PÁSCOA: TEMPO DE RESSUSCITAR O AMOR NAS RELAÇÕES!

Vivia só. Por vários anos segui a rotina de trabalho, leitura, filmes e visita aos amigos. Seguia só de solidão. Num dia de desespero pessoal, fui até o alto do Morro das Pedras, mirante que tem vista para a Lagoa do Peri e para a praia da Armação em Florianópolis. Fiquei observando a paisagem tentando me acalmar. A solidão doía. Ao pensar em voltar para casa, vinha-me o medo. Fui até a porta do mosteiro Jesuíta que havia ali e vi um convite para um retiro de silêncio, mas o silêncio me incomodava. Assim mesmo, inscrevi-me. Ao entrar no quarto li a frase de Santo Inácio de Loyola: “Pedir a Deus Nosso Senhor o que quero e desejo”. Mas o que eu realmente queria? Não sabia. Depois de quatro dias de silêncio em que saí do pânico para a tranquilidade soube fazer um pedido: “Deus, ensina-me a viver bem comigo mesmo e, se possível, que encontre alguém que tenha as crenças e convicções parecidas com as minhas para poder viver um amor por ti abençoado”. Esse pedido levei comigo.

A vida começou a ficar mais leve ao aprender a viver bem comigo na presença de Deus. Depois de alguns anos nessa rotina, aproveitando uma folga no trabalho, fui fazer uma formação em Buenos Aires. No evento de abertura conversei com uma colombiana que compartilhava o quarto com outras mulheres. Na manhã seguinte tomei café com elas e conheci a Susana e a Romina. Formamos um grupo quase que inseparável. Tivemos dias intensos de curso, enfim uma tarde de folga. Logo após a soneca do almoço, dei uma volta na calçada em frente ao restaurante do hotel e vi a Romina preparando um chimarrão. Convidei-me para acompanhá-la.

Sentamo-nos ao sol na grama do jardim do hotel. O lindo de tomar chimarrão é que a conversa acontece, porque a pessoa toma um mate e passa para o outro e depois o recebe novamente. Automaticamente, enquanto um toma o outro fala. Passamos horas tomando chimarrão, movendo-nos pelo jardim para acompanhar o sol que nos aquecia. Foi uma das tardes mais lindas das quais tenho lembrança.

Na hora do jantar nos encontramos outra vez. Em seguida, apareceu um colega para mostrar-nos algo. Ele disse: “Vejam as fotos que tirei hoje à tarde…” que registravam a conversa que havia tido com a Romina. Uma amiga olhou para as fotos e falou: “Aqui está acontecendo algo…”, insinuando que estávamos interessados um no outro. Enrubesci, manifestando o constrangimento por uma verdade revelada.

Naquela noite, não saía da minha cabeça a linda tarde que tive com a Romina. Parecia que a seguia escutando, contando os detalhes do seu trabalho. Podia ver o amor e o carinho com que ela cuidava dos anciãos que escreviam o último capítulo de suas vidas. Eu estava encantado.

No dia seguinte, ao revê-la, eu queria me aproximar, porém estava inseguro. O evento se encaminhava para o final e eu sequer tinha o telefone da Romina. No último dia, combinamos de jantar na casa da agora amiga comum, Susana. Para mim, era caminho do aeroporto. Para a Romina, era do outro lado da cidade. Será que ela iria? Graças a Deus ela foi, porque naquele jantar a conexão entre nós ficou evidente. Trocamos os contatos e desde então nunca mais nos desconectamos. Alguns dias depois, estávamos namorando. Podia ser virtual, mas era muito real. Finalmente, encontramo-nos novamente e oficializamos o nosso namoro para logo nos casarmos.  Anos se passaram e a data ficou gravada na mente, no coração e na aliança que vai me acompanhar até o último dia de minha vida.

“Pedir a Deus Nosso Senhor o que quero e desejo” foi atendido em todos os detalhes. Porém, uma vez atendido o pedido, é essencial que nos dediquemos para que as relações se mantenham, uma vez que nesta vida nada está assegurado. Assim, agradecer é o caminho de amor para manter as relações que nos permitem ressuscitar todos os dias em vida.

