Você nasceu assim 2?

Somos feitos de histórias. Quem é usuário de cadeira de rodas pode ter algumas a mais. Já contei aqui uma história em que fui abordado num supermercado para receber a pergunta se eu havia caído ou nascido assim. Não sou o único. Conversava com o técnico da equipe de basquete, amigo meu e que tem um irmão usuário de cadeira de rodas, que me contava ser o irmão dele também questionado sobre a sua condição pelas pessoas. Disse-me:
– Volta e meia quando estou na rua com meu irmão alguém se aproxima de mim e pergunta, “como foi que aconteceu?” ou “o que aconteceu com ele?” ou ainda “ele nasceu assim?” Isso, às vezes me incomoda, mas sei que não é por mal. Eu sempre digo, “vai lá, fala com ele. Ele sabe falar…” Alguns ficam um pouco envergonhados e vão embora. Outros vão lá e perguntam mesmo…

Essa é uma situação muito comum. Muitas vezes entro numa loja para comprar uma camisa ou uma calça acompanhado de minha esposa. Faço a primeira interação com o atendente mostrando o meu interesse e a minha procura. Por incrível que pareça o atendente, logo depois, esquece que estou presente e passa a interagir com a minha esposa. Muitas vezes pegam uma peça de roupa, mostram para a minha esposa e perguntam, Será que ele vai gostar desta?E eu paradão ali do lado. Ou melhor, sentadão. Não sei porque não falam diretamente comigo. Às vezes, tenho a impressão de que por ser um usuário de cadeira de rodas as pessoas pensam que eu não tenha capacidade cognitiva o suficiente para me comunicar. Enfim, deixa pra lá…

Voltando ao caso do meu amigo, quando ele é confrontado com a pergunta, … mas você nasceu assim? ele para, olha para o seu interlocutor e com um ar sério e compenetrado, característico, responde:
– Não, não, eu não nasci assim. Eu nasci assim… (faz um gesto com as mãos mostrando mais ou menos o tamanho de um bebê) … desse tamaninho. Era bem pequeno. Já imaginou se eu tivesse nascido assim, grandão? E ainda com uma cadeira de rodas?

Certamente que as pessoas não o fazem por mal, mas também há situações que não são do seu interesse. Sabemos que a curiosidade é a fonte da sabedoria, mas ela também matou o gato.

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