Cidadão comum: viver sem dever favores…


Sair numa cidade brasileira é um desafio para qualquer pessoa. São problemas de violência, de transporte coletivo deficiente e de falta de planejamento no trânsito de forma generalizada. São problemas reais para quem é pedestre, motorista de carro, ciclista, motociclista, usuário de transporte coletivo ou caminhoneiro. Os motoristas, entre eles os caminhoneiros, cada vez mais estressados pelo aumento absurdo do fluxo de veículos que entopem as ruas e a má qualidade das rodovias. Os ciclistas lutam por um espaço que deveria existir nessas mesmas ruas, enfrentando, muitas vezes, um clima de guerra. Os usuários de transporte público sofrem com a baixa qualidade dos serviços. Os pedestres sofrem com a falta de faixas apropriadas, com a má conservação das calçadas, com a falta de respeito dos motoristas, ciclistas e motociclistas, além de serem vítimas da própria má educação ao não se limitar a ocupar o espaço que lhes é destinado. Às vezes as pessoas sequer lembram que ser pedestre, ciclista, motorista ou usuário do transporte público é circunstancial. Cada um de nós pode estar ora numa situação, ora noutra. Mas esse caos é o desafio enfrentado diariamente pelas pessoas consideradas comuns na maioria das cidades brasileiras. Agora acrescente a esse caos o fato de você ter uma limitação física, como ser um cego ou um cadeirante. As dificuldades aumentam exponencialmente, criando uma dívida impagável para quem tem a limitação.
Explico… Sou usuário de cadeira de rodas desde os 20 anos, mas sempre procurei manter um alto grau de autonomia. Nada mais normal para quem quer ser um igual. Consegui construir uma vida em que posso escolher entre sair e ficar em casa, estudar ou não, trabalhar e me divertir. Ser um cidadão que trabalha, interage, luta, brinca, ama, irrita-se, diverte-se e que pode ser bacana ou chato, assim como qualquer um, é vital para mim. Na verdade procuro não depender de ninguém naquilo que todo mundo faz porque quer fazer. Mas por outro lado, termino por ser dependente de muita gente, inclusive naquilo que faço porque quero fazer. É praticamente impossível um usuário de cadeira de rodas circular sozinho em qualquer cidade brasileira, durante um dia, sem necessitar da ajuda de alguém. Ser usuário de cadeira de rodas e circular sozinho numa cidade durante um dia sem precisar pedir “por favor” para alguém é quase impossível…
Especificamente no meu caso, quando escrevi esse texto, podia até sair sozinho de casa, mas já na primeira esquina eu precisava do favor de alguém para cruzar a rua. Começava a minha dívida. Ficava “devendo” um favor para alguém. O meio fio era tão alto e sem rampa que era impossível um cadeirante descer. Tratava-se de um “fio inteiro”… Ainda hoje, ir ao centro de qualquer cidade e querer entrar em prédios públicos, por exemplo, é tarefa complicada. Normalmente preciso chamar algumas pessoas para subir os degraus que me impedem de chegar onde quero. Aumenta a “dívida”… Fico “devendo” outro favor. Usar o transporte público nem se fala. Preciso da colaboração do motorista, que muitas vezes não está com paciência para descer e posicionar o elevador, quando tem. Preciso contar com a paciência de todos os outros passageiros que terão seus horários atrasados. Isso porque normalmente a subida de um cadeirante num ônibus é uma operação. O ônibus para. O motorista desce. O elevador não funciona. O motorista e o cobrador esbravejam. Os passageiros ficam irritados. E lá estou eu “devendo” favores para todo mundo, porque, além de tudo, não preciso pagar. A minha “dívida” diária continua aumentando… Multiplique isso por 30 anos que uso uma cadeira de rodas e facilmente se chega a conclusão que a minha “dívida” de favores é impagável. Jamais, nem que eu vivesse duas vidas, eu poderia retribuir todos os favores que as pessoas fizeram para que eu pudesse ser quem sou. Agradeço realmente a boa vontade da maioria das pessoas que faz os favores que recebo, pois é um gesto real, genuíno e espontâneo. Não sou contra fazer e receber favores, porque também procuro fazê-los, sempre que posso. Mas a situação não é confortável.
