A sociedade, o cidadão empreendedor e o ladrão de si mesmo

As pessoas limitam as suas possibilidades porque ficam a desejar aquilo que não tem e que não está ao seu alcance. Consomem horas, dias, meses, anos e, muitas vezes, a própria vida sonhando com algo que não é possível. Nesse momento, o ladrão de si mesmo está atuando intensamente. E isso vai do indivíduo para a sociedade. Outro dia estive num evento com foco em empreendedorismo social e cidadania. Tinha a intenção de destacar que para ser um empreendedor não é obrigatório sonhar alto ou realizar grandes feitos. Isso é relativo. No meu ponto de vista, ser empreendedor é ter a motivação para fazer as atividades ordinárias que produzem resultados extraordinários, a superação. Empreendedorismo é fazer o que deve ser feito para alcançar o que se quer. Fui até o evento com a arrogante pretensão de ensinar. Saí de lá com uma aula de empreendedorismo e de cidadania. O João foi a estrela da festa.

Iniciei perguntando se era necessário ter determinadas características físicas, como não ser muito gordo, nem ser muito magro; não ser muito alto, nem ser muito baixo; não ter cabelos longos, nem ter a cabeça raspada para ser cidadão? Não, respondeu a maioria. Fiz outra pergunta e a dirigi para alguns presentes:
Você se considera um cidadão?

Todos responderam que sim. Logo, vi a inquietação do João, um jovem com deficiência intelectual. Ele levantou a mão e fez uma pergunta:
– O que é ser cidadão?

Uau!, pensei. Era essa a pergunta a ser respondida. Como você vai saber se é um cidadão se não sabe o que é ser um cidadão? Entender que cidadão é a parte individual da sociedade, com direitos e deveres deu sentido para as perguntas anteriores. Não há nenhuma precondição física para ser um cidadão. Entretanto, a realidade é diferente. Para que se possa ser um cidadão e desfrutar da sociedade ainda há que se exibir determinadas características físicas. Por isso, enquanto a sociedade não atender a todos indistintamente ela rouba dos seus cidadãos o direito de exercer a sua cidadania. Ela rouba os empreendedores que não podem contribuir para a sociedade, enquanto ela estiver deficiente.

Considerando tudo isso, como ser cidadão e empreendedor? O João respondeu como ser empreendedor ao descrever os seus objetivos. Eram desafiantes e alcançáveis. Enquanto a maioria se rouba o direito de aprender um novo idioma, o João aprendeu inglês de forma autodidata. E ele é considerado uma pessoa com deficiência. Enquanto a maioria tem preguiça ou medo de desenvolver novas habilidades, o João é tenor. E ele é considerado uma pessoa con deficiência. O João, em minha opinião, é um empreendedor nato, porque manteve o foco nas suas possibilidades. Ele não teve preguiça, foi lá e fez. Aprendeu. Transformou-se. Prendeu o ladrão de si mesmo. O João, provavelmente, desenvolveu-se muito mais do que aqueles que admiramos como exemplos de empreendedorismo, principalmente se considerarmos o ponto de partida, as suas limitações e até onde ele chegou. É isso que importa.

Empreendedorismo, motivação e superação numa sociedade que paulatinamente está deixando de ser deficiente ao não roubar os direitos dos seus cidadãos. Assim, manter o foco naquilo que está ao alcance do cidadão com reflexos na sociedade é empreendedorismo. Precisa-se de motivação. Exige-se superação. Cria-se a mão dupla do empreendedorismo que vai do indivíduo para a sociedade e da sociedade para o indivíduo. Prende-se o ladrão de si mesmo e da sociedade, liberando os cidadãos empreendedores.

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