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O que fazer com as “podas” da vida?

O que fazer com as “podas” da vida?

A aluna estava triste, indignada. O trabalho de conclusão de curso entregue ao professor orientador havia voltado com vários apontamentos, sugestões e correções. Ela não acreditava que ainda teria tanto trabalho para concluir a tão sonhada universidade. Ao chegar ao final do arquivo não pode deixar de esbravejar:

– Que droga!!! Que sacanagem!!!

Parecia que sempre que ela se aproximava do objetivo ele se afastava. Sentia como se as pessoas e as situações a estivessem podando, impedindo de que ela atingisse todo o seu potencial. Até pode ser verdade a sensação de ser podado pelos obstáculos da vida, entretanto, deveríamos conhecer os benefícios da poda antes de reclamar dela.

A poda nas árvores é uma técnica que acompanha o desenvolvimento da humanidade. Os mais antigos agricultores se aperceberam que as plantas que tinham os seus galhos cortados ou comidos cresciam com mais vigor. Isso os levou a observar o fenômeno e a aprender com ele. Assim, de eventos fortuitos e sem controle a poda passou a ser uma técnica utilizada para desbastar as plantas, retirando delas os galhos inúteis. A analogia também pode ser usada pelas pessoas na sua relação com os aparentes reveses da vida. Particularmente, inúmeras vezes tive a sensação de que os outros, a vida e até Deus estavam me podando. Amigos me disseram verdades que eu precisava ouvir. Parecia ofensivo, mas era uma poda necessária. Outras vezes, parecia que a vida me tirava algumas oportunidades que acreditava serem minhas. Porém, ao não alcançar as oportunidades por mim esperadas, a poda me levava a desfrutar de momentos incríveis, principalmente, por serem inesperados. Por fim, muitas vezes acreditei que até Deus estava contra mim quando me podou em diferentes ocasiões. Entretanto, ao observar com mais cuidado, essas podas representaram novas chances. As podas dos conselhos e críticas fizeram com que eu abrisse a mente. As podas de perder oportunidades permitiram que me desenvolvesse mais. As podas de Deus proporcionaram que eu canalizasse a energia para aquilo que era o mais importante: a vida.

Por fim, a aluna que se irritava com os apontamentos, as sugestões e as correções em seu trabalho de conclusão de curso, com o tempo poderá perceber o tamanho da contribuição da poda do professor. A poda para as plantas, normalmente, é realizada com a intenção de prevenir doenças e de aumentar a eficiência dos nutrientes captados do solo para melhorar a produtividade e a qualidade da produção. A intenção está somente com quem realiza a poda e a planta reage de acordo com a sua natureza. Por outro lado, ao entendermos os reveses da vida como podas é essencial saber que a intenção daquele que faz as críticas, as sugestões e as correções existem, mas o que realmente importa é o que você fará com elas. Os apontamentos serviam para que ela soubesse para onde direcionar a pesquisa. As sugestões para acrescentar ou suprimir algo. E as correções para eliminar elementos que contagiavam a pesquisa. Para a aluna seria importante observar o fenômeno e aprender com ele. Portanto, caberia a ela digerir a sua irritação para saber aproveitar a poda e canalizar para os seus objetivos.

O que fazer com as “podas” da vida? Cada um vai seguir a sua natureza…

“Todo ramo que, estando em mim, não dá fruto, ele corta; e todo que dá fruto ele poda, para que dê mais fruto ainda.”

João 15:2

Ator de si mesmo!

Ator de si mesmo!

O rapaz entra em casa e começa a praguejar contra tudo e contra todos. A senha do cartão havia sido recusada por três vezes o que fez que ele fosse bloqueado. Em alto e mau tom dizia:

– É uma m… Sistema mais burro. Não consegue identificar a gente. Daqui a pouco terei que fazer como os velhinhos e anotar tudo.