Sabe-se que favor é um serviço prestado ou recebido gratuitamente, um obséquio. Pode ser também prova de benevolência, de simpatia, de bondade ou, simplesmente, uma fineza, uma cortesia. Para mim, pode-se depreender dessa ideia que ao fazer um favor você também recebe algo em troca. Quando alguém é benevolente contigo, dizem os bons costumes, você lhe será grato. Quando alguém lhe faz uma fineza ou uma cortesia da mesma forma. Por isso, fazer e receber favores, no meu ponto de vista, é uma das formas mais ricas de interação entre os seres humanos. Ajuda quem os recebe. Enriquece quem os faz. Mas por outro lado, pode ser deprimente você viver uma vida que dependa de favores. Para as pessoas com deficiência, seja ela física ou visual, trata-se de uma luta diária saber que sempre que se sai à rua vai se depender de favores. Sinto a minha “dívida” aumentando, porque jamais conseguirei retribuir a todos os que me fizeram, fazem e farão favores. Certamente que tampouco quem os faz os cobraria, porque se é um favor… é gratuito! Entretanto, saber que toda vez que eu quiser cruzar a rua dependerei de alguém. Saber que todo o dia que eu quiser entrar em determinada repartição pública precisarei pedir para que alguém me ajude. Saber que quando me der vontade de dar uma “caminhada” no final de tarde, dificilmente poderei. É isso que nos diminui como sociedade e como seres humanos, porque não deveria mais ser assim. As calçadas poderiam ser mais acessíveis. Os prédios poderiam prever a dificuldade de locomoção das pessoas. Os ambientes comuns aos cidadãos deveriam atender ao maior número possível de pessoas ao prever as diferentes características humanas presentes na sua unicidade. Falar de inclusão é isso, é o ato de incluir, de permitir que todos circulem pelos espaço comuns, permitindo a interação e a troca de favores numa via dupla, independentemente da condição física de cada um. É essa ausência de igualdade de condições para os diferentes que, às vezes, me diminui. E, certamente, é isso que faz com que muitas pessoas com deficiência física não saiam de suas casas levando uma vida muito aquém daquilo que ela tem para oferecer…
Enquanto pensava sobre esse assunto tomei a liberdade de comentar com dois amigos meus, psicólogos organizacionais, sobre a abordagem que daria ao tema, notadamente a dívida de favores. Para meu espanto eles se espantaram. Ainda por cima me disseram que eu teria que avaliar a minha reação frente a dificuldade que apresento em receber favores, porque isso pode revelar algo mal resolvido no meu subconsciente. Talvez eu devesse buscar tratamento, porque eles não viam mal nenhum em me fazer favores. Havia comentado sobre o tema justamente em frente a uma porta que eu não conseguia abrir no local onde estávamos, Mas Moacir, sempre que você precisar nós abriremos a porta para você. Não me dá trabalho. É até um prazer… Se eu estava no interior da sala e quisesse sair, precisava pedir por favor… Depois para voltar teria que pedir outra vez. Na verdade eu não vejo problemas em pedir favores, como já disse, nem que me abram uma porta. O meu questionamento é que a próxima porta seja pensada para que o maior número de pessoas possa abri-la sem depender de outros. Isso porque, caso eu queira usar essa porta num momento em que nenhum dos meus amigos ali estiver para me fazer o favor de abri-la o que farei? Poderei chamá-los para que venham abri-la? Está aí o empecilho que me e que nos diminui como sociedade. 