Lembrando que para a vida eterna Jesus já ressuscitou para nos resgatar.

FELIZ PÁSCOA!

Moacir Rauber

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Dedicado: Rita Romina Perluzky

E SE NÃO TIVER FEIJÃO?

E SE NÃO TIVER FEIJÃO?

O almoço foi servido e o anfitrião observava os convidados saboreando o prato. Ele sabia que os presentes eram de outros países com hábitos alimentares muito diferentes. Por isso, fez questão de recebê-los com um prato típico da sua região e da sua cultura. Quando viu que estavam por terminar a refeição, indagou:

– E então, gostaram?

– Sim, estava excelente! Respondeu um.

– Nossa, nunca imaginaria que pudesse ser tão bom! Respondeu outro.

Certamente que os elogios encheram o anfitrião de orgulho que nos havia oferecido o Haggis, prato típico da Escócia. Foio então que ele explicou como era feita a comida. O estômago da ovelha era recheado com o coração, o fígado e o pulmão do animal picados e misturados com cebolas e aveia, temperado com alho e outras especiarias. É um prato servido em banquetes, acompanhado do som das gaitas de fole. Parecia estranho, mas era realmente bom. O anfitrião agradeceu os comentários e fez outra pergunta:

– E na terra de vocês, qual é o prato típico?

Os convidados, alguns com a cara divertida pela recém descrita receita, comentaram sobre os diferentes pratos de cada país. Um japonês comentou sobre o lámen e o alemão sobre as linguiças. Um francês explicou o ratatouille, o italiano descrevia as macarronadas e assim seguiu a conversa. Por fim, um brasileiro falou :

– A comida do dia a dia é o feijão e o arroz, com um pedaço de carne e saladas…

Todos os presentes naquele jantar estavam longe de seus países de origem há vários meses, por isso a conversa se punha animada com as lembranças das comidas originárias. Na sequência da explicação do prato brasileiro, uma brasileira presente emendou, Eu sinto tanta vontade de comer um típico feijão com arroz…

O dono da casa então ofereceu:

– Vocês gostariam de preparar o prato durante esta semana? Acredito que possamos encontrar todos os ingredientes que vocês precisam…

E assim foi combinado o almoço agora com a comida típica dos brasileiros numa integração de culturas e costumes alimentícios. Não se estava dizendo que uma era melhor do que a outra, apenas que eram diferentes.

Acredito que esse é um caminho para que a humanidade se reconheça mutuamente, em que as diferenças culturais não criem atritos, conflitos e guerras. Para isso, o respeito deve ser o motor da efetiva integração, porque ainda hoje temos questões que provocam hostilidades e divergências como resultado da intolerância de um para com o outro. Muitas vezes pode ser a arrogância de acreditar que os meus hábitos são melhores do que os seus. E não é isso. Sabe-se que os hábitos e costumes que cada povo desenvolveu tiveram a sua razão de ser. Hábitos e costumes que fundamentam uma cultura baseiam-se nas habilidades e no conhecimento que cada povo dispunha e seguiam as características ambientais de cada região. Sabe-se que os povos que viveram e se desenvolveram em climas mais frios tinham estratégias de sobrevivência diferentes daqueles que surgiram em regiões mais quentes. Frutas e verduras que existiam numa região não existiam em outras. Desse modo, naturalmente também os hábitos alimentares eram diferentes, porque cada povo dependia diretamente daquilo que o ambiente oferecia. Hoje essa dependência direta dos produtos da região são bem menos importantes. Ainda que a região em que se vive não seja propícia para produzir maçãs se pode comer maçãs o ano inteiro. Por isso, as pessoas passaram a experimentar, a integrar e a modificar os hábitos alimentares. Na grande maioria dos casos não se fala mais em questão de sobrevivência individual e da espécie quando se escolhe o que se vai comer, mas faz-se as escolhas alimentares por gosto.

Portanto, da próxima vez que você viajar esteja aberto para experimentar os sabores locais num movimento de respeito e de integração. Entretanto, não deixe a sua cultura em casa. Leve-a consigo. E se não tiver feijão? Na Argentina ou no Uruguai podem comer uma parrilla, mas no México pode vir um Escamol. Você vai encarar?

