O pior vendedor do mundo

– Viram? O carro está impecável, não está? Único dono. Baixa quilometragem. Na verdade nem quero vendê-lo para o senhor. Estou a mostrá-lo porque foi pedido dele (apontando para o amigo que me acompanhava), que também é amigo meu. Se eu realmente quisesse vendê-lo eu iria usar tantos argumentos que agora o senhor já estaria assinando os documentos…E prosseguiu naquela destrambelhada faladeira de um vendedor que ainda acredita que para vender é preciso preencher o silêncio com palavras.


A história realmente começa alguns dias antes. Eu estava a procura de um carro que atendesse algumas exigências, entre elas a de ter câmbio automático e um limite de preço. Assim, pesquisei em vários sites de vendas de veículos o preço médio, por modelos básicos ou completos e para veículos com baixa quilometragem. Havia reunido muitas informações sobre o modelo que queria, agora  precisava tão somente do produto. Hoje em dia, dificilmente há comprador desinformado. Além disso, havia falado com um amigo meu que conhecia alguns revendedores de veículos usados. Exatamente este que me acompanhava.

Chegamos na loja, vimos o carro, abrimos o capô, olhamos a pintura e demos pinta de que entendíamos muito de carro. Coisa que homem gosta de fazer. Em seguida, fomos fazer o test-drive. O carro estava, aparentemente, bom. Ele na verdade estava lindo. Polido de tal maneira que se poderia usá-lo como espelho. As rodas recém pintadas, como novas. Estava completamente maquiado, pronto para ir ao baile. A sensação de andar nele fora boa e também estava dentro dos limites de preço estipulados por mim para adquirir um veículo. Foi depois disso que voltamos até loja para conversar sobre o negócio. Queria saber realmente qual era o preço final. Sabia que a negociação era comum naquela região. O vendedor, ao perceber o real interesse, tratou de prosseguir na sua tática de anular qualquer silêncio possível. Continuou dizendo:
– Posso lhe afirmar com toda a certeza que esse carro, nessas condições, você não vai encontrar por menos do que (disse um valor exorbitante). Inclusive ele está anunciado na internet por esse valor. Mas realmente podemos fazer uma diferença. Deixe-me ligar para o dono do veículo…

Retirou o celular do bolso e, supostamente, fez uma ligação. Falou e argumentou como se estivesse defendendo a minha posição. Desligou, virou-se para mim e informou:
– Consegui um desconto de (disse um valor). Assim, o carro vai ficar por (disse outro valor). Caso você queira podemos fechar agora…

O tom de voz dava aquela impressão de que esta seria a última oportunidade que eu teria de fazer um bom negócio. O vendedor procurou criar um clima de tensão que me levaria a fazer o negócio na emoção. A reação criada no meu íntimo foi inversa daquela por ele pretendida. Talvez se ele não tivesse falado nada eu teria feito uma proposta efetiva e, certamente, teríamos fechado o negócio. Entretanto, a sensação de tanta falação não era boa. Olhei para ele e respondi calmamente:
– Muito obrigado pelas informações. Vou apenas analisar a situação de que o veículo é semi-automático e não automático e na segunda conversamos…

Essa condição levantada por mim era apenas um pretexto para não fazer negócio. Não naquele momento. A forma como terminamos a conversa parece ter sido um balde de água fria nas pretensões do vendedor. Entretanto, despediu-se educadamente.

Como era um sábado já próximo ao meio dia, meu amigo fomos almoçar. Durante o almoço o meu amigo fez uma rápida consulta na internet filtrando modelo e região. Em pouco minutos encontrou o veículo. Estava um pouco diferente. A pintura estava mais apagada e as rodas com ferrugem. Mas era o mesmo veículo. Como havíamos marcado a visita na loja com alguns dias de antecedência foi o tempo suficiente para fazer a maquiagem. Porém, ele estava anunciado exatamente pelo valor pelo qual o vendedor quis vender o veículo já com o grande desconto obtido no telefonema dado ao dono. O meu amigo ficou irritadíssimo, porque havia feito a indicação. Certamente não havia dado tempo para o vendedor alterar as informações na internet entre o momento que saímos da loja até aquele  em que fizemos a consulta.


Na segunda-feira o meu amigo ligou para o vendedor comentando a situação e que não haveria negócio. Não comprei o carro porque um vendedor que mente não merece a confiança de uma venda. Um vendedor que não sabe que as informações estão disponíveis para todos, realmente não quer vender. E aí temos o pior vendedor do mundo!


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