Seguiram os impropérios proferidos contra os demais, quando na realidade havia somente um único responsável por ter esquecido a senha do cartão: ele mesmo. A raiva e a revolta demonstradas eram, mais uma vez, uma atuação, porque enquanto proferia os palavrões a câmera do celular registrava tudo no vídeo de si mesmo. As pessoas têm cada vez mais atuado do que vivido. Preferem contar a sua vida ao invés de vivê-la. Outros, preferem simplesmente assistir a encenação da vida dos demais. As representações feitas nos vídeos e nas edições dos momentos escolhidos para gravar e compartilhar, quase sempre, não são verdadeiras. São atores de si mesmo que se acreditam especiais. Entretanto, no seu íntimo sabem que isso pode não ser verdade, o que leva a que muitos sucumbam frente a síndrome do impostor. A síndrome do impostor representa um tipo de comportamento em que a pessoa duvida de suas capacidades, gerando a sensação de que será exposto revelando ser ele uma fraude em relação ao que se propõe fazer como especialista. E isso atinge pessoas que cumprem com um trabalho real. Assim, frequentemente, profissionais de todas as áreas são acometidos pela síndrome, levando a muitos que se afastem do trabalho até que consigam recuperar sua autoconfiança. E o que dizer de tantas pessoas que somente representam a si mesmos? Entendo que todas as pessoas são únicas, singulares, múltiplas e plurais. E especiais? Depende. Você pode ser um atleta, um artista ou um profissional especial, mas para isso precisará de dedicação, empenho e esforço. Terá que sair da zona comum de que todos somos únicos, singulares, múltiplos e plurais e desenvolver alguma capacidade a um nível muito acima da média. Ser um “virtuose”, que é alguém que exibe uma habilidade de execução técnica ou de conhecimento num grau muito alto. Para ser especial em algo há que ser excelente, exímio, notável, perfeito, virtuoso. Representar a si mesmo o torna especial? Não creio. Parece-me que cedo ou tarde a síndrome do impostor vai alcançar essas pessoas. Por quê? Porque as emoções que exibem na câmera não são reais. Os fatos que apresentam, muitas vezes, são manipulados. A alegria que expressam é exagerada. A tristeza que demonstram é artificial. Na verdade, são impostores. Se alguém que cumpre um papel real pode ser atingido pela síndrome do impostor, imagine o que acontecerá com quem sabe que é um impostor. O que fazer? Creio que, talvez, o primeiro passo seja olhar para dentro de si com sinceridade para se reconhecer como único, singular, múltiplo e plural para em seguida identificar uma habilidade que é somente sua e com esforço, dedicação e empenho desenvolvê-la a um patamar acima da média. No final, se você for autêntico será especial!

Voltando aos atores de si mesmo, parece-me um desafio enorme poder se ver como um ser humano único, singular, múltiplo e plural para reconhecer que do outro lado da câmera está um ser igual. Para ser especial é essencial ser autêntico para pelo menos reconhecer que é sua a responsabilidade de saber a senha do cartão. Com isso, talvez deixe de representar para poder ser quem realmente é. Se for bom estar com quem você é, você é especial, porque no final do dia você vai dormir consigo mesmo e não com o ator de si mesmo.

Moacir Rauber

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Seja amável!

Seja amável!

O dia não havia sido nada daquilo que o meu amigo tinha pensado. Parecia que todas as decisões tomadas produziam resultado contrário ao esperado. A sua cabeça começava a latejar, porque ele não sabia o que diria em casa com tudo que lhe havia acontecido de errado. Pensava:

– Que droga! Como você pode ser tão burro? Idiota! Besta! Você faz tudo errado!

O diálogo interno do meu amigo expressava uma violência que já se tornara habitual em sua vida. Frente a diferentes situações as primeiras e mais duras críticas eram dirigidas para ele mesmo. Estou seguro de que ele dificilmente diria para um estranho palavras tão agressivas quanto aquelas que ele dizia para si. Porém, a violência verbal que ele trazia dentro de si em algum momento seria extravasada. Muito provavelmente, isso aconteceria com alguém próximo, como os familiares. E no momento em que ele contava a sua interpretação da história, ele verbalizava uma série de agressões contra si mesmo. Não havia afeto nessa comunicação, mas a comunicação o afetava gerando dor e sofrimento. Assim, antes da violência externa, ela ocorria no ambiente interno por meio da comunicação que afeta cada um de nós que nutre uma comunicação violenta. Ao escutar o meu amigo descrever o seu diálogo interno pude me identificar, porque as minhas confabulações não eram muito diferentes. Elas, muitas vezes, igualmente eram violentas. Às vezes, contra mim, outras vezes, contra os outros. A violência contra mim ficava explícita quando assumia culpas que não existiam, como taxar-me de burro ou de incompetente. Ela igualmente se manifestava quando não me responsabilizava pelo que era responsabilidade minha, como ao não exibir a coragem de fazer algo que estava ao meu alcance fazer. A culpa não ajuda, porque paralisa, e não assumir responsabilidade impede de avançar, porque afasta as possibilidades. Enfim, a violência pode começar na comunicação íntima, nos diálogos internos de cada um. O que você diz para você sobre você? Você o diz com cuidado como quando conversa com um amigo que respeita? Há afeto, emoção positiva, na sua comunicação consigo mesmo?

