Você é das humanas ou das exatas?

Nos últimos dias viajei por muitos lugares apresentando o livro Ladrão de si mesmo. A receptividade foi boa. A mensagem estava sendo passada. O mensageiro não é o mais importante, porque o que realmente importa é a mensagem. O mensageiro é humano e a mensagem pode ser divina. Entre uma apresentação e outra os diálogos são um gostoso exercício de reflexão. As pessoas, logo que leem o título, identificam-se com o ladrão de si mesmo. Elas sempre têm uma história em que se lembram de uma autossabotagem. Aí está o roubo de si mesmo. Às vezes é um empreendimento não feito. Outras vezes é uma faculdade não concluída. Também pode ser uma relação rompida. E por aí vai. Teve um amigo meu que também manifestou aquilo que ele entende estar roubando de si mesmo. Conversávamos após o evento e ele me dizia:
– Estou cansado da área de exatas. Não aguento mais a falta de humanidade, a necessidade de resultados sempre tão atrelada aos números. Isso está me matando. Vou sair da área de exatas. Vou migrar para as humanas…

Esse meu amigo havia dedicado os últimos vinte anos de sua vida, pessoal e acadêmica, para as Ciências Exatas. Ele era realmente um ícone da área na sua universidade e no país. Escutei o seu desabafo. Ele continuou comentando sobre as suas realizações na área. O desabafo rapidamente se transformou em orgulho. Via nele o brilho nos olhos ao falar de tudo o que alcançara e realizara nas exatas, ao mesmo tempo em que me lembrava que ele havia dito que queria mudar de área. Ele ainda estava descrevendo um projeto no qual se havia envolvido recentemente. De repente ele parou e eu perguntei:
– O que o leva a querer sair das exatas?

A própria parada que ele havia dado já indicava que ele havia identificado o contrassenso daquilo que ele recém havia dito. Ele parara no momento em que expressava a maior paixão sobre aquilo que fazia. Com a pergunta que eu lhe dirigi ele levantou os olhos. Via nele a dúvida. Via nele o desejo de realmente mudar algo, entretanto sentia que não era exatamente de área que ele queria mudar. Ele me olhou e respondeu:
– Pois é, realmente não sei. Eu não aguento mais a falta de humanidade nas relações. A falta de respeito entre as pessoas. A necessidade de números e mais números. Parece que as pessoas não se importam com as outras pessoas. Não sei… Vejo que nas humanas o discurso da preocupação com o outro existe. Na nossa área não.
– Assim você acredita que mudar de área vai resolver o problema?
– Não, não na verdade não. Talvez eu devesse…

Foi assim que o meu amigo confirmou o quanto ele realmente gostava da sua área. A saída não estava em sair da área de exatas. A saída não passava por mudar o cachorro de lugar. A saída era a de eliminar as pulgas do cachorro. E as pulgas, na área do meu amigo, estavam representadas pela falta de humanidade nas relações. Não se tratava da falta de interesse pelo que fazia. 

Assim, a questão não era sair das exatas para as humanas. A questão era a de humanizar as exatas. Isso porque toda e qualquer ciência, humana, exata ou aplicada, é feita pelas pessoas e para as pessoas. Alertei o meu amigo que também existem muitos departamentos de ciências humanas completamente desumanizadas pelas disputas pessoais. Quem transforma as ciências, as organizações e os ambientes sociais em mais ou menos humanos são as pessoas.

Como está o seu ambiente?

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