Moacir Rauber

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A CORAGEM DE TER MEDO!

Fonte: PIXABAY

A coragem de ter medo!

O jovem sempre fora considerado brilhante. Quando criança os pais e os professores elogiavam a sua inteligência e na adolescência passaram a enaltecê-lo também por sua beleza. Agora ele é um adulto que reúne outras competências ligadas a sua inteligência, como conhecimento, a sagacidade e a rapidez de raciocínio. Além disso, ele esbanja a segurança de quem está bem com a sua imagem. Ao entrar naquela empresa, incialmente, todas essas qualidades se transformaram em resultados. Entretanto, com o passar dos meses algumas situações não se resolviam como ele imaginava e determinados comportamentos seus geravam desconforto na equipe. Assim, o jovem começou a flertar com a insegurança que se manifestava em agressividade. Numa conversa privada, ao revelar a situação, ele foi confrontado com a pergunta:

– O que você faria se não tivesse medo?

Ele sinceramente não sabia, mas constatou que estava com medo. O jovem estava seguro que tinha uma boa formação, era inteligente e, quando queria, simpático. Entretanto, por vezes, não sabia como conduzir uma situação comportamental frente a colegas que pareciam menos inteligentes, menos sagazes e mais lentos. E esse não saber como se comportar o paralisava. Ele detinha muitas competência técnicas, porém não se comunicava tão bem como exigia a equipe, assim como não sabia servir com amor e cuidado com o outro. Faltava-lhe desenvolver a coragem de ter medo para não ter medo de ter coragem. Faltava-lhe a confiança e a curiosidade.

A coragem tem entre os seus sinônimos a ideia de bravura, determinação e audácia, assim como entre os antônimos estão a covardia, a dúvida e o medo. Entendo que ao não ter coragem de ter medo, desaparece a bravura e aparece a covardia. Igualmente, considero que é necessário ser corajoso para exibir dúvidas e perguntar, assim como acredito que é essencial ser corajoso para vencer o medo de não saber, aceitando que o outro sabe. Desse modo, não é o medo que fez paralisar o jovem bonito e inteligente, mas a covardia de não reconhecer que não saber é uma oportunidade de aprender e que o medo como emoção natural nos protege dos perigos reais, assim como da arrogância, da soberba e da prepotência. Portanto, creio que ao sermos arrogantes, perdemos os benefícios do conhecimento; ao sermos soberbos nos privamos da sagacidade; e ao sermos prepotentes renunciamos a boa parte da capacidade de rapidez de raciocínio, porque partimos da crença de que somos mais inteligentes do que o outro. A comparação entre seres únicos, singulares, múltiplos e plurais é a receita para a infelicidade. Por fim, é preciso ter confiança para exibir a coragem (bravura, determinação e audácia)  no exercício da curiosidade que elimina o medo pela humildade de simplesmente não saber algo. Aparecem as oportunidades!

Enfim, na conversa privada o jovem, ao ser confrontado com a pergunta o que faria se não tivesse medo, finalmente parou e chorou. Ele começava a entender que durante a sua vida os elogios foram à sua inteligência e não ao seu esforço e era enaltecido pela sua aparência sem valorizar a sua essência. No seu íntimo ele não era medroso, mas sentia medo. É natural. Da mesma forma, ele não era arrogante, prepotente ou soberbo, mas vivia um momento de agressividade que não valorizava o conhecimento e a sagacidade, prejudicando a sua capacidade  de raciocínio pelo medo de não ter coragem de não saber. Agora entendia que não precisava saber tudo, assim como não precisava agradar a todos. Porém, era importante ser humilde para respeitar o outro e reconhecer o medo sem ficar paralisado. Para isso é essencial a coragem, a confiança e a curiosidade para servir e se comunicar com os outros.

Depois do choro veio o alívio: ele teve a coragem de ter medo para não ter medo de ter coragem. E você?

Moacir Rauber

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SÁBIO OU SABOTADOR 2?

Sábio ou sabotador?

Conversava com um jovem de 20 anos sobre como estava a relação em casa, especialmente com o seu pai. Ele me disse:

– O pai é um chato. Ele sempre reclama de tudo!

