Vai demorar um pouco… O senhor se importa em esperar?

Entrei no salão para cortar o cabelo acompanhado de minha esposa. Era a primeira vez que cortaria o cabelo desde que fora morar naquela cidade. Havia escolhido um salão e fui até ele. Ao abrir a porta, as pessoas voltaram a cabeça para dar aquela olhada, como naturalmente se faz. Porém, a olhada ficou um pouco mais demorada, porque a presença de um homem, e ainda usuário de cadeira de rodas, naquele ambiente, provavelmente, não era algo muito comum. Tudo bem, tudo bem… pensei comigo mesmo para me acalmar. São quase trinta anos usando a cadeira de rodas e ainda fico um pouco temeroso ao entrar em ambientes desconhecidos, embora isso também seja comum para quase todos. Minha esposa estava atrás de mim. Eu olhei para quem se aproximou para me atender e perguntei:
– Alguém tem disponibilidade para cortar o cabelo?
A atendente olhou-me e disse que sim. Era ela também a própria cabeleireira que cortaria o meu cabelo. Assim perguntou:
– Como você quer cortar?
– Olha, pode ser com a máquina número 3, por favor?
– Em toda a cabeça? Disse ela olhando para a minha esposa. Logo pensei, Será que ela vai começar a falar com ela em vez de falar comigo?
– Sim, respondi. Pode passar a máquina em tudo.
Ela assentiu e pediu para que eu me posicionasse frente a um espelho. Ainda fiz uma brincadeira de que mereceria um desconto, uma vez que eu trouxera a minha cadeira. Ela sorriu e respondeu que se eu quisesse sentar na cadeira do salão ela daria um jeito. Ficamos nessa brincadeira enquanto ela foi buscar a máquina. Aproximou-se e colocou o lençol a minha volta e começou a cortar o cabelo. Via e observava os seus movimentos manuseando a máquina. Pude perceber que era alguém que ainda não estava completamente à vontade com ela. Deve ser nova aqui… Pensei isso porque durante os últimos seis ou sete anos eu mesmo cortei os meus cabelos com uma máquina que tinha em casa. A minha esposa fazia os arremates do corte. Gostava do ritual. Continuei a observar e parecia-me que a máquina era demasiadamente silenciosa. Escutei com mais atenção e percebi que se tratava de pouca potência. Dava-me a impressão de que a máquina pararia a qualquer momento… E não é que parou mesmo? Olhando pelo espelho vi uma expressão que misturava medo e pânico no rosto da cabeleireira. Ela olhou para a máquina e bateu-lhe suavemente. Silêncio. Ligou e desligou o botão. Nada. Olhou a sua volta buscando socorro em suas amigas. O silêncio foi constrangedor. A tagarelice tão comum em salões desapareceu por completo. Por fim, ela olhou para mim pelo espelho e disse:
– Acabou a bateria. Vou ter que carregar a máquina. Vai demorar um pouco… O senhor se importa em esperar? A voz quase sumindo, porque ela estava completamente constrangida.
Logicamente que eu esperaria, porque tampouco poderia sair com a cabelo cortado somente em metade do cocoruto. Ainda mais vendo o desespero da mulher, sair seria a última ação que tomaria. Disse-lhe com suavidade e também certa descontração que não havia problema, que eu estava sem pressa. Aparentemente ela se tranquilizou, colocou a máquina para carregar a bateria e ficou a minha volta. Estava nervosa. Atordoada. Para piorar ainda mais a situação uma colega passou por perto e disse:
– Ainda bem que a dona não está aqui agora, porque você seria demitida hoje…
O apoio que ela esperara das amigas, da sua equipe, foi uma ameaça. Nada de amparo. Nenhuma máquina sobressalente, alternativa ou alguma história para tirar a tensão do ambiente. Apenas o silêncio e a clara sensação de que a haviam relegado a sua própria sorte. Depois de um tempo, o zumbido das conversas paralelas voltou para aliviar a situação. Passaram-se mais ou menos cinco minutos e ela pegou a máquina novamente. Recomeçou a cortar o cabelo. O ruído estava mais alto, com mais potência. O sorriso estava de volta ao seu rosto, porém durou poucos segundos. A máquina parou mais uma vez. O silêncio constrangedor. Os olhares acusadores. A solidão em meio a tantas pessoas conhecidas e, talvez, até amigas. E a cena se repetiu mais três vezes até que, enfim, ela conseguiu terminar o corte.
Disse-lhe:
– Fica tranquila, não tem problema não. Eu estava com tempo mesmo. Quanto lhe devo?
Ela não teve tempo para responder porque foi interrompida por uma outra cabeleireira que, provavelmente, tinha mais tempo de casa:
– Não, o senhor não deve nada. Nós é que lhe pedimos desculpas e agradecemos muito a sua compreensão.
Ao meu lado, a cabeleireira se encurvou num movimento corporal claro de autoproteção. Ainda sorriu timidamente e também se desculpou por não ter a máquina com a bateria carregada. Finalizei dizendo:
– Bom, vocês têm mais um cliente garantido. E vou torcer para que na próxima vez acabe a bateria novamente, assim não precisarei pagar.
Saímos rindo. Por outro lado, fiquei pensando, Caramba, quantas vezes nós não estamos preparados nem para aquilo que nos propusemos a fazer, o que dizer de estar preparado para uma nova oportunidade? E o trabalho em equipe onde ficou?

Diante da situação, a imagem da mulher vai rapidamente desaparecer de minhas memórias, mas a lembrança do estabelecimento, a percepção da incapacidade de ação e a sensação da ausência de cooperação que demonstraram a clara falta de entendimento daquilo que representa trabalhar em equipe vão me acompanhar por muito tempo.

Por isso a pergunta: quem realmente sabe trabalhar em equipe?

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