Maldita tempestade!!! COMO?

Fonte da imagem: https://www.radiocampanario.com/

Maldita tempestade! Como?

A festa de casamento ao ar livre estava preparada. Os detalhes, como as flores, as mesas e os arranjos, foram pensados para que tudo estivesse perfeito. O risco de que o clima não colaborasse existia, mas eles haviam escolhido o período do ano em que as chuvas eram uma raridade. Como previsto, amanheceu ensolarado e nada indicava que algo mudaria durante o dia. Todos estavam presentes para a solenidade. O noivo e a noiva estavam nervosos e os convidados contentes. O escrivão começou em meio ao som de uma música romântica tocada por uma orquestra. Algumas poucas nuvens cobriam o sol, mas nada para se preocupar. Vídeos e fotos foram exibidos resgatando a história de amor que eles assumiam com o casamento. A felicidade estava presente, assim como uma brisa que soprava mais forte. A cerimônia se encaminha para o final. A brisa se transforma em vento. O celebrante começa a leitura da parte em que pede o “sim” dos noivos. As nuvens que antes eram poucas cobrem o sol por completo. O vento aumenta ainda mais a sua intensidade fazendo com que os convidados se sintam desconfortáveis. A chuva começa. O vento vira ventania. As mesas, as cadeiras, os arranjos e as flores voam para todos os lados. Pode-se ver um músico correndo atrás das partituras, enquanto as pessoas buscam abrigo. Os noivos se desesperam e correm para se proteger. Molhados, desarrumados e, visivelmente, irritados se protegem embaixo de uma cobertura de onde podem ver a tempestade destruir o sonho da festa perfeita. “De onde surgiu essa tempestade?” O noivo ainda não conseguia entender. Com raiva grita:

– Maldita tempestade!

Uma torrente de emoções negativas havia invadido o peito angustiado do noivo que continuava a esbravejar contra a tempestade. E a tempestade, qual era a sua preocupação? Quais eram as suas emoções? Não havia nem preocupação nem emoção, porque a tempestade é o que é, assim como a realidade do mundo que não entendemos e não controlamos. A tempestade ou o clima não tem intenção. O mundo não tem desejo. Em momentos assim, muitas vezes, surgem emoções negativas que alimentamos por pensamentos ainda mais negativos que geram sentimentos ruins. A pessoa perde o foco pretendendo atuar sobre aquilo que não está em seu controle. O diretor pensa que o problema está na equipe. O subordinado acredita que o problema é o chefe. O marido crê que o problema é a esposa e vice-versa. E muitos concluem que o mundo é um problema. Entendo que haja problemas no mundo, mas o mundo não é o problema. Ele simplesmente é. Se há emoções e sentimentos negativos eles não estão com a tempestade, com o clima, com a realidade ou com o mundo. Eles estão com você! Cabe a cada um desenvolver inteligência emocional para usar o seu autoconhecimento e autocontrole para exercer a liberdade de ação e resolver aquilo que está no seu controle.

Enfim, para os noivos, o que estaria em seu controle fazer? Maldizer a chuva, o vento, a tempestade ou a realidade? Não. Os sentimentos negativos são seus e não da realidade ou da tempestade. O que fazer? Os noivos podem chacoalhar as gotas de chuva, escolher os sentimentos e concluir aquilo que começaram. Podem até cortar o bolo e ser felizes para sempre. Isso está no seu controle!

Moacir Rauber

Blog: www.facetas.com.br

E-mail: [email protected]

Home: www.olhemaisumavez.com.br

Inspirado: Anthony de Mello, S. J.

A meditação da morte…

…para ser um líder da vida!!!

A meditação da morte

O curso sobre liderança, que abordaria a resiliência, a compaixão e a bondade, iniciaria com uma meditação antes do café. O guia começou o processo e pediu para que todos se sentassem com a coluna ereta numa posição cômoda, mantendo os olhos fechados. Orientou para que respirássemos profunda e pausadamente e acompanhássemos o ritmo da respiração, observando os movimentos do corpo e da mente. Tudo ia muito bem, até que ele disse:

– Agora imagine que você está morto. Tudo em sua vida para. O seu corpo para. Você não respira, não enxerga, não ouve e não sente. Você para…

Silêncio mortal. A fala tranquila do condutor da meditação não impediu que me invadisse uma sensação desconfortável. Morto?, pensei. Mantive meus olhos fechados para não deixar me levar pelas distrações da reflexão. Ao mesmo tempo, parecia que podia sentir a energia do desconforto também nos demais. O condutor seguiu nos guiando para que cada um imaginasse o próprio corpo se decompondo num processo lento e irreversível. Senti náuseas, porém, ele prosseguiu até que chegássemos ao pó. “Do pó viemos e ao pó voltaremos…”, lembrou-nos. Tranquilizei-me um pouco, embora ainda estivesse impactado com o exercício. Depois do silêncio, ele nos conduziu de volta a vida fazendo o processo inverso. Do pó à vida. Ao abrir os olhos, observei meus colegas e tive a impressão de que estavam um pouco desnorteados, assim como eu. Em silêncio fomos para o restaurante tomar o café da manhã. As conversas começaram e as opiniões sobre a meditação também. Para um era estranha, para outro era invasiva e para um terceiro era horrível. Outros riam e se divertiam. O café terminou e fomos para a sala de aula.