A saída é para dentro! Pode parecer clichê, entretanto, é uma verdade. Comento que o meu amigo do diálogo inicial chegou em casa transtornado com a sua realidade externa. A esposa, como de costume, perguntou como havia sido o seu dia e ele, alimentado pela violenta comunicação interna, extravasou. Insultou a esposa, ofendeu os filhos e quebrou alguns objetos da casa. Era a violência que carregava dentro de si que encontrava um lugar para eclodir. Por isso, sem autocuidado e sem se respeitar se torna difícil amar os próximos mais próximos. Jogamos sobre eles as nossas frustrações, os nossos medos e os nossos entendimentos de fracassos. Naquele dia, quase que o casamento e a família do meu amigo se dissolveram. Entretanto, ele soube se recuperar. Pediu desculpas. Redimiu-se com ações. Reeducou-se internamente. Desenvolveu competências socioemocionais que estavam adormecidas para que, finalmente, a sua essência, o AFETO, pudesse se sobressair. Ele passou a comunicar-se internamente com cuidado, carinho e respeito para que quando se comunicasse com os outros revelasse quem ele era sem medo. O meu amigo passou a AFETAR O MUNDO COM AFETO.

Moacir Rauber

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Você é um gênio?

Você é um gênio?

O rapaz era um gênio na sua área, mas era também genioso com os colegas. Para ele pouco importava se a pessoa com quem falava era da sua de outra equipe ou mesmo alguém hierarquicamente superior, ele sempre tinha algo a dizer. Quando a questão se voltava para a área técnica de sua atuação, quase sempre, tinha razão. Mas nem tudo é tecnologia, mesmo numa organização que trabalha com tecnologia. Assim, o seu comportamento trazia prejuízos relacionais, por vezes, maiores do que os benefícios obtidos com a sua grande capacidade técnica. Na área de gestão de pessoas o comportamento do jovem gênio era analisado. Após várias tentativas do responsável dos recursos humanos de conversar com o “gênio” sobre o seu comportamento, o assunto chegou à direção. O diretor o chamou para conversar. A autoconfiança do jovem era tamanha que acreditava que seria mais uma vez promovido. Chegando na sala do diretor, imediatamente se acomodou confortável e confiantemente em uma poltrona. A conversa começou e o diretor, um pouco constrangido, disse:

– Você realmente é um gênio naquilo que faz…

O rapaz estufou o peito e rapidamente respondeu:

– Muito obrigado!

A resposta não expressava gratidão pelo elogio, mas a segurança de quem simplesmente recebia aquilo que merecia. Era o mínimo… devia ter pensado o jovem. O diretor, que não esperava que ele dissesse algo naquela curta pausa, emendou:

– … mas você está demitido.

Ser um gênio somente não basta. O conhecimento técnico por trás de cada uma das funções ou cargos que o “gênio” irá desempenhar é o mínimo dele exigido. Não há espaço para não exibir as competências específicas mínimas para cada tipo de trabalho. Desse modo, as grandes corporações têm acompanhado o desenvolvimento e contratado as melhores cabeças reveladas em universidades ou pelo próprio mercado para compor as suas equipes. Equipes, eis a questão. Porém, muitos dos gênios que se destacam nas universidades não têm a mínima noção daquilo que significa trabalhar em equipe. Não desenvolveram as competências socioemocionais que poderiam validar as suas competências técnicas. Não foram instruídos e nem capacitados para entender as pessoas. Por isso, nem sempre se consegue fazer uma equipe de um amontoado de gênios para render aquilo que deveriam render. Muitas vezes, ainda que os melhores talentos técnicos estejam reunidos, não se consegue fazer com que o resultado da equipe seja maior do que a soma das partes. Eis o grande desafio.

Você é um gênio na sua área técnica? Parabéns! O desafio agora é entender de pessoas para que cada um a sua volta possa exibir o seu potencial na totalidade, transformando-o em talento a serviço da sua equipe. Além de ser produtivo, deve ser bom trabalhar e estar com que você é e, com isso, mostrar que o resultado da sua equipe é maior do que a soma dos indivíduos que a compõe nas suas distintas partes. Caso contrário, você até pode ser um gênio, mas não terá ninguém que queira trabalhar com você. Lembre-se de que sem os outros não há equipe, não há organização e não há necessidade nem de gênio nem de genialidade.