Perguntei sobre quais eram as queixas de seu pai e o jovem disse:

– Ahh, de qualquer coisa. Diz que não limpo as coisas, que não apago as luzes e até quando deixo uma gaveta aberta. A bronca maior vem quando uso as ferramentas dele, “Guarda esse martelo, você sempre deixa tudo fora do lugar, seu desorganizado!”

– E isso é verdade?

O jovem admitiu que, muitas vezes, o pai tinha razão, porque ele saía do seu quarto e esquecia a luz ligada; ao passar pela cozinha, por vezes, deixava os armários abertos; e, igualmente, acontecia que arrumava algo em sua bicicleta e saía com ela antes de guardar as ferramentas, deixando sujo o lugar. Ao relembrar tais situações a sua expressão se suavizou um pouco e admitiu que tampouco era “sempre” que o pai reclamava. Em seguida, o jovem voltou a ficar sisudo, porque havia outras questões que o incomodavam.  Comentou sobre as discordâncias para sair de casa para festas, os horários de estudo e a rigidez para levantar, almoçar e jantar.

Ao falar com o pai sobre o filho, ficava evidente o amor e a admiração existente.Ele tinha a consciência de que seu filho era um bom rapaz e com bons valores, além de ser trabalhador e estudioso. Entretanto, ao falar do convívio diário a irritação apareceu em seus olhos. Ele disse que o filho “sempre deixava tudo sujo e tudo fora do lugar”, além de não respeitar os horários da casa. Ao ser indagado se era sempre, o pai se pôs a pensar e sabia que não era “sempre” que não guardava as ferramentas, assim como não era “sempre” que não apagava as luzes, que não limpava os lugares que sujava ou que não cumpria os horários da casa. Ao entender a diferença a irritação em seus olhos diminuiu.

O que se pode aprender com a situação desse pai e seu filho? Alguém de nós já experimentou algo semelhante, seja como pai ou como filho? E como situações semelhantes se manifestam na vida cotidiana?

No relacionamento entre pai e filho, ou em qualquer outro que surja um conflito, provavelmente uma (0) Pausa, a escolha de quem tem audomínio,contribuirá para poder (1) Observar e se ater aos fatos com a clareza de que uma interpretação acontece na mente. Com os fatos em mente, a violência interior diminui para então registrar quais os (2) Sentimentos surgem no coração  frente a situação em função de (3) Necessidades que não estão sendo atendidas. Até aqui estamos no ambiente interno de quem se defronta com a situação. A partir daí, o comportamento de cada um pode ser sábio, não-violento, ou sabotador, violento (Rosenberg, 2006, Chamine, 2012). É importante indagar: quais eram necessidades do pai e do filho ocultas nas suas reclamações? Existiam necessidades comuns?

Por último, vem (4) a expressão que pode ser feita com a sabedoria da não-violência ou com a agressividade dos sabotadores: quem vai se manifestar, o sábio ou o sabotador? Posso fazer a pausa e ainda assim entrar em conflito, entretanto, com a pausa, mais facilmente, posso evitar as palavras avaliativas que julgam, apontam e rotulam. O pai ao dizer que o filho “sempre deixa tudo fora do lugar, seu desorganizado” se manifesta a partir de uma interpretação da realidade que rotula o outro, ainda que dentre as últimas cinco vezes que ele tenha usado uma ferramenta as tenha guardado três vezes. É uma comunicação violenta e interpretativa que sabota a relação, desconetando as pessoas. O pai, igualmente, pode dizer:

– Quando vejo o martelo fora da caixa de ferramentas, fico frustrado porque necessito de ordem. Será possível que depois de usá-lo você o guarde novamente?

Assim, o pai fala de fatos, responsabiliza-se pelos sentimentos, aponta as necessidades e sugere uma estratégia.

Qual é a manifestação da sabedoria e da não-violência?

Moacir Rauber

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DIA DAS MULHERES

Para muitas mulheres a vida é simples e complexa! 

A vida é simples quando se deixa que ela flua com as situações sucedendo-se naturalmente. 

E como a vida, as mulheres sabem deixá-la fluir. Maria deixou fluir!

A vida também é complexa pelas alternativas que ela nos oferece. 

