poucos pontos de atendimento…

A plateia estava na expectativa, pois estávamos na eminência de um barraco. A senhora, percebendo a atenção da plateia, não se deu por vencida e aumentou o tom:
­- Isso é uma vergonha. Por que então sou cliente (mais uma vez deu o nome da jóia da sua categoria)? Quero falar com o supervisor…

O tom alto de sua voz diminuiu o brilho de sua beleza e elegância. Todos ali já viravam a cabeça de um lado a outro, quase como num jogo de tênis. Qual seria o próximo golpe? A moça do balcão respondeu:
Eu sou a supervisora nesta cidade. Pode falar comigo…

Aquela joia de senhora, momentaneamente, titubeou. Pareceu-me que havia perdido o ímpeto e o brilho completamente, porém ainda respondeu:
Vou falar com quem manda nessa companhia, porque eu os conheço…

Na sequência dirigiu-se para a outra fila, sacou, quase como se fosse uma arma, um celular e começou a fazer ligações. O tumulto parou por aí. A vida seguiu.

Sempre que é anunciado a abertura para o embarque de um voo vejo as pessoas formarem aquela fila imensa. Não entendo muito bem quais os benefícios de ser o primeiro a embarcar num voo… Talvez porque como usuário de cadeira de rodas eu quase sempre seja o primeiro a embarcar, querendo ou não. Por outro lado sou o último a sair…

Naquele dia, o que vi, foi uma joia ser transformada em bijuteria, tanto para a senhora como para a companhia.


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