Às vezes, são esquecidos outros exemplos em que se evoluiu e se eliminaram problemas. Antes eram limitações das pessoas que, com o desenvolvimento tecnológico, foram superadas. Ao olhar para os meus dois amigos vi que usavam óculos. Pensei comigo, Caso eles tivessem que abrir mão dos óculos e toda vez que quisessem ler algo tivessem que pedir para que alguém lhes lesse, como será que se sentiriam? Alguém poderia se oferecer para ler sempre que eles quisessem… Como será que reagiriam frente a isso? Lembrando que ouve um tempo que já foi assim, os mais novos liam para os mais velhos que estavam com a visão diminuída. Será que também eu deveria sugerir-lhes buscar ajuda terapêutica pelo fato de não saberem conviver com a exigência de favores para situações comuns? Esse é o ponto… Para quem tem a visão diminuída tirar-lhe os óculos é a mesma situação de encontrar a porta fechada. Quando não se consegue abrir uma porta, esta deixa de cumprir a sua função, passando a ser um empecilho. Não mais é uma passagem. Assim como o olho cansado sem o auxílio da lente deixa de cumprir parte de sua função. E esse princípio deveria ser aplicado por nós, sociedade, para os novos projetos e para os antigos que forem sendo renovados, porque estar numa condição física plena ou não também é circunstancial. Qual a pessoa que não tem em sua família idosos que vão perdendo a mobilidade, a audição e a visão? Qual a pessoa que não tem entre seus próximos alguém que precise de um carrinho de bebê? Quem está livre de um trauma, acidente ou situação que o limite fisicamente, temporária ou permanentemente? Tudo bem, enquanto essa preocupação não alcança a grande maioria das pessoas para que a realidade seja de igualdade de condições para todos, aprendi a viver valendo-me de favores, sem ser esmoleiro. Logicamente não fiquei esperando até que todos os problemas fossem resolvidos porque senão quem não viveria seria eu…
São essas questões geradoras de dependência que poderiam ser resolvidas, porque são duplamente perniciosas. Não são positivas para quem delas necessita, assim como não o são para aqueles que atendem a dependência. Você ser dependente representa uma situação de submissão à vontade daquele de quem se depende. Por outro lado, você ter alguém submisso a você é moralmente negativo. E a acessibilidade, que alimenta tais situações, já não é uma questão que não se resolve pela ausência de tecnologia ou de recursos, mas por uma questão cultural, principalmente. Fica exposta uma situação de segregação e não de inclusão. Não são poucas as vezes em que ouço, Eles não precisam de esmola ou de caridade. Eles precisam ter garantidos os seus direitos… A garantia dos direitos é verdadeira e necessária, assim como não se deveria ligar pessoa com deficiência a esmola e caridade.  Entretanto a fala revela mais uma vez a presença da segregação no íntimo de quem assim se expressa. O “eles” parece classificar as pessoas com deficiência como se fossem uma categoria de pensamento, uma equipe adversária, um sindicato, um partido ou outra forma de aglutinação por interesses. Na maioria das vezes, eu tenho muito menos em comum com uma pessoa usuária de uma cadeira de rodas do que com qualquer outro cidadão. Normalmente, o que temos em comum é a cadeira. Seguindo esse raciocínio quem tem óculos deveria sempre se aproximar de quem também os tem. Quem é careca deveria, preferencialmente, relacionar-se com quem também o é. E por aí vai. O que vale destacar é que no atual momento vivido há que se pensar em nós como um todo social, indistintamente se a pessoa for cega, surda, muda, amputada, paraplégica, careca, obesa, branca, negra, amarela, vermelha, ou seja lá que outra forma esdrúxula que se tenha criado para classificar as pessoas dentro de um processo de segregação mental. Não há mais espaço para o “eles”, somente para o “nós”.
Depois de tantos anos vividos como usuário de cadeira de rodas, não acreditava que existisse um lugar onde se poderia viver uma situação próxima a ideal. Uma cidade em que os seres humanos convivem bem, independentemente de sua nacionalidade, características físicas, diferenças de gênero ou outra qualquer.  Enfim, um lugar onde seres humanos diferentes, como não poderia deixar de ser, são iguais nos seus direitos e deveres sem suprimir as suas singularidades. Um lugar onde um usuário de cadeira de rodas pode ser como qualquer um, desfrutar um dia encontrando portas abertas e, ao seu final, não ficar devendo favores a ninguém. A menos que alguém queira fazer uma gentileza… 
Viajei com minha esposa para o Canadá em agosto de 2012 e a primeira parada foi em Toronto, onde ficamos por uma semana. Como bons turistas nos inscrevemos num passeio para as Cataratas do Niágara. O passeio foi maravilhoso pela gentileza e educação das pessoas, assim como pelo local adaptado. Pude circular por todos os ambientes, inclusive fiz o passeio de barco que avança até debaixo da queda de água sem precisar da ajuda de ninguém. Entrei e saí como qualquer outro. Enfrentei a fila como mais um.