Moacir Rauber

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Voar ou caminhar: o que é melhor?

Voar ou caminhar: o que é melhor? 

A metáfora do ovo de águia que foi chocado por uma galinha e assim nasceu, viveu e morreu foi muito utilizada em treinamentos corporativos. O pano de fundo da reflexão explora o não descobrimento, o não desenvolvimento e o não aproveitamento das reais capacidades de se voar alto. No final da metáfora, descreve-se a cena da águia que ciscava e cacarejava como galinha, admirando a águia que voava majestosamente pelos céus. Ela não havia tomado consciência de quem era e quais seriam as suas naturais habilidades. Na analogia com as pessoas, estimula-se a que elas possam sonhar e acreditar nas suas potencialidades, para com isso fazer mais alcançando a plenitude de suas vidas.

Por outro lado, imaginemos a metáfora invertida. Um ovo de galinha, acidentalmente, vai parar num ninho de águia. A águia cuida dos ovos até que eles descasquem. Os filhotes de águia nascem e entre eles um pintinho. Parece-lhes estranho, entretanto, a águia mãe e os seus  filhotes tratam o pintinho de modo igual. As penas crescem e os filhotes de águia se agitam com a proximidade de alçar seu primeiro voo. O pintinho, que se acredita águia, repete os mesmos movimentos. Ele está no alto das montanhas no ninho das águias. Às vezes, quando olha daquela altura e não vê nada lhe parece estranho, mas se é assim para ele também o é para os seus irmãos. É chegado o dia para que os filhotes de águia deem o seu primeiro voo. A mãe zelosa incentiva um a um a que se lancem no abismo com a certeza de que irão voar. Ela olha para o pintinho e, instintivamente, o deixa por último. Não consegue identificar, mas há algo diferente nele. O primeiro filhote se lança no abismo. Cai e continua caindo. Parece que vai se chocar contra as paredes do precipício. No limite para não se estatelar contra as pedras o milagre da natureza se manifesta em sua plenitude. O filhote começa a bater as asas, um pouco desajeitadamente no início, até que alça o seu primeiro voo como águia que é. O segundo filhote repete o feito. Por fim, é chegada a vez do pintinho. Todos o incentivam. A sua própria autoconfiança o estimula, porque afinal ele é uma águia assim como a sua mãe e os seus irmãos. Ele está na borda do precipício. Estica as suas asas num movimento de aquecimento, assim como o fizeram seus irmãos. O pintinho tem a impressão de que as suas asas são mais curtas, mas agora não é hora para dúvidas. A mãe, com certo temor, o incentiva. Os irmãos, na maior empolgação, o encorajam. E o pintinho, sem saber da sua real natureza, se lança. Lá vai ele até o limite e começa a bater suas asas… O final não precisa ser contado. A mãe se lamenta. Os irmãos se entristecem. E a vida segue sem o pintinho que acreditava ser águia.

Não se trata de desestimular a que as pessoas não queiram voar. A questão vai um pouco além da analogia de que todos tenham que sonhar alto. Acredito que o foco deva ser naquilo que cada um queira fazer e ser dentro da sua natureza. A pretensão é desmistificar o tamanho dos sonhos e valorizar aquilo que é importante para cada um. Quem disse que voar é mais importante que caminhar? Por que caminhar seria melhor do que nadar, por exemplo? Isso tudo depende da sua natureza. Depende: quem é você? O que você quer? Qual é a sua personalidade? Depois escolha fazer aquilo que você quer fazer. Voar, caminhar ou nadar não importa. As analogias são interessantes para destacar competências e as possibilidades, mas cabe a cada um ter a consciência de que somos humanos. Dessa forma, é fundamental você fazer as escolhas alinhadas com a sua natureza, porque a felicidade está conectada com ela. Evoluir sem desrespeitar a sua natureza é um desafio individual. Nem melhor nem pior.

Moacir Rauber

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Às vezes, é preciso parar…

Mas ele é cego…

Sempre trabalho com a ideia de que é importante olhar mais uma vez para todas as situações com a pretensão de ver nelas oportunidades. Todos os eventos em que nos envolvemos, no meu ponto de vista, oferecem as mais variadas oportunidades. Podem ser eventos fortuitos ou não, com graves ou suaves consequências, entendo que se pode dirigir para eles um novo olhar. Não digo que sejam situações fáceis ou que seja simples fazê-lo.

