O que é fracasso?

– É ponto final. Não tem jeito. Se eu não parar vou falir completamente. Isso tudo é um fracasso…

Ouvia o diretor da empresa falando sobre o encerramento das atividades de uma unidade que estava consumindo muito mais recursos do que aquilo que fora planejado inicialmente sem a mínima previsão de mudança de cenário. Agora ele conseguia ver com clareza que o projeto fora mal concebido desde o início. A decisão de abrir aquela unidade não fora acertada. E agora, continuar a injetar dinheiro no projeto? Encerrar a unidade? Perder o que já foi investido? Certamente não não são decisões fáceis, entretanto há de se ter racionalidade suficiente para não se agarrar a uma decisão anteriormente tomada para justificar novos e maus investimentos.

Esse fenômeno foi estudado por Staw (1976) numa pesquisa feita em dois momentos considerando situações semelhantes. Foram selecionados executivos de um programa de pós-graduação em economia de uma escola de negócios dos EUA para direcionarem uma vultosa soma de investimentos para uma de duas filiais. Eles fizeram sua análise baseados em indicadores econômicos e indicaram o investimento numa das duas unidades. Passados alguns anos eles foram convidados para fazer um novo e grandioso investimento numa daquelas duas unidades. Entretanto, eles foram informados que o primeiro investimento não havia produzido o retorno esperado, muito pelo contrário, havia se mostrado um total fracasso. Para a surpresa do estudo, os decisores novamente encaminharam o investimento para a unidade que havia mostrado incompetência para a gestão do primeiro aporte financeiro. Um segundo grupo de executivos foi convidado para tomar uma decisão sobre as mesmas duas unidades, porém somente no segundo momento. Os executivos foram informados que o diretor que havia encaminhado os recursos do primeiro investimento já morrera e que agora caberia a eles direcionarem os recursos disponíveis para investimento. Com as mesmas informações financeiras usadas pelo primeiro grupo, o segundo grupo de executivos encaminhou o investimento para a outra unidade, numa decisão muito mais próxima de uma racionalidade econômica esperada de executivos. A pesquisa demonstrou, desse modo, que há uma escalada de comprometimento com as decisões tomadas que os investidores, muitas vezes, mantêm muito além da suposta racionalidade esperada de um grupo de executivos.

O estudo indica que muitas vezes nós somos traídos pela necessidade de manter a suposta coerência entre decisões anteriormente tomadas, levando-nos de erros em erros ao fracasso. Tomar uma decisão equivocada é comum. No meu entender, fracasso é repetir decisões equivocadas simplesmente para não admitir o primeiro erro. E isso não se aplica somente a decisões financeiras, pois também ocorre no nosso dia a dia pessoal e profissional. Na semana que passou cometi um erro de avaliação que me custou um vexame, uma noite sem dormir e mais muitos dias a pensar naquele “fracasso”. Sim, para mim havia sido um fracasso. Tudo o que havia programado correu mal. Entretanto, o que eu poderia fazer com relação aquilo que já acontecera? Nada. Apesar da consciência sobre isso a sensação de fracasso continuava comigo. Contudo sabia que não poderia continuar assim, por isso fui ler sobre o tema e encontrei o estudode Staw (1976). Comecei a repensar a situação. O que foi que eu fiz? Como foi que eu fiz? Quais os resultados que obtive? A reflexão decorrente desses questionamentos me levaram a outro questionamento: o que posso fazer de diferente? Sim, comecei a perceber o que posso fazer diferente para não cometer o mesmo erro. Aprender com a situação vivida, dedicar o tempo e o planejamento necessário para mudar e fazer diferente para obter os resultados esperados.

Parece ser fácil e linear, mas não é. Libertar-nos de algumas amarras e da escalada de comprometimento que nos leva a querer parecer coerentes com decisões anteriores exige um trabalho mental hercúleo. Doeu admitir que a falha foi unicamente minha. Superestimar alguns recursos. Subestimar alguns obstáculos. Acreditar que uma solução pode surgir de onde antes nada veio. Olhar para trás e admitir para mim mesmo que cometi uma sequência de erros não é tão simples assim, porém é a única forma de evitar que erros se consolidem como fracasso. A capacidade de tomar uma decisão hoje com horizontes diferentes de decisões anteriores é o que pode nos levar a evitar tal desfecho. No meu ponto de vista, temos que ser coerentes e racionais frente aos fatos e decisões que devem ser tomadas no quadro atual. Podemos e devemos usar informações do passado para evitar erros e não para não admitir que já alguma vez erramos.

Errar não é fracasso, fracasso é insistir no erro!
O conceito de escala de comprometimento é de Staw, B. M. (1976). Knee-deep in the big muddy: a study of scalating commitement to a chosen course of action.  Organizational Behavior and Human Performance, 16, 27-44.

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