Melhoras…

A Andréia, minha esposa, e eu esperávamos pelo ambulift, carro elevador, que nos levaria até o avião que estava parado no pátio do aeroporto. Também aguardava o transporte um jovem usuário de cadeira de rodas acompanhado pelos seus pais. 
No caminho até o avião, o pai da rapaz começou a conversar com a Andréia. Ele pergunta sobre mim:
– O que aconteceu?
Escutei a pergunta meio de lado, uma vez que ainda estava tentando fixar os cintos de segurança. A Andréia disse-lhe que estava tudo bem e que já faziam três décadas que eu era cadeirante. Nós nem nos damos conta da cadeira…. O senhor prosseguiu:
– Mas como ele está?
Uma pergunta que pode soar estranha para quem está bem. Uma pergunta que pode desencadear uma torrente de lamentações em quem está mal. E não é preciso se estar numa cadeira de rodas para se estar mal ou estar fora dela para se dizer bem. Isso tem muito mais a ver com a maneira como cada um se posiciona frente aos acontecimentos da própria vida. O que pode ser  resolvido, resolve-se. O que não pode ser resolvido, resolvido está. E a vida segue, querendo-se ou não. Com a nossa autorização ou não a vida não para.
A pergunta soava ainda mais estranha porque era sobre mim e não fora feita para mim. Ele estava a menos de dois metros de mim e falava como se eu não estivesse ali. Não me manifestei, inicialmente. Observei o filho daquele senhor que também usava uma cadeira de rodas. Ele não se expressava, não exibia nenhuma reação. Não tenho ideia de qual era a sua lesão ou os motivos que o levavam a estar numa cadeira de rodas.
Alguns instantes depois, aproveitei uma pausa na conversa para fazer um comentário, dirigindo-o para aquele senhor:
– Ouvi que o senhor fala muito bem alemão.
– Sim… respondeu ele. Vivi por mais de cinquenta anos na Alemanha. Trabalhei na reconstrução de várias cidades no período pós-guerra… e continuou relatando a sua experiência.
Havia ficado curioso sobre o fato de aquele senhor que não era alemão falava tão bem alemão, assim como quis aproveitar a oportunidade para sinalizar que eu estava no perfeito domínio das minhas faculdades mentais. Ninguém precisaria falar por mim. Caso quisesse, ele poderia falar comigo. Poderia eu ser usuário de uma cadeira de rodas, mas isso representava muito pouco ao fato de eu estar bem ou não.
A conversa prosseguiu, mas ele logo se voltou para a Andréia. Deixou-me em segundo plano. Chegamos ao avião. Acomodamo-nos. Ele passou por mim, tocou-me no ombro, olhou para a Andréia e disse:
– Desejo melhoras para ele.

Pensei, Talvez um dia o senhor mude a sua visão de mundo… Com isso o seu filho poderá ter “melhoras”…

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