O facilitador do programa era quem guiou a meditação, deixando agora que cada um se expressasse sobre o processo feito. Em seguida ele abordou o objetivo por detrás da proposta, levando-nos a ver como são pequenas e fantasiosas as nossas ansiedades, desassossegos, temores e sofrimentos que nos inquietam. Não se trata de negar a existência de problemas, de dilemas e de decisões que nos cabem tomar. Trata-se de mudar a perspectiva e vê-los a partir da finitude da vida. Qual é a relevância daquilo que me inquieta? Caso mantenha a relevância num horizonte que sobrepassa a própria existência, fala-se de legado e é importante. Caso permaneça relevante num espaço de tempo mediano, fala-se de resultados e deve ser considerado. Caso o significado da sua preocupação não seja importante num curto espaço de tempo, provavelmente, não tem relevância. E concluiu que a inquietude das pessoas tem origem, em grande parte do tempo, em problemas sem importância. Por isso, é essencial se indagar: o que representam as minhas inquietudes no confronto com a realidade de uma vida que termina? Assim, ao abraçar a finitude da vida sem medo, encontra-se o alívio de poder viver a vida em plenitude. O líder que tem a consciência da própria finitude desenvolve a resiliência, age compassivamente e exibe a bondade com a responsabilidade de quem sabe que o beijo da morte é o sopro da vida.

Ao encerrar o seu raciocínio tive que concordar com a Meditação sobre a Morte, porque me senti mais vivo do que nunca. Todos temos a informação de que a vida vai terminar, porém não vivemos com essa consciência. Usar essa informação para transformá-la em consciência é que fará com que se viva plenamente. Ao viver com a consciência da finitude da vida você será um profissional mais competente, mais produtivo e resiliente. Você será um Ser Humano mais compassivo e bondoso. Enfim, você será um líder da vida a partir da consciência da morte!

Moacir Rauber

Blog: www.facetas.com.br

E-mail: [email protected]

Home: www.olhemaisumavez.com.br

Inspirado: Anthony de Mello, S. J.

Não arruma o quarto…

Fonte: https://www.totalconstrucao.com.br/como-arrumar-o-quarto/

Não arruma o quarto…

A presença nas redes sociais é ativa e dedicada, com postagens sobre a importância da reciclagem do lixo, curtidas em matérias e a publicação de vídeos de divulgação da causa. É preciso construir um mundo melhor. Eu tenho que fazer a minha parte… pensava o adolescente de dezoito anos (adulto???) que sonhava ser prefeito da cidade. O horário passava e a madrugada chegava. Na manhã seguinte a mãe se levanta, prepara o café e nada do filho sair do quarto. Ela bate na porta para acordá-lo. Ele sai todo desarrumado, com cara de sono e reclama com a mãe. Come algo rápido, deixa as louças e o lixo na mesa e vai para a escola. A mãe precisa sair para o trabalho, mas antes lava a louça e separa o lixo. Abre a porta do quarto do filho e se depara com roupas pelo chão, latas de bebidas e restos de comida na cama. A mãe se revolta, mas não tem forças para confrontar a situação. Entretanto, pensa, “Como quer fazer manifestação, ser prefeito se não arruma nem o próprio quarto?”. O pensamento da mãe revela uma triste realidade: muitas vezes, somos comandados por pessoas que não arrumam o próprio quarto.

Entendo que cada pessoa é a menor unidade de qualquer sistema social, seja ele familiar ou organizacional. Cada ser humano é um sistema completo, complexo e interdependente com outras pessoas em diferentes sistemas sociais. Entenda-se sistema completo como integral e pleno; sistema complexo como múltiplo e profundo; e sistema interdependente como solidário e dependente. Perceber e viver esse conceito é que faz com que cada um possa ser responsável pela sua própria área de influência. Pessoas que não arrumam seu próprio quarto não tem visão sistêmica e vivem mais fortemente a dependência, sem serem solidários; perdem a complexidade na falta de profundidade que diminui a multiplicidade; e deixam de ser completos porque não são plenos nem integrais. Entretanto, ao olhar para nossos líderes se pode constatar que muitos deles nunca arrumaram os seus próprios quartos. São eles vereadores, prefeitos, deputados, governadores, senadores, juízes, diretores e até presidentes que se propõem a arrumar uma cidade, um estado, uma empresa ou um país. Muitas vezes, são essas pessoas que galgam mais rapidamente a hierarquia organizacional sem terem desenvolvido uma visão sistêmica. Como essas pessoas poderão administrar, legislar e julgar para todos sem entender a ideia de interdependência entre todos? No setor público é mais difícil expurgar essas pessoas, porque se fundem e se agarram na dependência como parasitas. Infelizmente, em grande parte, é assim. Nas organizações privadas cabe aos profissionais internalizarem a visão sistêmica, porque sem ela eles serão eliminados do mercado. Um bom profissional, além de entender o sentido daquilo que faz permanecerá no mercado enquanto aquilo que faz for importante para quem o faz.

