E se fosse a sua filha 3? Enfim, a sogra…

Genro e sogra são capítulos a parte. A relação com a minha sogra não é diferente… Tudo começou quando ela soube que a filha dela estava namorando um cadeirante. Isso também foi lembrado pela minha esposa no jantar com o meu sogro, conforme relatado nos posts E se fosse a sua filha? e E se fosse a sua filha 2? O sogro.
A conversa estava animada, pois as lembranças eram ótimas.  Agora era a vez de falar sobre como fora a reação da mãe da Andréia para essa revelação. O desfecho foi bem diferente… A minha esposa lembrou que também estava um pouco temerosa de contar para a mãe. Nunca teve dúvidas com relação à decisão do namoro, mas ficava um pouco intimidada com uma possível reação negativa da mãe e talvez do círculo de amizades dela. Cidade pequena, todo mundo conhece todo mundo. Sabe como é…
No final de semana em que ela começou a preparar o terreno para contar a novidade, disse:
– Mãe, no próximo final de semana gostaria de te apresentar o meu namorado…
A mãe da Andréia, sem dar muita importância para a conversa, apenas respondeu:
– É?… E continuou sentada no sofá, tricotando.
– Sim, mas queria dizer que talvez você possa não gostar muito dele.
– Por que, minha filha?
– É que ele é cadeirante… Disparou a Andréia.
A mãe dela parou de tricotar, levantou-se do sofá num rápido impulso, olhou para a filha e disse:
– Ah, mas não vai fazer ele sofrer. Se for para isso escolha outro…

Quando a Andréia terminou de contar essa história nós rimos até chegarmos às lágrimas. Também o olhar para trás, nesse caso, revelou-me a real preocupação com o outro. A mãe da Andréia não estava tão preocupada com a filha, mas sim com um possível sofrimento que o seu comportamento poderia infringir a outro, que supostamente já sofrera muito… Essa genuína preocupação com o outro também vejo refletida no comportamento da Andréia.
O jantar prosseguiu. A Andréia e o pai dela continuaram a conversa. Eu permaneci nas lembranças e veio-me à mente como se fosse hoje a primeira visita que fiz à Andréia na casa da mãe dela. Cheguei e vi uma casa com um pequeno e bem cuidado jardim na sua frente. A Andréia apareceu com a mãe dela. Fui muito bem recebido. Cumprimentamo-nos. Entramos na casa e a mãe da Andréia fez questão de mostrar as mudanças que havia feito na casa para que eu, um cadeirante, pudesse circular à vontade. Ela me explicava, enquanto íamos de um cômodo ao outro:
– A casa tem dois banheiros. Este aqui (mostrou o banheiro social), mas não tem jeito de adaptar para você usar. E este aqui (mostrou o banheiro que estava na suíte do quarto dela). Aqui deu para ajeitar. Mandei arrancar a porta dele para que você pudesse passar… E continuou dando maiores detalhes.
Quase duas décadas depois, sempre que vou até a casa da minha sogra, durmo no quarto dela. Pois é, tem alguém aí que dorme na cama da sogra? Eu durmo…
Pela terceira vez a pergunta: o que você diria se a sua única filha quisesse se casar com um cadeirante?

Eis o desafio: você conseguiria ver a pessoa além da cadeira? Minha esposa e os pais dela viram… E eu, conseguiria?

No próximo post vou comentar sobre outra situação: e se fosse a minha filha? A situação é hipotética porque não tenho filha nem filho, mas tenho lá meus conceitos e preconceitos…

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