Seres humanos, seres estranhos… Qual é o seu ritmo?

Mais e mais vejo pessoas querendo diminuir o ritmo de vida nas questões ligadas ao trabalho. Ouço-as dizerem com convicção, Quero dedicar um tempo para mim, melhorar minha qualidade de vida… entre outras justas justificativas. Realmente acredito que as pessoas queiram reencontrar-se, saber quem são, entender o que fazem, como o fazem e para que o fazem. Muitas pessoas simplesmente fazem sem saber para que o fazem. São tantas as atividades, as obrigações sociais e profissionais que terminam por perder a identidade. Finalmente começam a sentir a necessidade de dar um sentido ao que fazem e a própria vida.
Logo que se deparam com essa necessidade começam a procurar por cursos, formações e treinamentos, muitos de caráter esotérico ou de fundo religioso, que os possam auxiliar na sua busca. Inscrevem-se nos cursos aos sábados e domingos ou em horários pós-laborais e mantém as suas 40 horas semanais de trabalho, além de todos os outros compromissos familiares e sociais. Terminam por preencher um espaço que não tem com mais atividades. Desse modo, na ânsia de aprender a diminuir o ritmo de suas vidas acabam por aumentá-lo ainda mais.
Considero que as formações são importantes e tem muitas opções que podem ajudar na busca pelo caminho que o ajudará a encontrar a voltar-se para dentro de si, redescobrindo-se, uma vez que muitas pessoas perderam a conexão consigo mesmas. Entretanto, talvez antes de se inscreverem num curso ou numa formação desse gênero que visa reorientar as pessoas na busca pelo reencontro consigo mesmas, cada um deveria responder algumas perguntas: quem sou? Pode parecer estranho, mas muitos já não sabem quem são. Alguns se confundem com o seu trabalho, com os seus parceiros ou com os seus papéis na sociedade. Onde estou? Geograficamente até podem saber que estão numa ou noutra cidade, mas emocionalmente ou espiritualmente não tem a mínima ideia de onde estão, porque vivem na confusão de seus diferentes papéis sociais. Para onde quero ir? Realmente quero ir? Sim, outras duas perguntas muito simples, mas que muitas pessoas terminam os seus dias sem tê-las respondido. Reforça-se a pergunta: você sabe para onde está indo ou para onde quer ir? Encontrando as respostas para essas também deveria se perguntar: O que vou fazer? Do que vou abrir mão? Quanto isso vai custar para mim? O que vou ganhar com isso? Sim, pensar nas ações e nas alternativas para poder avaliar quais as mudanças que serão implementadas no comportamento que o poderá ajudar no caminho. Com isso entender que cada escolha feita significa que algo ficará para trás e em contrapartida ganharás outras coisas. Respondidas e avaliadas tais questões as soluções vão se revelar naturalmente. Não há necessidade de se apavorar. A vida segue. Principalmente porque o conhecimento humano descobre aquilo que a natureza já sabe: a base está no equilíbrio.

Quando penso nessas questões, lembro-me a história do caipira e do executivo que se encontram nas margens de um rio. O caipira fazia o seu percurso semanal naquele rio para mais uma das suas pescarias. Chegando ao ponto onde ele sempre se posicionava para pescar encontrou um homem que tinha talvez um pouco mais de cinquenta confortavelmente sentado numa cadeira a pescar. Ao lado uma térmica com muitas comidas e bebidas. Também tinha um lindo guarda-sol posto ao seu lado. O caipira observou e não falou nada de mais, apenas cumprimentou-o:
– Tarde.

Logo, acocorou-se ao seu lado e jogou o anzol. Tranquilamente enrolou o seu palheiro e olhava para as águas do rio. O executivo a seu lado respondeu ao cumprimento e começou a falar:

– Finalmente consegui tempo para pescar. Depois de trabalhar incansavelmente por mais de trinta anos…
Ah é? Diz o caipira.
– Sim, continua o executivo. Comecei a trabalhar muito jovem. Logo fui promovido e assumi muitas responsabilidades. Fui o mais jovem executivo da minha empresa! Trabalhei aos sábados, domingos e muitas noites toquei direto, sem dormir. Conquistei meu espaço. Mas quando eu tinha quarenta anos sofri um infarto. Quase morri. O médico disse para eu diminuir o ritmo. Mudei um pouco meu estilo de vida, mas as obrigações me levaram novamente a trabalhar cada vez mais. Nesse tempo consegui mais uma promoção e agora, finalmente posso desfrutar da vida…
Terminou com o peito estufado e um ar satisfeito pela própria história de sucesso. Olhando meio de cima para baixo dirigiu uma pergunta ao caipira que estava sentado ao seu lado:
– E você? Como chegou até aqui?
– Como sempre. Nunca fiz nada disso que o sinhô tá dizendo, mas faz mais de trinta anos que eu sempre venho pescá aqui.

As soluções estão dentro de nós, nas nossas escolhas, decisões e ações. Os cursos e as formações certamente são um suporte para encontrarmos o caminho para o equilíbrio, mas cabe a cada um decidir e determinar o ritmo. Qual é o seu ritmo?

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