E como a vida, as mulheres sabem oferecê-las. Maria ofereceu seu Filho ao mundo!

Com amor, fé, confiança e respeito tudo é possível!

Aprendi isso com MARIA!

VOCÊ QUER UMA ALFACE?

Você quer uma alface?

Que o mundo passa por transformações brutais parece ser senso comum. Entretanto, creio que a essência humana na sua busca por bem-estar pessoal continua. Para alcançar tais objetivos as pessoas enveredam por diferentes caminhos, entre eles a busca pela riqueza material, o crescimento intelectual, os prazeres mundanos ou o bem-estar espiritual. Entendo que, por vezes, podem ser excludentes entre si. Outro dia presenciei uma cena que me desconcertou. Acompanhava um senhor oriundo do mundo intelectual caracterizado pela larga formação acadêmica, pelos muitos anos trabalhados em universidades, pelo doutorado e inúmeros estudos realizados no exterior e pela farta publicação científica na sua área de atuação. Encontramos uma senhora que havia colhido um pé de alface de sua horta. Ela ofereceu a alface ainda sem limpar a terra e as pequenas impurezas naturais de uma planta recém colhida àquele senhor. Ele olhou com interesse, porém logo respondeu:

– Não, não, obrigado. Prefiro pegar no mercado que já vem limpa…

Vi a expressão de decepção no rosto daquela senhora. Senti a frustração por uma resposta que me pareceu mal educada, além de pensar que a suposta intelectualidade dessa pessoa estava desconectada da realidade. De que serve o conhecimento se ele não se traduz em melhoria no ambiente que se vive? Particularmente, creio que se o conhecimento adquirido não melhora a pessoa como pessoa e não contribui para um mundo melhor, seria melhor que a pessoa não tivesse o conhecimento. E isso inclui saber que plantar e colher uma alface melhora o mundo, mais do que isso: serve ao mundo. As mudanças brutais a que estamos sujeitos tem a ver com a desconexão da intelectualidade e da tecnologia daquilo que é real. Toda a teoria que se aprofunda nas diferentes áreas da ciência, formais, naturais ou humanas, tem produzido tecnologias e mudanças comportamentais inimagináveis há poucas décadas, porém, se não melhorar o mundo não serve. Toda transformação e mudança deve servir ao mundo, senão não serve. E para servir o mundo acredito que deva estar conectado com a realidade ordinária das pessoas. Veja o caso da Inteligência Artificial, generativa ou não, ela não pode ser comida ou bebida e não atende estes  aspectos básicos e elementares para o bem-estar humano em qualquer região ou país. Portanto, toda a intelectualidade desconectada das necessidades humanas básicas deve ser questionada. Qual é o teu caminho para o bem-estar? É a riqueza material, é o crescimento intelectual, são os prazeres mundanos ou o bem-estar espiritual? Se o teu caminho para o bem-estar individual estiver desvinculado do bem-estar do outro e do planeta, ele não serve. Por isso, fiquei chocado com a resposta do intelectual que não viu toda a teoria existente na prática da produção de uma alface. E mais, creio ser importante voltar a saber de onde vem aquilo que consome e a entender que por detrás daquele produto tem teoria e tem prática, mas sobretudo tem um ser humano.

“Só os espíritos superficiais desligam a teoria da prática, não olhando a que a teoria não é senão uma teoria da prática, e a prática não é senão a prática de uma teoria” disse Fernando Pessoa. Desse modo, percebo que a teoria deve se aproximar da prática em que cada um de nós entenda o ciclo completo da vida que passa pela produção daquilo que é básico para o Ser Humano. Toda a teoria quando posta em prática deve servir ao mundo para diminuir a brutalidade das transformações. E os intelectuais? Que se reconectem com as suas necessidades básicas, entre elas o alimento, a água, o ar, a luz, o abrigo, o descanso, o silêncio, a tranquilidade e o amor. Por fim, como disse o Pe. Opeka “Frente a brutalidade das transformações que agitam toda a terra, não é possível ser feliz sozinho. Feliz somente se escreve no plural.”

Você é intelectual? Saber plantar e colher uma alface é um ato de amor no plural. É espiritual!