Com relação ao adolescente de 18 anos (???) do diálogo inicial, a torcida é para que ele possa entender e viver o conceito de ser um sistema completo, complexo e interdependente e comece a arrumar o seu quarto. Caso não internalize esse conceito, que ele não se eleja para nenhuma função e que não seja admitido em nenhum concurso público. Com isso, ele terá que ir para o setor privado onde vai aprender a importância de um sistema completo, complexo e interdependente sob pena de ser excluído. Para ser um bom líder, um bom profissional e uma boa pessoa é essencial ter uma visão sistêmica. Para aquele que não aprender o conceito, que Alguém ajude a sua mãe.

Moacir Rauber

Blog: www.facetas.com.br

E-mail: [email protected]

Home: www.olhemaisumavez.com.br

O que fazer com as “podas” da vida?

O que fazer com as “podas” da vida?

A aluna estava triste, indignada. O trabalho de conclusão de curso entregue ao professor orientador havia voltado com vários apontamentos, sugestões e correções. Ela não acreditava que ainda teria tanto trabalho para concluir a tão sonhada universidade. Ao chegar ao final do arquivo não pode deixar de esbravejar:

– Que droga!!! Que sacanagem!!!

Parecia que sempre que ela se aproximava do objetivo ele se afastava. Sentia como se as pessoas e as situações a estivessem podando, impedindo de que ela atingisse todo o seu potencial. Até pode ser verdade a sensação de ser podado pelos obstáculos da vida, entretanto, deveríamos conhecer os benefícios da poda antes de reclamar dela.

A poda nas árvores é uma técnica que acompanha o desenvolvimento da humanidade. Os mais antigos agricultores se aperceberam que as plantas que tinham os seus galhos cortados ou comidos cresciam com mais vigor. Isso os levou a observar o fenômeno e a aprender com ele. Assim, de eventos fortuitos e sem controle a poda passou a ser uma técnica utilizada para desbastar as plantas, retirando delas os galhos inúteis. A analogia também pode ser usada pelas pessoas na sua relação com os aparentes reveses da vida. Particularmente, inúmeras vezes tive a sensação de que os outros, a vida e até Deus estavam me podando. Amigos me disseram verdades que eu precisava ouvir. Parecia ofensivo, mas era uma poda necessária. Outras vezes, parecia que a vida me tirava algumas oportunidades que acreditava serem minhas. Porém, ao não alcançar as oportunidades por mim esperadas, a poda me levava a desfrutar de momentos incríveis, principalmente, por serem inesperados. Por fim, muitas vezes acreditei que até Deus estava contra mim quando me podou em diferentes ocasiões. Entretanto, ao observar com mais cuidado, essas podas representaram novas chances. As podas dos conselhos e críticas fizeram com que eu abrisse a mente. As podas de perder oportunidades permitiram que me desenvolvesse mais. As podas de Deus proporcionaram que eu canalizasse a energia para aquilo que era o mais importante: a vida.

Por fim, a aluna que se irritava com os apontamentos, as sugestões e as correções em seu trabalho de conclusão de curso, com o tempo poderá perceber o tamanho da contribuição da poda do professor. A poda para as plantas, normalmente, é realizada com a intenção de prevenir doenças e de aumentar a eficiência dos nutrientes captados do solo para melhorar a produtividade e a qualidade da produção. A intenção está somente com quem realiza a poda e a planta reage de acordo com a sua natureza. Por outro lado, ao entendermos os reveses da vida como podas é essencial saber que a intenção daquele que faz as críticas, as sugestões e as correções existem, mas o que realmente importa é o que você fará com elas. Os apontamentos serviam para que ela soubesse para onde direcionar a pesquisa. As sugestões para acrescentar ou suprimir algo. E as correções para eliminar elementos que contagiavam a pesquisa. Para a aluna seria importante observar o fenômeno e aprender com ele. Portanto, caberia a ela digerir a sua irritação para saber aproveitar a poda e canalizar para os seus objetivos.

O que fazer com as “podas” da vida? Cada um vai seguir a sua natureza…

“Todo ramo que, estando em mim, não dá fruto, ele corta; e todo que dá fruto ele poda, para que dê mais fruto ainda.”

