Discrimine você também 2!

– Mas você não precisaria ter vindo para São Paulo… Para obter esse documento você poderia ter ido para Curitiba. Teria sido bem mais perto…
Foi o que ouvi da mulher que me atendeu naquela repartição no momento em que viu o meu endereço. Fiquei com o queixo caído e falei:
– Sério? Li as informações no site e pelo que entendi havia sido centralizado tudo aqui em São Paulo. Não entendo…
– Ah, pode ser. Houve algumas alterações no site, mas há um campo em que você pode indicar para que o atendimeto seja feito em outros lugares. O problema principal é que agora você iniciou o atendimento aqui, assim você terá que voltar mais uma vez para pegar o documento. Hoje é apenas a entrevista…
Eu estava incrédulo com o que acontecia. Nao acredito nisso, pensei. Voltar para São Paulo só para buscar um documento. Ninguém merece… Além das despesas de uma viagem, de hospedagem e de alimentação, havia todo o transtorno do deslocamento em si e a perda de no mínimo um dia útil. Porém, fazer o que? Eu precisava daquele documento. O jeito era se sujeitar as normas da repartição.
Não respondi nada e não argumentei para que dessem um jeito. Fiquei na minha, inclusive dando a entender que se é assim, assim faria. A mulher que me atendeu chamou outra pessoa com quem trocou algumas palavras sobre a situação que se apresentava. O senhor que havia chegado, olhando para mim, disse:
– Não garanto nada, mas vou falar com a chefia. Considerando que você é cadeirante vou comentar com ela sobre a possibilidade de que nós enviemos o documento via SEDEX para você. Pode ser?
Concordei imediatamente. Qualquer alternativa que eles me sugerissem que pudesse evitar mais uma viagem seria bem-vinda.
Ele se afastou e a mulher continuou o atendimento. Finalizamos todos os formulários e a mulher me disse:
– Você apenas espere aqui ao lado até que nós tenhamos uma resposta sobre o envio pelo correio. Acho que vai dar certo!
Despedi-me dela e me posicionei no local indicado para aguardar a resposta. Passados mais ou menos dez minutos ela se aproximou de mim para informar que estava tudo certo. Eu não precisaria voltar para São Paulo, porque eles me enviariam os documentos pelo correio. Agradeci a ela sinceramente, porque realmente o atendimento fora rápido, profissional e simpático, mas principalmente discriminatório. Concorda comigo?
Considerando que discriminar quer dizer diferenciar ou mesmo tratar alguém de modo desigual eu fui descaradamente discriminado. Caso eu fosse um andante comum teria que ter feito mais uma viagem para São Paulo, simplesmente para buscar um documento. Assim, como sou usuário de cadeira de rodas fui tratado de forma diferente, tendo sido “vítima” de discriminação positiva. Não se prejudicou ninguém. Muito pelo contrário. Criou-se uma alternativa que poderia ser aplicada para as demais pessoas.

Vou discriminar os meus clientes e os meus amigos. Vou tratá-los melhor ainda.

Discriminar positivamente pode ser bom!

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