Moacir Rauber

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ESCUTAR NÃO É FÁCIL!

Escutar não é fácil…

Começar uma oficina sobre Inteligência Positiva e Comunicação Não-Violenta é um desafio sob vários aspectos, sendo um deles a baixa capacidade de escuta. Incluo-me.

No primeiro encontro, além da pausa como uma estratégia para reconhecer se estou no modo sábio ou sabotador, trabalhava a ideia de observar sem julgar aquilo que se vê ou se ouve. Exibia um vídeo com a tarefa de que cada um comentasse sobre aquilo que tinha visto ou ouvido e que poderia ter sido visto ou ouvido pelas outras pessoas que estivessem frente ao vídeo. O vídeo, entre outras partes, exibia uma mulher que estava diante de uma tela de computador e que ao escutar a voz de outra pessoa e o som de passos que indicavam que ela se aproximava, apagava a tela. Perguntei:

– O que vocês viram e ouviram? Descrevam de forma que todas as pessoas na sala também possam ter visto e ouvido.

Logo as pessoas começaram a falar:

– Eu vi uma mãe que estava vigiando seu filho na internet…

– Para mim era o marido que chegava e queria ver o que a esposa estava fazendo…

E assim seguiram os comentários. Perguntei:

– Quem viu uma mãe? Onde estava essa informação?

– Onde estava a informação de que o homem que entrava na cena era o marido?

E assim, muitas vezes, conduzimos as nossas vidas, vendo, ouvindo e interpretando sem conexão direta com os fatos. Vemos e ouvimos, inferimos e julgamos. Por isso é importante estimular a capacidade de escutar, para além de ouvir e ver. Entende-se que ver é a capacidade de perceber pela visão algo, alguma coisa ou alguém. Entretanto, nós rapidamente passamos a inferir a partir de deduções, para nós lógicas, que nos levam a uma conclusão. Em seguida, julgamos. Posso ouvir o mar e escutar a pessoa à minha frente, da mesma forma como posso ouvir a pessoa e escutar o mar. Portanto, a capacidade de ouvir tem a ver com a audição, embora quem ouve nem sempre escuta ou compreende aquilo que ouviu. A capacidade de escutar se refere a um ato consciente de prestar atenção, incluindo a compreensão daquilo que se ouve. Nesse contexto, escutar ultrapassa a audição no sentido de que se pode escutar sem ouvir; é possível escutar aquilo que se vê; assim como se pode escutar sem ver. Escutar é um movimento ativo de entender o que acontece sem julgar. Eis o desafio de mudar, porque somos muito rápidos em ver, ouvir e pensar, inferindo, concluindo e julgando.

Como no vídeo citado, a primeira vez que vi e ouvi os diálogos, logo fiz a dedução de que se tratava de uma esposa que estava sendo infiel ao marido. Não escutei nada. A partir da minha limitada visão e dos dados da audição, articulei as informações e fiz um julgamento. Isso é violento. Essa postura desconecta. Eis o ponto em que se introduz a importância de uma pausa para resgatar o sábio que está dentro de cada um. Os estímulos da visão e da audição, nesse caso, geram uma série de pensamentos. Entretanto, cabe a cada pessoa olhar para dentro e se escutar, pois isso possibilita que cada um traga a sua humanidade à tona. Com isso, posso resgatar o meu sábio do poder dos sabotadores, que sempre estão prontos para apontar um culpado, seja a situação, o outro ou a si mesmo. A realidade não é tão linear, ainda que, em matemática, dois mais dois continuem sendo quatro.

Por fim, antes de deduzir, concluir, julgar e condenar faça uma pausa e escute. O que estou vendo e ouvindo poderia ser visto e ouvido por outra pessoa? Se sim, é fato. Se não, é interpretação e julgamento. Acredita-se que a abertura para escutar no sentido mais profundo da palavra pode diminuir a violência.

Se não seguimos como pessoas que:

Veem, mas não enxergam;

Caminham, mas não se movem;

Tocam, mas não sentem;

Abraçam, mas não acolhem;

Ouvem, mas não escutam.

É bíblico!

Moacir Rauber

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QUAL É A TUA EXPECTATIVA? E O TEU COMPROMISSO?

