Tudo de graça!

Tudo de graça…

Outro dia assisti a uma reportagem sobre um país desenvolvido onde as escolas, os hospitais e o transporte coletivo eram tudo de graça. Escutava a repórter dizendo:

– Isso é sensacional. É tudo de graça!

Uma realidade impressionante que se complementava com baixíssimas taxas de desemprego, uma distribuição de renda equilibrada e criminalidade zero. A descrição do dia a dia naquele país é de causar inveja para nós brasileiros, mas a abordagem da reportagem pode levar a enganos. Tinha-se a impressão de que a realidade era quase uma benção divina e acontecia assim simplesmente porque eles viviam naquela região do planeta. O máximo da desinformação, no meu ponto de vista, acontecia quando a repórter afirmava que as escolas, os hospitais e toda uma rede de assistência à população eram totalmente gratuitos. Nada mais falso e enganoso do que pensar dessa maneira. Levava-se o espectador a pensar que ninguém pagava nada para que a escola não cobrasse mensalidades dos alunos. Quem assistia ao programa podia imaginar que não havia custo nenhum para se manter os hospitais e oferecer os medicamentos sem cobrar nada dos pacientes. Quando a repórter falava que o transporte coletivo era de graça parecia que tudo se movia pela simples forca de vontade daquele povo abençoado pelas graças divinas. Poder-se-ia até pensar que, inclusive, os motoristas também trabalhavam de graça. Sabe-se muito bem que não é assim. Os impostos cobrados nos países desenvolvidos são enormes, assim como os nossos. A diferença está tanto na aplicação dos impostos por aqueles que são os responsáveis quanto na fiscalização por aqueles que são os beneficiários.

No Brasil as taxas de impostos pagas por nós, cidadãos, da mesma forma são altas. Contribuímos tanto quanto os habitantes daquele país desenvolvido. Porém, existem diferenças entre como os responsáveis pela sua aplicação dão o destino ao dinheiro arrecadado, assim como a população beneficiária se relaciona com aquilo que é público. No Brasil, os primeiros que são os políticos e os funcionários públicos, muitas vezes, locupletam-se com os recursos que deveriam ser destinados ao público para quem eles trabalham. Uma parte daqueles que formam o funcionalismo público nas diferentes esferas não consegue entender que eles somente lá estão porque têm uma grande maioria de pessoas que os mantém lá. Porém, o primeiro objetivo de parcela desse público é garantir os próprios benefícios que sempre são bem acima da média nacional. Os segundos, os contribuintes, não conseguem entender o seu papel nessa relação. Tratam aquilo que é público como se não fosse de ninguém. Dessa maneira, não cobram, não fiscalizam, descuidam e, muitas vezes, depredam o patrimônio público sem nenhum pudor. E mais, quando podem tirar uma vantagem extra também não hesitam. Afinal, se é público não é de ninguém, assim se eu me apropriar é de graça.

Não há almoço grátis, diz o ditado. Alguém pode almoçar sem pagar, mas outro vai. Com os recursos públicos é exatamente a mesma relação. Podemos exigir agora benefícios gratuitos, mas alguém vai ter que pagar essa conta. Se não for a nossa geração será a próxima. Assim, antes de falar que queremos deixar um futuro melhor para os nossos filhos temos que repensar a nossa realidade: estamos pagando a nossa conta? Se não estivermos pagando alguém vai pagar. Nem que sejam os nossos filhos…

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