O moço de carrinho…

Era o aniversário de número 85 da avó da minha esposa. Uma festança. Estavam reunidos netos, tios, tias, primos e alguns conhecidos para festejar com a matriarca. Entrei no salão com a minha esposa. Muitas pessoas a reconheceram imediatamente. A mim não, porque era a primeira vez em quinze anos de relacionamento que eu participava de uma festa da família dela. Todos que olhavam para ela, logo saudavam-na e a abraçavam. Quando dava, para algumas pessoas, ela me apresentava. Festa de família é isso. Eu fiquei por ali, quase só observando. Nisso vejo a minha sogra se aproximando da filha. Percebi que não conseguiram se cumprimentar porque havia uma roda de primos a volta da minha esposa. Assim, a sogra veio até mim. Atrás dela vi uma senhorinha bem velhinha com um olhar alegre e faceiro. Bastante idosa, mas parecia ser bem serelepe. A minha sogra me cumprimentou com um abraço. A velhinha ficou olhando. De repente eu a vejo abrir os braços para também me dar um abraço, mas antes ouvi:
– Mas quem é esse moço de carrinho?

Essa foi a imagem na minha cabeça quando fui chamado de “O moço de carrinho…”

A palavra “carrinho” fora dita referindo-se a minha cadeira de rodas. Creio ter ficado com a cara um pouco entediada, mas recebi o abraço, pensando, Já começou. O que mais vou ouvir hoje…A minha sogra explicou para a senhorinha, amiga da família, que eu era o genro dela. Ela somente expressou um Ah… e seguiu toda alegre pelo salão. O dia foi lindo e a festa maravilhosa. Ao final  da festa todos se despediram de todos, mas principalmente da avó. Afinal era o aniversário dela…
Um ano se passou e a avó continua firme e forte. Isso é motivo para mais uma festa, agora para o 86° aniversário.
Chegamos no salão e toda aquela muvuca outra vez. Minha esposa sendo cumprimentada pelos primos, amigos e parentes. Desta vez eu já estava enturmado. Também os cumprimentava. Olhei em volta e vi a minha sogra se aproximando. Ela nos cumprimentou com um forte abraço. Olho para o lado e vejo a mesma senhorinha do ano anterior de braços abertos para também me dar um abraço. Pensei, Olha só, quem está aí… Antes que eu pudesse falar qualquer coisa ouço-a dizer:
– Mas quem é esse moço de carrinho?

Senti-me preso no Feitiço do Tempo, descrito no filme de 1993, em que o personagem vive inúmeras vezes o mesmo dia. Veremos como será a festa no próximo ano…

A situação nos serve para uma reflexão: quantas vezes nós somos vítimas do feitiço do nosso próprio tempo? Quantas vezes ficamos presos aos nossos conceitos, ideias, medos, amores e rancores? Podemos e devemos avançar, embora nem sempre seja fácil. Entretanto, estar disposto a desaprender para aprender de novo é parte da construção de um novo caminho, como já dizia Gonzaguinha na música Eterno Aprendiz.

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