Os meus dois ladrões


É bíblico, nós temos dois ladrões. No diálogo de Cristo com os ladrões que com ele foram crucificados isso está representado. Um deles, Gestas, ironizava Cristo dizendo para que ele se salvasse e também os salvasse da morte na cruz. O outro, Dimas, repreendia Gestas dizendo para que ele se arrependesse dos pecados que sabia que haviam cometido. Ambos eram ladrões. Haviam cometido crimes explícitos. Assim, Dimas ainda faz um apelo para Jesus:
– Lembra-te de mim, quando entrares no teu reino.

No nosso dia a dia os dois ladrões também estão presentes. São inúmeras as situações em que eles se manifestam. Um deles nos sopra na mente as críticas, quase sempre destrutivas e negativas. O outro busca ver o lado bom em situações adversas, mas sem ação. Um pode ser do mal e o outro do bem, mas continuam a ser ladrões que nos roubam as oportunidades ao transferir responsabilidades.

Gestas, o mau ladrão, rouba porque sequer se arrepende de sua trajetória de delitos. E mais. Esse ladrão interior ainda cobra de terceiros uma solução para os problemas que enfrenta como resultado de sua conduta prévia. Essa situação é comum nas relações familiares, sociais e profissionais. Na família, como exemplo, pode-se citar os cônjuges que não cumprem com os compromissos espontaneamente assumidos e ainda transferem para o outro a responsabilidade pelas próprias falhas. Nas relações sociais temos as pessoas que difamam, caluniam e maldizem os outros e reclamam que não têm amigos. Também têm as pessoas que não cumprem com o seu papel social, mas querem ter a garantia dos seus direitos. Por fim, também temos os profissionais que deixam de fazer o que deveria ser feito nas suas funções e ainda acusam a organização e os outros pelo seu fraco desempenho. Esses são os ladrões de si mesmo e da sociedade. Eles são a fonte do mau ambiente em que vivem e são os primeiros a acusarem os outros pela própria situação indesejável que existe.

Do outro lado temos Dimas, o bom ladrão. Pode ser bom, mas ainda assim é um ladrão. Essa é aquela voz interior que é ética, vê o lado bom das situações, arrepende-se e tenta, mas não faz. Transfere para os outros a responsabilidade de levá-lo ao paraíso. Nas relações familiares sabe de suas responsabilidades, mas faz escolhas que o afastam das pessoas que ama. Nas relações sociais entende que poderia contribuir mais, mas prefere a comodidade de nada fazer. Na sua vida profissional tem potencial para ser muito mais, mas prefere ser muito menos. São pessoas boas, mas que terminam os seus dias pensando em tudo aquilo que poderiam ter sido, mas não foram.

Para o bem ou para o mal, nas duas situações estão presentes os ladrões de si mesmo. Muitas vezes por omissão. Outras vezes por opção deliberada. Com isso, roubam de si os sonhos e as possibilidades. Roubam dos outros a harmonia e a tranquilidade. Roubam de si a honestidade e a integridade. Roubam dos outros a segurança e a confiança. Os ladrões de si mesmo abrem mão de assumir as responsabilidades de construir o próprio caminho que os conduz ao paraíso. Já não é preciso morrer na cruz para construir o caminho. Alguém o fez. Porém, é preciso ser o protagonista da própria história ao assumir a responsabilidade sobre os resultados advindos das escolhas conscientes. Para isso, prender os ladrões de si mesmo é imprescindível.

O que fazer para prender os meus ladrões?

Linguagem do livro Ladrão de si mesmo.
O revólver e a mente

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *