Trabalhando de graça!

Lá estava ele com seus mais de cinquenta anos trabalhando numa instituição beneficente. Não que ele não precisasse trabalhar para si, a questão é que ele simplesmente não tinha trabalho naqueles dias, pintor autônomo que é. Eu sabia que ele estaria naquele local, assim encostei o carro ao lado e puxei conversa:

– E aí, tudo bem por aqui?

– Tudo. Trabalhando de graça. Tô sem serviço.

Foi a resposta do meu amigo, enquanto ele continuava o trabalho de pintura. Logo vimos outro carro se aproximar e parar. O senhor desembarcou e cumprimentou o meu amigo para depois comentar:

– Estou precisando fazer uma pintura lá em casa. Você faz esse tipo de trabalho?

O meu amigo ficou feliz da vida. Disse que sim e que estava momentaneamente sem trabalho. Teria ainda meio dia pela frente naquele trabalho voluntário e depois poderia se dedicar inteiramente a nova empreitada. Saíram para olhar a obra. O meu amigo voltou feliz da vida porque para o restante da semana ele já teria trabalho. O visitante havia aprovado o seu orçamento. Tudo isso aconteceu porque ele estava trabalhando de graça naquela obra assistencial. Fazendo trabalho voluntário para aproveitar o seu tempo livre.

Já vi muitos jovens negarem ofertas de trabalho ou estágios em suas áreas de interesse porque consideram a remuneração inicial muito baixa. Um jovem que vai cumprir um estágio ganha no mínimo quatro vezes mais do que o valor nominal estipulado inicialmente. Explico. A diferença entre ter e não ter é o dobro, porque o núcleo familiar a que o jovem pertence deixará de gastar o valor que ele recebe. No momento em que o jovem for pensar em gastar o dinheiro que ele teve que suar para ganhar ele pensará duas vezes, isso equivale a mais uma vez o valor nominal. Por fim, na próxima vez que ele receber uma oferta de trabalho a experiência já estará incorporada em seu novo salário, representando a quarta valorização do seu trabalho inicial. E tem muitos pais que aumentam o coro de acreditar que o filho estará sendo explorado se não receber um grande salário já no sua primeira oportunidade de trabalho. As pessoas também devem se perguntar o quanto estão dando em contrapartida com o que recebem? No meu ponto de vista, quando se faz algo sempre se recebe algo e, muitas vezes é muito mais do que aquilo que se dá.

Voltemos ao exemplo inicial. Caso o meu amigo naquele dia tivesse resolvido ficar em casa se lamentando pela falta de trabalho ele continuaria sem trabalho. Assim, ele se dispôs a colaborar sem remuneração para uma instituição que também ajuda outras pessoas e em pouco tempo foi ajudado. O meu amigo se colocou numa vitrine. Conhecendo-o como o conheço sei que o seu gesto não foi com essa intenção, porque ele o fez com o real intuito de contribuir. Estar disponível para a sociedade da qual participamos é uma dádiva daqueles que entendem que somente por meio do se entregar é que se recebe. É uma lei universal. Quem ajuda é quem mais é ajudado.

E você, está trabalhando de graça? Não? Deveria começar…

de-graca

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