Qual é a tua expectativa? E o teu compromisso?

Ao iniciar uma nova turma na universidade ou uma oficina numa empresa ou na comunidade, quase sempre começo com o pedido, Faça uma apresentação pessoal em um minuto e diga a tua expectativa com relação ao evento numa palavra? É um pedido, não é uma exigência. Praticamente todos atendem e, além de suas histórias pessoais, surgem muitas palavras, entre elas dinâmica, aprendizagem, técnicas, amor, afeto, presença, acolhimento, conhecimento, sabedoria, entre outras. As palavras são interessantes, mas são apenas palavras. Na sequência, avanço para um segundo pedido:

– Qual é o teu compromisso com a tua expectativa?

Geralmente, as pessoas começam um processo de reflexão mais profundo. E isso tem razão de ser, porque enquanto a palavra expectativa nos leva para fora, a palavra compromisso nos traz para dentro.

Com origem latina na palavra “ex(s)pectativus”, “expectativa” se refere a alguém que espera algo a partir de uma realidade externa. Além disso, tem como sinônimos o aguardo, a expectação, a promessa entre outras palavras que nos colocam num papel passivo frente a uma situação. Qual é a nossa expectativa no ambiente familiar, social e profissional? Muitas vezes, nas relações de amizade e de amor eu espero que o outro me faça feliz. Nas relações sociais eu aguardo que a sociedade seja mais justa. No âmbito profissional tenho a expectativa de que me reconheçam com ações e remuneração. Inclusive, muitas pessoas esperam emagrecer no ano que começa depois do carnaval.

Ao avançar para a segunda pergunta, qual o compromisso de cada um com a própria expectativa?, as reações mudam e as pessoas exibem feições mais graves e introspectivas. Por quê? Porque ao serem confrontadas com o compromisso que cada pessoa assume sobre as escolhas que faz se trata de um caminho interno e que está no seu controle. O que é compromisso? Sua etimologia nos com a palavra latina compromissum que está ligada ao comprometer. Os sinônimos podem nos conduzir a um acordo, contrato ou combinação, inclusive com o outro. Entretanto, a pergunta é pessoal e esse acordo deve ser feito consigo mesmo, associando-se à ideia de comprometimento, engajamento e promessa. Portanto, a pergunta se volta para dentro de cada um em que a escolha é individual. Qual é o teu compromisso com a tua relação pessoal? Espero felicidade, mas eu faço o outro feliz? Qual é o teu engajamento com a realidade social? Aguardo uma sociedade justa, mas eu sou justo? Qual é a promessa que você se fez no ambiente profissional? A expectativa é por reconhecimento, o que faço para merecê-lo? Enfim, comprometer-se com as ações ao próprio alcance para realizar as expectativas é assumir o controle da vida. É necessário sair do sentido das palavras e colocá-las em ação.

Enfim, considero que a expectativa com relação ao outro está na raiz de muitas frustrações, gerando violência e sequestrando o sábio de cada um.  Na expectativa dou ao outro o poder de determinar o meu estado de ânimo, no compromisso assumo o controle. Portanto, ao perguntar sobre qual o compromisso que cada um assume com a oficina, o foco sai do outro e vai para si mesmo. Por isso, ao sair da expectativa para o compromisso as palavras deixam de ser somente palavras, elas exigem ação. Eu deixo de esperar a dinâmica do facilitador e passo a exibir atitudes dinâmicas; saio da passividade de que o outro me ensine e me abro para a aprendizagem; não aguardo que uma técnica mude o meu comportamento, mas mudo o meu comportamento incorporando uma técnica; não fico na expectativa de que o outro exiba amor, porque serei amoroso com o outro; entendo que posso afetar o outro com o afeto das minhas ações; comprometo-me com a minha presença e não relego ao outro o acolhimento, porque acolho-o. Enfim, abro-me para a sabedoria e o conhecimento do outro, comprometendo-me ao alinhar as minhas intenções com as minhas ações.

A espiritualidade é o caminho, porque “Deus está no mais profundo de cada um” (Eckhart Tolle).

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A CURIOSIDADE, A CORAGEM E A CONFIANÇA NO COTIDIANO!