Outro dia, enquanto apresentava essa ideia, um rapaz me interrompeu e disse:

– Acho que não concordo muito com isso… Eu tenho um amigo cego, daí me pergunto: como ele vai olhar mais uma vez? Ele não vê nada…

Fiquei um pouco surpreendido com a pergunta. Não foi pela sua dificuldade, mas por não haver entendido o sentido metafórico de olhar mais uma vez. Respirei, calei os meus julgamentos e respondi:

– Muito bem, eu tenho que concordar contigo, disse.

Prossegui comentando que o sentido de olhar não se limita a capacidade dos olhos de traduzir em imagens aquilo que está à nossa frente. Olhar mais uma vez é muito mais do que isso. Quando você leva o carro para a mecânica e pede para que “deem uma olhada” não é para que o fiquem admirando. Quando alguém faz um check up médico e diz que deu “uma olhada na saúde” também não tem o sentido de ver, mas sim de analisar, examinar, investigar e observar a situação para, a partir dela, fazer um diagnóstico que lhe permita tomar as ações adequadas. É esse o conceito que está por trás da expressão Olhe mais uma vez! Em cada situação novas oportunidades. Avançando para o ambiente organizacional, existem muitos cegos, surdos e paraplégicos em diferentes níveis hierárquicos e de gravidade. São tantos os líderes cegos que, ao não olharem mais uma vez para o ambiente e para as pessoas, não veem a necessidade de estimular a autonomia em busca da excelência por meio do alinhamento da missão organizacional e do propósito individual. No ambiente organizacional, são tantos os líderes surdos que não escutam as pessoas e os sons do ambiente e deixam de incentivar programas de desenvolvimento individual e prejudicam o crescimento organizacional. São tantos os líderes que estão paraplégicos de tanto correr, porque com a aceleração não permitem que a organização caminhe na direção escolhida. Para que não sejamos cegos, surdos e mudos é fundamental se manter na mente do aprendiz e assim ampliar a visão sobre o ambiente, escutar os sons do meio e mover-se na direção pretendida. Para isso, muitas vezes…

… é fundamental fechar os olhos para ver; é essencial silenciar para escutar; e é indispensável parar para se manter no caminho.

Enfim, no ambiente organizacional ou relacional, muitas vezes, não se sabe quem são os cegos, os surdos e os paraplégicos entre nós. Isso depende de cada um e da amplitude das suas ideias. Com relação ao amigo que não havia entendido a metáfora, somente posso lhe agradecer, porque o seu questionamento me fez olhar mais uma vez. Essa ideia está descrita no final do livro “Olhe mais uma vez”(p. 147): “É importante viver sabendo que podemos falar sem proferir palavras; que podemos ouvir sem escutar os sons; que podemos ver sem as imagens; que podemos caminhar sem mover as pernas; enfim, que podemos aprender a aprender mantendo a mente aberta e em sintonia com o mundo percebendo as oportunidades que nos rodeiam.”

Como anda a sua visão?

Como está a sua audição?

E a sua mobilidade? Será que é preciso parar para ser mover?

Às vezes, é preciso ressuscitar nossas capacidades…

FELIZ PÁSCOA!!!

Moacir Rauber

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O Mundo não vai parar…

O mundo não vai parar…

Mais um dia e mais uma briga começava. O filho, com dezoito anos, se sentia incompreendido pelo pai, pois acreditava que ele não sabia nada do mundo atual. Para ele, o pai não entendia a importância das redes sociais, não via a as amizades do mundo virtual com bons olhos e não aceitava que ele se divertisse com os jogos. Por outro lado, o pai se ressentia porque o filho não fazia as tarefas, não colaborava com a organização ou com a limpeza da casa e, além de tudo, não estudava e não trabalhava. Os dois viviam sozinhos desde que a mãe os deixara logo que o filho tinha seis meses. Em todos esses anos sempre viveram bem, entretanto, de uns tempos para cá, nada mais funcionava. A cumplicidade antes presente em todas as atividades que faziam juntos agora se chocava num antagonismo perceptível na presença um do outro. Depois de algumas acusações para lá e para cá o filho disse:

– Pai você não me entende. Sou um adolescente e preciso do meu espaço. Da minha privacidade. O mundo não me entende!!!