Saímos de Toronto maravilhados. Fomos até Vancouver. Descemos no aeroporto, pegamos um táxi e fomos até o hotel. Ao chegar na sua entrada, logicamente, vi uma boa rampa de acesso. Também vi uma espécie de totem a uma distância de um metro e meio da porta com identificação do símbolo internacional de acessibilidade, uma cadeira de rodas. Não entendi, pensei que apenas identificava que o hotel era acessível… Entrei logo atrás da minha esposa que abriu as duas portas. Fizemos o check-in e fomos até o quarto. Portas amplas, cama, pia e banheiro adaptados. Seria uma estadia agradável pelo espaço que tínhamos. Mas ainda tinha minhas dúvidas com relação à cidade, apesar de ter ouvido falar que Vancouver era uma cidade acessível. Pensei comigo, Mais acessível do que Toronto? Veremos… Eu havia me inscrito num curso de inglês e a escola estava a 700m do hotel. O teste das ruas seria no dia seguinte. Saí com um bom tempo de antecedência para suprir qualquer eventualidade. O mesmo símbolo de acessibilidade visto do lado de fora estava na porta de saída pelo lado de dentro. Percebi que se tratava de um botão. A curiosidade me levou a apertá-lo. Uau! As portas se abriram… Saí do hotel e percorri a distância até a escola em 15 minutos. As calçadas, as esquinas, os semáforos, tudo perfeito para cidadãos comuns, como todos nós somos. 
Estava feliz porque poderia me deslocar diariamente “a pé”, sem precisar de táxi ou ônibus. Quando precisei de ônibus pude usá-lo como qualquer outro. Ficava no ponto, o ônibus parava, a rampa baixava, eu entrava, pagava minha passagem e me acomodava. Assim passei os dias em Vancouver completamente despercebido. Naquele período, naquela cidade e naquele ambiente eu me senti um cidadão pleno. Muito mais… Eu, um usuário de cadeira de rodas, era um cidadão comum. Passava dia após dia sem dever favores a ninguém. Ia para os meus passeios como qualquer outro. Não sei se Vancouver é mais ou menos acessível do que Toronto, só sei que é acessível.
Depois de trinta dias por lá já me sentia como um qualquer que vai até os parques, circula pelas ruas sem medo das calçadas ou da falta de acessibilidade, entra e sai das lojas e dos restaurantes certo de que sempre terá acesso. Saía nas noites com meus amigos sem restrição alguma. Onde havia uma porta de um comércio ou de uma repartição pública aberta eu podia entrar. Entendi que elas somente abrem ao público se todos podem ter acesso. As portas realmente são passagens. Obviamente, usei todos os serviços, mas também paguei por eles como qualquer um. Muito diferente da realidade da maioria das cidades brasileiras em que o serviço público é ofertado, muitas vezes, gratuitamente para as pessoas com deficiência. Mas com a diferença de que você não se pode usá-lo, pelo menos não autonomamente. Para usá-lo, é necessário que se peça por favor para um ou para outro que terá que ajudá-lo a subir e a descer. Estamos melhorando? Sim, mas muitas vezes me revolta quando vejo pessoas lutando pela gratuidade dos serviços, quando deveríamos estar lutando pela acessibilidade. A luta deve ser pela eliminação da deficiência das cidades que não atende os seus cidadãos. E todos devem ser cidadãos comuns, com direitos e deveres, participando ativamente da vida em sociedade, sonhando, trabalhando, enfim, simplesmente vivendo. Principalmente vivendo podendo abrir as portas sem ficar devendo favores a ninguém!

TRANSPORTE PÚBLICO, PÚBLICO!

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