A Curiosidade, a Coragem e a Confiança no cotidiano

A curiosidade, coragem e confiança são apenas palavras. Cada uma delas traz diferentes significados, os mais variados sentidos e é acompanhada com uma infinidade de sinônimos. Além disso, as palavras são encontradas em ditados, como “a curiosidade matou o gato”, “a coragem é a qualidade humana que garante todas as outras” e “a confiança nasce do conhecimento” são alguns exemplos. O que as palavras têm a ver com o nosso dia a dia?

Considera-se a curiosidade como o impulso que nos leva a inovar, para criar algo novo, solucionar um problema antigo ou atender uma nova demanda. A curiosidade nos leva a perguntar: existe uma maneira nova, diferente e mais eficiente de fazer isso? Essa curiosidade é o impulso da inovação para reinventar a forma como se prestam serviços, na maneira como se concebem produtos e no jeito que se resolvem os problemas. A curiosidade como palavra tem origem no latim curiositas, curiosus e cura, assim se conecta com o desejo de conhecer, com a capacidade de ser diligente e com o cuidado que cura. A palavra ainda se relaciona fortemente com a aprendizagem a partir da experimentação e mantém viva em nós nossa criança interior. Desse modo, as pessoas que preservam a curiosidade estão constantemente dispostas a questionar os padrões estabelecidos para descobrir, criar ou simplesmente modificar algo para fazê-lo de maneira melhor. A curiosidade traz a emoção para as nossas vidas, porém se não vir acompanhada da coragem e da confiança pode matar o gato. Para quê ser curioso?

Avancemos para a coragem que, no ditado de Churchill, é a qualidade que nos garante todas as outras. Concorda-se, porque é essencial ter coragem para ser curioso, assim como é indispensável ser corajoso para confiar. Portanto, é importante conhecer a palavra coragem para poder desenvolver as qualidades que ela nos indica. Coragem, igualmente, tem sua origem no latim “Coraticum que deriva de cordis, coração. Eis o ponto que a coragem assume extrema importância, uma vez que o coração, historicamente, foi considerado a casa da coragem e da inteligência, além de ser a morada dos sentimentos. A coragem vem do coração que revela nossa força interior, que, para Sócrates, passa pelo discernimento de não fugir frente ao primeiro desafio e tampouco avançar com loucura. Assim, ser corajoso demanda atitudes como “a coragem de ser imperfeito (Brené Brown)”; a coragem de ter medo para não ter medo de ter coragem; a coragem de perseverar e persistir; a coragem de falar “sim” ou “não”; a coragem de desistir; e a coragem de inovar. Portanto, a coragem é uma virtude que não se desenvolve sozinha, ela precisa vir acompanhada da curiosidade e da confiança. Você tem coragem?

A confiança é a base para a curiosidade e para a coragem, porque ela significa acreditar totalmente com a firmeza da fé naquilo que se crê. Igualmente tem origem latina na palavra “Fidere”, sinônimo de fé. Desse modo, confiança é uma qualidade derivada do substantivo feminino que significa lealdade, competência ou crença de que cada um vai cumprir com a sua função. Outra vez, é ter fé em si, no outro e a esperança de que se possa criar algo melhor: Inovar. Entretanto, para sairmos do substantivo e irmos para a ação, precisa-se do verbo: confiar. Entende-se que a cultura da inovação exige a confiança, substantivo, alinhado com o confiar, verbo, para construir as sinergias que resultem em parcerias cocriativas. Como diz o ditado de senso comum “a confiança nasce do conhecimento” que termina por gerar inovação que se alimenta na reciprocidade das relações com as pessoas. No nosso dia a dia o desafio é colocar as palavras em ação.

Portanto, a confiança, a coragem e a curiosidade são palavras que sem ação seguem sendo somente palavras. No nosso cotidiano a Curiosidade deve ser o impulso, a Coragem deve ser o motore que a Confiança seja a conexão para criar um mundo melhor com INOVAÇÃO. O resultado? Um mundo melhor com inovações ambientalmente corretas, socialmente responsáveis e economicamente viáveis para transformar as organizações e a sociedade.

Moacir Rauber

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