Futebol, equipes de um homem só…

Gosto muito de futebol. Considero-o um dos esportes mais justos e estratégicos que existe. No meu ponto de vista, ele é justo porque permite que quase qualquer indivíduo possa desenvolver habilidades importantes para o jogo conforme o seu biotipo e não somente por causa dele. Pode-se ter um craque alto ou baixo, rápido ou nem tão rápido, diferentemente de outros esportes como o basquete, o atletismo ou o voleibol. Para mim o futebol é um esporte estratégico porque há a necessidade de que pelo menos a grande maioria jogue bem para que o resultado seja positivo. Para esse fim é necessário uma certa harmonia entre os componentes da equipe para que a sincronia das jogadas surta efeito. O goleiro precisa cumprir com o seu papel, assim como os defensores, os meio-campistas e os atacantes. Se é importante fazer gols também o é não sofrê-los. O resultado favorável depende dessa combinação. Porém, a observação que quero fazer refere-se ao desserviço que a imprensa tem prestado ao futebol ao transformar um esporte coletivo em individual. 
Como assim? Transformar esporte coletivo em individual? Explico. Quando rememoro as conquistas do futebol brasileiro na copa de 1970 me vem à lembrança uma série de jogadores. Não dá para falar dessa copa sem lembrar de Tostão, Jairzinho, Rivelino, Clodoaldo, Pelé, entre outros jogadores que nunca vi jogar, porém com a sua memória preservada no registro pela imprensa. Ao voltar para a copa de 1982, em que a nossa seleção não conquistou o título, vem-me a memória o time inteiro. Tudo bem que foi a primeira que assisti na plenitude de minha juventude, mas lembro-me que a imprensa esportiva destacava a beleza do futebol coletivo dessa equipe que tinha jogadores como Zico, Sócrates, Falcão, Júnior, Leandro, Toninho Cerezo, Éder & Cia. Entretanto, ao avançar para as copas de 1994 e de 2002, as quais assisti já como adulto, não consigo lembrar tão facilmente dos jogadores. Por quê? Não sei se somente é uma percepção minha, mas ao buscar os registros sobre 1994 o que se ouve e se lê é que foi a copa de Romário. Algumas reportagens falam da parceria de Romário com Bebeto e olha lá… Alguém lembra que havia o Mazinho? Ao falar sobre a conquista de 2002 somente se dá destaque a Ronaldo, o Fenômeno! Alguém dá o devido destaque ao incansável Gilberto Silva? Do eficiente Kléberson? Não, parecem fantasmas, assim como os outros 22 jogadores que compunham o elenco. Às vezes parece que nessas copas entrava em campo apenas um jogador sem a ncessidade de que outros dez também jogassem. Esse virou o mote. O ungido pela imprensa e mais dez! E essa prática, a meu ver, continua. A seleção brasileira de 2014, ao entrar em campo, assemelha-se a um esporte individual porque se fala somente num jogador. A imprensa já escolheu. Quase todas as notícias e as imagens são feitas do mesmo jogador. Os suspiros, as caretas e o penteado destacados são desse mesmo jogador. Pouco importa o que aconteça os holofotes voltam-se para o ungido. Se ele fez o gol, é goleador implacável. Se ele deu o passe, é genial. Poderia ser inverter a situação, mas “genial” e “implacável” continuaria sendo o ungido. Não consigo entender a necessidade dessa mistificação individual num esporte que tem uma dependência coletiva tão grande. Faz-me perder o encanto. Eis aí parte do desserviço da imprensa ao vincular o sucesso de uma equipe a um jogador muito além da realidade.

O exemplo que repercute na sociedade dessa forma de veicular as notícias é outro desserviço. Outro dia escrevi um texto sobre a importância de se destacar a interdependência existente mesmo em trabalhos e esportes supostamente individuais(ver link). Nele falo sobre a importância de elementos de suporte e de apoio que são menos visíveis nesses esportes e profissões, entretanto não menos importantes, criticando pessoas que acreditam ser “euquipes”. São aquelas pessoas que não conseguem perceber a importância do outro no caminho para a realização individual. Esse sentimento é completamente desprezível num esporte ou numa atividade coletiva, sendo mais um desserviço prestado pela imprensa ao estimular o comportamento de indivíduos como se “euquipes” fossem. Isso porque o exemplo se estende para outras esferas da nossa sociedade. São as crianças e os jovens que começam a fazer ilações equivocadas sobre as relações sociais e interpessoais, passando a acreditar que tudo deve girar em torno deles. São as pessoas nas organizações que não medirão esforços para se sobressaírem, mesmo sem o devido mérito. As competições (link para um texto sobre o tema) nos levam a buscar o primeiro lugar e isso é positivo. Mas devemos lá chegar fazendo o melhor que pudermos aquilo que fazemos, sempre reconhecendo a importância dos outros nesse processo. Em esportes coletivos esse comportamento deve ser notícia, sem desmerecer os destaques e não o contrário. Caso continuemos a divulgar o esporte como o fazemos hoje melhor seria que começássemos a disputar jogos de futebol com equipes de um homem só. Na imprensa já é assim…

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