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Facetas!


Somos Únicos.
Somos Múltiplos.
By Moacir Rauber

Honestidade: indicador de produtividade

O rolamento da roda traseira da minha cadeira de rodas começou a fazer um ruído estranho. Terei que procurar um lugar para consertar isso… pensei. Havia visto uma bicicletaria a uns quatrocentos metros daqui de onde estou na cidade de Tübingen na Alemanha. Explicar a situação em português seria fácil, agora em alemão não vai ser bem assim. Por isso, havia procurado a palavra “rolamento” na internet e treinei uma ou outra frase de interação. Pelo menos o essencial eu saberia. Fui até lá. Expliquei. O rapaz olhou e disse:
– Não posso fazer porque esse é um rolamento especial desse tipo de cadeira de rodas. O que eu posso fazer é indicar uma loja especializada aqui na cidade… e assim o fez. Foi isso que entendi com o meu parco alemão.

Voltei até em casa e procurei a localização da loja, Hum, mil metros. Posso ir rodando. O rolamento pode pifar de vez, mas vou arriscar…cogitei. Foi o que fiz. Andei pelas calçadas bem cuidadas da cidade de Tübingen com as facilidades que um cadeirante pode imaginar. Ruas limpas. Passeios bem cuidados. Sem meios-fios. Semáforos bem sinalizados. Seria uma “caminhada” prazerosa! Mas tinha um rolamento no caminho. Depois de ter rodado mais ou menos seiscentos metros, senti um tranco mais forte na roda em que o rolamento chiava. A roda travou. Putz, falta cair a roda… Forcei um pouco. Soltou. Parece que voltara ao normal que o estado do rolamento permitia. Segui meu caminho. Agora já se escutava a chiadeira do rolamento a metros de distância. Mais uma ou duas travadas. Finalmente cheguei até a loja. Anunciei-me. O atendente chamou o mecânico. Acompanhei-o até o oficina. O ruído já denunciava o que eu precisava.

Expliquei-lhe dentro das limitações do meu alemão. Transferi-me para uma cadeira de rodas que a loja tinha disponível. O mecânico pôs-se a trabalhar. Dali a pouco retornou e disse que havia mais rolamentos com problemas. Disse-lhe:
– A cadeira já tem sete anos. Caso você queira olhar todos eles seria bom…
– Sim, eu farei. Mas isso pode custar um pouco mais do que aquilo que você pensava inicialmente.
– Não tem problema.

Mais de duas horas se passaram. Finalmente ele havia trocado sete grupos de rolamentos da cadeira. O relógio na parede indicava 18h15min. O caixa estava fechado. Perguntei:
– Como faço para pagar?
– Não se preocupe. Nós enviamos a conta para você. Você poderia colocar aqui o seu endereço?
– Poderei pagar no banco?
– Você também pode voltar aqui.

Conversamos mais um pouco. Logicamente que ele falou dos 7×1 da Alemanha no Brasil. Rimos. Ele fechou a oficina e saímos pela porta dos fundos.

Agora com a tranquilidade que os rolamentos novos na cadeira me permitiam aproveitei o passeio de retorno. Passei por um parque, tomei um sorvete e pensei. Pensei muito. Admirei-me. 

Fiquei encantado, Os mecânicos trabalharam por mais de duas horas na minha cadeira. Trocaram sete grupos de rolamentos. Apresentaram-me a conta. Não pediram e não pegaram nenhum documento. Não assinei nenhuma nota promissória. Não dei nenhuma garantia. Eles nunca me haviam visto na vida antes. Sabiam que era estrangeiro. Não há nada que lhes garanta que eu vá pagar, a não ser a crença de que se eu fui até eles e pedi para fazer o serviço é porque eu vou pagar. 

Continuava a pensar, Não deve lhes passar pela cabeça a hipótese de alguém se dirigir até eles com a intenção de não pagar pelas peças e pelo serviço solicitado. Algum brasileiro pensaria diferente? Claro que não…

Depois disso ainda pensei sobre a diferença de produtividade nesses países com relação ao Brasil. Veja bem. Eles não gastaram nem tempo nem energia com a possibilidade do não pagamento. Custos que no Brasil nós temos. Eles não gastaram nenhuma taxa de consulta ao SERASA ou ao SCPC. Custos que no Brasil nós temos. Eles simplesmente direcionaram a energia para aquilo que deveria ser: a atividade em si. Honestidade é um grande indicador de produtividade.

Simples ser produtivo, não é?
Fonte: http://veja.abril.com.br/blog/ricardo-setti/tag/dia-da-mentira/

Acredito ainda que a honestidade possa ser um indicador de felicidade, de harmonia e de tantas outras aspirações humanas.

Moacir Rauber

Moacir Rauber acredita que tem "MUITAS RAZÕES PARA VIVER BEM!" porque "MELANCOLIA NÃO DÁ IBOPE". Também considera que a "DISCIPLINA É A LIBERDADE" que lhe permite fazer escolhas conscientes, levando-o a viver de forma a "QUE POSSA COMPARTILHAR TUDO COM OS PAIS E QUE TENHA ORGULHO DE CONTAR PARA OS FILHOS".

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