Uma cena que, provavelmente, se repete em muitos lares pelo mundo, geração após geração, na relação entre pais e filhos. Não há nada de novo no conflito. O pai admitia que não entendia o filho nessa fase, porém o que o assustava era a sua postura frente à vida.

Onde já se viu? Adolescente com quase vinte anos? Com essa idade eu já namorava sério e trabalhava. Meu avô já era responsável por manter uma família aos vinte... Retrucou irritado.

O mundo não te entende? E quem disse que o mundo precisa te entender? O mundo não vai parar por tua causa… Complementou.

O pai disse que a conversa terminou por ali. Assim, passaram os últimos cinco dias sem conversar. Escutei o desabafo do pai. Não disse nada, mas o meu diálogo interior foi ativado. Sem julgar um ou outro, certo ou errado, nem bom ou ruim, concordei com o pai quando ele disse que o mundo não vai parar para o filho, assim como não parou para ninguém. O mundo não parou para faraós, imperadores, bruxos ou feiticeiros, assim como não parou e nem vai parar para os ricos ou famosos da atualidade ou do futuro. O mundo simplesmente é e segue o seu caminho com você ou sem você. Portanto, acredito que cabe a cada pessoa entender o mundo para nele se posicionar. Qual é o meu papel no mundo? O que posso contribuir? O que espero receber? Creio que entender que o mundo não vai parar por minha causa é fundamental para saber ser e estar nele, fazendo dele um lugar melhor com a minha presença. No ambiente organizacional não é diferente. No olhar da organização para o indivíduo, saber avaliar quais as competências, características e perfis individuais podem contribuir para que a equipe seja melhor, mais competitiva e que entregue mais resultados é essencial. Na perspectiva do indivíduo para a organização, saber avaliar onde posso contribuir mais para estar bem com os meus objetivos é um passo dado rumo a realização pessoal. Trata-se de um processo de retroalimentação positiva. Em suma, entender que o mundo não vai parar por ninguém e que ele, igualmente, não é justo, permitirá que cada um possa se posicionar no mundo sendo justo.

Enfim, voltando para o diálogo entre pai e filho, estou seguro que os dois vão se entender outra vez, porque afinal o sentimento de amor existe entre eles. O exercício de entender o mundo pode tardar um pouco tanto para pai como para filho, porém os primeiros passos, talvez, passem pela importância de arrumar o próprio quarto e de ajudar na organização da casa. A saída é para dentro, porque o mundo não vai parar.

Moacir Rauber

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A regra de não ter regras…

A regra de não ter regras

Escutava o meu amigo que dizia não sonhar com a riqueza, entretanto nas suas palavras sempre aparecia o desejo de ganhar milhões. Ele argumentava que o seu desejo era o de poder ajudar os outros. Da mesma forma, entre uma fala e outra aparecia a vontade de ser dono de um iate para desfrutar de uma pescaria em alto mar ou de possuir um jatinho particular para se deslocar mais rapidamente entre as suas diferentes propriedades que almejava ter. Assim, os anos se passaram e ele conseguiu acumular um patrimônio tamanho que permite que ele tenha tudo o que dinheiro pode comprar. E aquele desejo de fazer o bem ajudando aos outros? E o sonho de diminuir a desigualdade ao distribuir o que acumulou? Bem, creio que esse desejo ficou lá nos arroubos da juventude, período em que mantínhamos nossas intermináveis conversas sobre o futuro. Hoje estamos acima dos cinquenta anos e o futuro que imaginávamos é o nosso presente. Na semana passada, encontrei-o virtualmente em meio a pandemia. Ele dizia:

– Você deveria ter estado conosco. A festa não terminava…

E contava os detalhes de mais uma das incontáveis festas organizadas por ele e seus amigos. Sempre que nos encontramos a conversa é alegre e divertida, porque a amizade continua. Porém, a divergência entre o sonhado e o realizado é enorme. Os comentários aproximam o meu amigo do desregramento comportamental no qual muitas pessoas sucumbem. A regra é não ter regras. Festas? Excessos diários são a regra. Consumismo? Ter é a norma. Relacionamentos? Uma lista interminável de inícios, meios e finais. Escutava-o. A necessidade de compartilhar era gigante. Não bastava fazer a festa, era preciso anunciar. Não era suficiente consumir, era essencial exibir. Não satisfazia conquistar, havia uma necessidade de arrebanhar. Por trás desse comportamento, quase compulsivo, se manifesta a volúpia, a luxúria e o desregramento. Uma busca desenfreada por novos prazeres sensitivos ligados a uma necessidade interna não identificada. Tais comportamentos também se manifestam no trabalho, nos estudos, nos esportes e em qualquer atividade que leve a buscar um prazer exagerado. Do outro lado da volúpia, da luxúria ou do desregramento estão a tristeza, a castidade e o controle, que por si só também não são qualidades. Entre a volúpia e a tristeza, entre a luxúria e a castidade e entre o desregramento e o excesso de controle se encontra a fruição. A fruição, que é a ação ou o ato de fruir, de aproveitar de usufruir uma oportunidade de forma consciente e prazerosa, representa o equilíbrio. Entendo que é saudável e humano festejar de maneira a celebrar o privilégio da vida. Parece-me importante consumir para atender as próprias necessidades, alimentando a interdependência benéfica com os sistemas de produção e o ambiente. Creio que é fundamental estreitar os relacionamentos com base na autenticidade e na respeitabilidade. Para mim, celebrar, consumir com consciência e estreitar as relações é o equilíbrio que representa a capacidade de fruir.

Enfim, o meu amigo que tem a disposição tudo o que o dinheiro pode comprar, hoje, depois de tomar meio litro do melhor uísque, vai dormir sozinho. A regra de não ter regras fez com que mais um de seus relacionamentos acabasse. Eu o conheço e acredito que a beleza que ele tem no seu interior ainda está lá. Tenho a certeza de que a realização daqueles sonhos da juventude ainda o fariam feliz. Talvez, falte-lhe a coragem de regar o seu amor-próprio para florescer a beleza da capacidade de saber fruir.

Moacir Rauber

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Na hora da raiva…

Na hora da raiva…

Escutar o desabafo de uma enfermeira revela como não controlar as emoções pode afetar a própria saúde física e mental. Ela dizia que estava finalizando o seu árduo dia de trabalho e teria um atendimento ainda por fazer. Diagnóstico? Covid. Sintomas? Nenhum. Ainda assim, ela deu uma aula sobre a transmissão e os cuidados para evitá-la, destacando a importância do isolamento. A enfermeira alertava sobre os riscos para si e para os outros na atual situação de falta de leitos para internamento. Por fim, a pessoa agradeceu e saiu. A enfermeira encerrou o trabalho e fez todo o procedimento de higienização com o máximo de cuidado para evitar qualquer possibilidade de contagiar-se ou de contagiar a outros. Agora ela iria para a sua vida familiar. Assim, ela passou pelo supermercado e qual não foi a sua surpresa ao se deparar com a pessoa que ela recém havia atendido, diagnosticada com COVID? A pessoa estava no quiosque do supermercado tomando um sorvete, conversando com o atendente e com as pessoas a sua volta. Foi então que a enfermeira não se conteve. Explodiu:

– Irresponsável!!! Criminoso!!! Não acabei de lhe falar para ficar em casa? Quem você pensa que é?…

Confusão armada. Outras pessoas intervieram para acalmar a enfermeira, enquanto se afastavam do portador do vírus. Provavelmente eu faria o mesmo, porém a enfermeira se colocou em risco físico ao perder o controle de suas emoções. A raiva venceu. A ira a dominou. O resultado? Ela se exaltou, a cólera governou, a indignação a arrebatou e, certamente, o seu corpo e a sua alma sentiram os efeitos negativos desse comportamento. A enfermeira terminou por se prejudicar e por não adotar a melhor estratégia para resolver a situação. A gestão das emoções é um dos grandes desafios individuais e organizacionais, porque elas são naturais e nos acometem em diferentes situações. Não se pode saber qual o momento que seremos confrontados com algo que vai nos provocar raiva. Entretanto, cabe a cada um de nós saber gerir a raiva ou a ira para não nos deixarmos dominar por elas. Ira ou raiva, sentimentos de ódio, fúria, cólera ou indignação dirigido a uma pessoa ou a uma situação, tendem a produzir resultados trágicos quando não controlamos as ações resultantes deles. Ressalte-se que a solução não está no seu extremo, onde se posiciona a passividade. Passivo é aquele sujeito que já não se indigna, não se incomoda e não se mobiliza por nada. É alguém que não age e nem reage frente aos maiores descalabros que estão ao seu alcance resolver. O que fazer frente as situações extremas? Respirar fundo para temporizar. Oxigenar o cérebro para avaliar sem julgar. Ser tolerante e agir com a firmeza de quem ainda se indigna com as situações absurdas. Frente as situações extremas, quase sempre, a melhor saída está no equilíbrio.

