E se fosse a sua filha?

Nas últimas semanas minha esposa e eu fizemos várias palestras nas quais atuamos conjuntamente. Ela, uma mulher jovem, linda, inteligente e profissionalmente bem-sucedida. Eu, um homem menos jovem. Bom, com relação à minha beleza ou inteligência não vou falar nada…  Profissionalmente, atuo naquilo que gosto. Alguns detalhes: ela é filha única e eu sou um usuário de cadeira de rodas.
Nas nossas apresentações discorremos sobre competências técnicas, mas sempre lembrando das competências humanas que as pessoas deveriam exibir no ambiente de trabalho. Destacamos que somente o bom desempenho fundamentado no saber fazer não garante que sejamos bons profissionais. Desempenho se espera de qualquer um. Precisamos muito mais do que isso. Precisamos saber estar com as pessoas, porque as oportunidades existem com elas. Para esse fim, a humildade sem a subserviência e a assertividade sem a arrogância podem permitir que consigamos enxergar a pessoa e o profissional por trás de um rótulo qualquer. É fácil conseguir isso? Não creio que seja, mas é possível. Essa crença se fundamenta naquilo que minha esposa e eu vivemos no período em que nos conhecemos, namoramos e casamos. Em várias ocasiões, logo após o encerramento das palestras, as pessoas se aproximam de nós para nos dizer, “Que casal bonito vocês formam!!!”, “Parabéns, vocês são um exemplo!!!”, entre outros elogios que recebemos com muito carinho e consideração. Porém, os elogios e as felicitações, muitas vezes, nos são dadas porque essa situação não aconteceu na família de quem nos cumprimenta. Pode parecer rude essa afirmação, mas reflete uma realidade. Não há julgamento sobre as pessoas serem boas ou más na afirmação, há somente a constatação de que o desconhecido continua a nos assustar. Também não há nada de errado nisso, porque estranhar o desconhecido faz parte do nosso instinto de sobrevivência. A diferença está naquilo que fazemos frente ao desconhecido. Procuramos conhecer ou nos fechamos no que pensamos sobre o que não conhecemos? Há duas semanas nós nos deparamos com uma situação que evidencia isso.
Encerrada a nossa palestra no evento, minha esposa e eu fomos para uma área onde as pessoas circulavam no tempo livre entre uma atividade e outra. Conversávamos com várias pessoas que nos haviam assistido. De repente se aproxima de nós uma mulher que deveria ter lá seus quarenta e cinco anos. Ela nos cumprimentou e, educadamente, pediu:
Eu poderia falar com vocês por alguns instantes?
Percebemos que a intenção era falar em particular. Logo concordamos e nos deslocamos para um local isolado. Ali a mulher começou a dizer:
Não sei nem como começar, mas nós temos um problema na nossa família…

Ela interrompeu a fala, corou, gaguejou um pouco e continuou:

Não deveria ser um problema, mas é difícil… Meu marido e eu temos uma única filha. Ela está com 18 anos e está namorando um… Mais uma vez se engasgou. Sentimos a emoção tomando conta daquela mulher.

Parecia que ela não sabia como continuar. Nós ficamos em silêncio, respeitando o tempo dela. Por fim ela disse:

– Olhando para vocês eu me senti com muita culpa, porque a minha filha está prestes a se casar com um cadeirante e nós não queríamos isso. Nós queríamos o melhor para a nossa filha. Por isso, já tivemos muitas brigas lá em casa. Às vezes perguntávamos para ela, “O que você vai fazer com ele? Ele nunca poderá acompanhá-la em todas as atividades…”. Mas ela está determinada a namorar e a se casar com ele. Só que vendo vocês dois juntos há tanto tempo, felizes, não está me parecendo tão ruim… Ela parou de falar. As lágrimas surgiram em seus olhos. Internamente tive que rir pela expressão, “…não está parecendo tão ruim…”.

Depois de alguns segundos em silêncio a minha esposa disse:
Olha, eu também sou filha única. Eu casei com o Moacir, não com o cadeirante. Muitas pessoas próximas a mim me questionaram da mesma forma e acho que dá para entender a preocupação.
A mulher olhava para a minha esposa com admiração. Eu estava quietinho. A minha esposa prosseguiu:
Quero dizer que eu nunca vi a cadeira de rodas do meu marido, eu sempre vi a pessoa que ele é. Acho que a felicidade que nós vivemos nesses quase vinte anos de casamento não tem nada a ver com a cadeira. Também não foram somente flores. Tivemos nossos problemas. Eu acredito que para a sua filha se casar bem o que realmente importa é quem é a pessoa com a qual ela vai se casar…
A Andreia continuou a falar sobre algumas situações vividas por nós, as nossas viagens e as nossas aventuras e desventuras. Comecei a participar da conversa. Contamos casos engraçados como aquele de uma amiga dela que lhe perguntara como ela faria quando quisesse viajar e o marido não a pudesse acompanhar… O destino, com sua dose de ironia, tratou do assunto. Menos de seis meses após o nosso casamento eu viajei para Cuba pelo período de trinta dias, sozinho! Via-se nos olhos daquela mulher que aquilo lhe fazia bem. Por fim ela disse:
Muito obrigado pelo tempo e pelo exemplo. Estou muito melhor com relação à decisão da minha filha… e se despediu na sequência. Minha esposa e eu nos entreolhamos. Sim, quase vinte anos depois e continuamos vivendo muito bem!
Saber estar com as pessoas é ver a pessoa e não somente o seu rótulo. É um cadeirante? Não, é uma pessoa. É um padre? Não, é uma pessoa. É um engenheiro? Não, é uma pessoa. Por isso, não é o fato de que o namorado tenha um rótulo ou outro que dará a chance de que aquela filha única seja feliz, mas sim a pessoa é que fará a diferença. E a cadeira não tem nada a ver com isso, é apenas um detalhe. Certamente que os pais querem o melhor para os seus filhos, por isso estranhar não é problema. Questionar não é problema. Porém, lembrar que procurar entender, aceitar, superar, evoluir e respeitar é o que nos torna melhores, permitindo que vejamos a pessoa por trás dos rótulos. Quem for capaz disso até terá um desempenho melhor…
Por fim, fica a pergunta: o que você diria se a sua única filha quisesse se casar com um cadeirante?
No próximo post vou contar como o meu sogro e a minha sogra receberam a notícia que a única filha deles estava namorando um cadeirante…

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