Personalidade forte ou mal-educado?

Personalidade forte ou mal-educado?

Escutava a menina dizer que constantemente tinha desentendimentos com uma colega de trabalho, porque ambas eram intensas e inflexíveis sobre os temas em questão. Dessa maneira, os desentendimentos, muitas vezes, avançavam um conflito que se tornava agressivo. Nada bonito, disse ela. Concluiu:

– Acho que nós somos muito parecidas, temos caráter e personalidade fortes…

Escutei sem nada dizer, embora me tenha vindo à mente a frase, “não justifique a sua má educação com ter caráter e personalidade fortes”. Por que esse pensamento? Creio que, em parte, representa um julgamento meu. Isso me leva a entender que ambientes de trabalho têm se tornado tóxicos, amizades têm sido desfeitas e relações familiares se deterioram porque adolescentes, adultos e anciãos têm usado essa justificativa para serem mal-educados. Acredito que tudo que precise ser dito possa ser dito, mas depende de como é dito. Por isso, é importante entender a diferença entre personalidade e caráter. Parte-se da ideia de que personalidade é o conjunto de formas como uma pessoa age, reage e interage com as demais pessoas, as suas características marcantes. Ser intenso não quer dizer ser agressivo e ser inflexível pode revelar outra personalidade, não exatamente força. Desse modo, quando uma pessoa exibe constantemente determinados comportamentos, ela revela os traços de sua personalidade. Por outro lado, caráter está mais relacionado com a índole da pessoa que a levam a tomar determinadas atitudes frente a situações que exigem uma escolha moral. Nada justifica ser mal-educado. Caso usemos as cinco personalidades do modelo Big Five, acredito que uma pessoa possa demonstrar a sua força ao exibir a personalidade de (1) estabilidade emocional com menos pensamentos e emoções negativas, sem a necessidade de entrar em embates ofensivos; creio que a pessoa possa ser forte pela (2) extroversão de quem tem as habilidades interpessoais para não criar conflitos onde não há necessidade; igualmente suponho que uma pessoa possa expor a sua força com a (3) abertura de quem aprende e cria com a flexibilidade para aproveitar os pensamentos divergentes, não provocando uma guerra por isso; presumo que uma pessoa possa ser quem a sua personalidade diz que é com a força da (4) agradabilidade de transformar e ser transformado sem que isso seja motivo de divergências insuperáveis; enfim, considero que uma pessoa possa ser forte com a personalidade da (5) conscienciosidade, superando atitudes conflitantes negativas. A psicologia positiva reforça o posicionamento ao enfatizar o impacto das forças de caráter no desenvolvimento das virtudes em que os conflitos e as divergências existem, mas não necessariamente são negativas. Desse modo, entendo que muitas pessoas têm usado a falsa justificativa de ter caráter e personalidade fortes para serem agressivas, deseducadas e faltarem com o respeito.

Enfim, a desculpa de ter caráter e personalidade fortes têm sido usadas pessoas de todas as idades para ocultar a falta de educação ou de recursos para lidar melhor com a situação. Os adolescentes devem lembrar que o mundo não existe para os servir, mas que eles devem servir ao mundo; aos adultos cabe lembrar que o mundo não lhes pertence, mas que eles fazem parte do mundo; e aos anciãos é essencial recordar que o mundo não lhes deve nada, oxalá não estejam em dívida com o mundo. Porque o mundo, independentemente de nossa presença, é!

Qual é a sua personalidade? Enfim, suponho que temos conhecimento suficiente para que cada um desenvolva os recursos de personalidade e de caráter para fazer deste um mundo melhor. Senão, qual a razão de estarmos nele?

Moacir Rauber

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