Ao se deparar com um paciente infectado em público a enfermeira explodiu de raiva e de indignação. Estou seguro de que manter o equilíbrio diante de uma situação tão revoltante é um desafio emocional extremo. Não sei qual seria a minha reação. Entretanto, a enfermeira reagiu dominada pela emoção e colocou em risco a sua própria vida. Talvez, o mais apropriado seria ter denunciado a pessoa por comportamento criminoso, além de alertá-la outra vez. Desse modo, ela não exporia o outro e muito menos a si mesma. Entre a ira e a passividade está a tolerância com ação firme que revela o cuidado e o autocuidado. E na hora da raiva? Respira fundo e conta até dez…

Moacir Rauber

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O preço do orgulho!

O preço do orgulho

 A vida era dura e as coisas não aconteciam com facilidade para ela. Cada sonho, toda busca ou qualquer conquista exigia um grande esforço. No entanto, ela se orgulhava de lutar pelo que queria com autonomia. O tempo passava rápido e ela não havia conseguido realizar uma de suas grandes ambições: a faculdade. Para conseguir ingressar numa universidade pública o conhecimento adquirido no Ensino Médio já estava muito distante. Dinheiro para fazer um cursinho nem pensar. Entrar numa universidade privada era uma possibilidade, porém a parte financeira era um empecilho. Ela vivia sozinha com a sua filha e o salário que recebia apenas cobria as necessidades básicas das duas. No seu trabalho, ela era dedicada, além de se envolver em atividades de voluntariado. Ela se orgulhava de poder ajudar. Um dia, conversando com a sua chefe, comentou sobre o sonho não realizado. A chefe disse que pagaria a universidade. Rapidamente ela recusou, dizendo que não era necessário, ao que a chefe respondeu:

– Não saber receber ajuda é uma das manifestações do orgulho…

Uma constatação verdadeira, porque o orgulho não somente se manifesta pela arrogância na interação com os demais. Ele está presente no excesso de autonomia e de independência que nos impedem de receber ajuda, um gesto de soberba ao crer que não se necessita dos outros. O provérbio português, “ninguém é tão pobre que não possa dar, nem tão rico que não precise receber”, retrata bem a interdependência humana. Todos podem dar algo. E ela entregava as suas competências no trabalho ao estar disponível para as atividades que eram parte de sua função. O ambiente que ela criava era positivo e propositivo. Ela ainda fazia os trabalhos voluntários ao ajudar a cuidar de idosos num lar próximo da sua casa. Não era porque a sua condição financeira não fosse das mais favoráveis que ela não poderia contribuir com algo além do seu trabalho. E ela o fazia acompanhada de sua filha. Porém, ao não querer ajuda, o orgulho se manifestava pela altivez ligada a soberba de se crer autônoma num mundo interdependente. Por que ela não queria que alguém lhe pagasse um curso universitário? Não saber receber ajuda pode ser soberba, orgulho ou arrogância e não sempre um exemplo de determinação pela autonomia. Dessa forma, muitos acreditam que se o orgulho de lutar pela autonomia pode representar a soberba, a virtude deve estar em seu antônimo, o outro extremo. Porém, o antônimo pode ser a submissão, o servilismo e até o puxa-saquismo, comportamentos que tampouco são positivos. Volta-se para o caminho do meio. Entre os extremos de orgulho e de submissão está a humildade, que é a virtude de saber se autoavaliar para reconhecer as fortalezas e as limitações, agindo em conformidade com elas. É a humildade no comportamento que permite que se interaja com os outros sem querer sobrepor-se ou se mostrar superior a eles. Enfim, creio que a virtude está no equilíbrio entre ser assertivo sem ser arrogante e ser humilde sem ser submisso. Assim, chega-se à harmonia.

Depois da conversa com a sua chefe, ela travou uma luta interna porque não havia gostado de ouvir que poderia estar sendo orgulhosa, arrogante e soberba ao não querer receber ajuda. Ela sempre lutara para manter a sua dignidade e se orgulhava disso. Entretanto, após os diálogos internos profundos ela conseguiu ver que a chefe tinha razão. Ela estava disposta a abrir-se para receber ajuda, porque o preço do orgulho, da soberba e da arrogância seria a não realização do sonho de fazer uma faculdade. Foi assim que ela se formou aos quarenta anos de idade.

Moacir Rauber

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