João 15:2

Ator de si mesmo!

Ator de si mesmo!

O rapaz entra em casa e começa a praguejar contra tudo e contra todos. A senha do cartão havia sido recusada por três vezes o que fez que ele fosse bloqueado. Em alto e mau tom dizia:

– É uma m… Sistema mais burro. Não consegue identificar a gente. Daqui a pouco terei que fazer como os velhinhos e anotar tudo.

Seguiram os impropérios proferidos contra os demais, quando na realidade havia somente um único responsável por ter esquecido a senha do cartão: ele mesmo. A raiva e a revolta demonstradas eram, mais uma vez, uma atuação, porque enquanto proferia os palavrões a câmera do celular registrava tudo no vídeo de si mesmo. As pessoas têm cada vez mais atuado do que vivido. Preferem contar a sua vida ao invés de vivê-la. Outros, preferem simplesmente assistir a encenação da vida dos demais. As representações feitas nos vídeos e nas edições dos momentos escolhidos para gravar e compartilhar, quase sempre, não são verdadeiras. São atores de si mesmo que se acreditam especiais. Entretanto, no seu íntimo sabem que isso pode não ser verdade, o que leva a que muitos sucumbam frente a síndrome do impostor. A síndrome do impostor representa um tipo de comportamento em que a pessoa duvida de suas capacidades, gerando a sensação de que será exposto revelando ser ele uma fraude em relação ao que se propõe fazer como especialista. E isso atinge pessoas que cumprem com um trabalho real. Assim, frequentemente, profissionais de todas as áreas são acometidos pela síndrome, levando a muitos que se afastem do trabalho até que consigam recuperar sua autoconfiança. E o que dizer de tantas pessoas que somente representam a si mesmos? Entendo que todas as pessoas são únicas, singulares, múltiplas e plurais. E especiais? Depende. Você pode ser um atleta, um artista ou um profissional especial, mas para isso precisará de dedicação, empenho e esforço. Terá que sair da zona comum de que todos somos únicos, singulares, múltiplos e plurais e desenvolver alguma capacidade a um nível muito acima da média. Ser um “virtuose”, que é alguém que exibe uma habilidade de execução técnica ou de conhecimento num grau muito alto. Para ser especial em algo há que ser excelente, exímio, notável, perfeito, virtuoso. Representar a si mesmo o torna especial? Não creio. Parece-me que cedo ou tarde a síndrome do impostor vai alcançar essas pessoas. Por quê? Porque as emoções que exibem na câmera não são reais. Os fatos que apresentam, muitas vezes, são manipulados. A alegria que expressam é exagerada. A tristeza que demonstram é artificial. Na verdade, são impostores. Se alguém que cumpre um papel real pode ser atingido pela síndrome do impostor, imagine o que acontecerá com quem sabe que é um impostor. O que fazer? Creio que, talvez, o primeiro passo seja olhar para dentro de si com sinceridade para se reconhecer como único, singular, múltiplo e plural para em seguida identificar uma habilidade que é somente sua e com esforço, dedicação e empenho desenvolvê-la a um patamar acima da média. No final, se você for autêntico será especial!

Voltando aos atores de si mesmo, parece-me um desafio enorme poder se ver como um ser humano único, singular, múltiplo e plural para reconhecer que do outro lado da câmera está um ser igual. Para ser especial é essencial ser autêntico para pelo menos reconhecer que é sua a responsabilidade de saber a senha do cartão. Com isso, talvez deixe de representar para poder ser quem realmente é. Se for bom estar com quem você é, você é especial, porque no final do dia você vai dormir consigo mesmo e não com o ator de si mesmo.

Moacir Rauber

Skype: mjrauber

Blog: www.facetas.com.br

E-mail: [email protected]

Seja amável!

Seja amável!

O dia não havia sido nada daquilo que o meu amigo tinha pensado. Parecia que todas as decisões tomadas produziam resultado contrário ao esperado. A sua cabeça começava a latejar, porque ele não sabia o que diria em casa com tudo que lhe havia acontecido de errado. Pensava:

– Que droga! Como você pode ser tão burro? Idiota! Besta! Você faz tudo errado!

O diálogo interno do meu amigo expressava uma violência que já se tornara habitual em sua vida. Frente a diferentes situações as primeiras e mais duras críticas eram dirigidas para ele mesmo. Estou seguro de que ele dificilmente diria para um estranho palavras tão agressivas quanto aquelas que ele dizia para si. Porém, a violência verbal que ele trazia dentro de si em algum momento seria extravasada. Muito provavelmente, isso aconteceria com alguém próximo, como os familiares. E no momento em que ele contava a sua interpretação da história, ele verbalizava uma série de agressões contra si mesmo. Não havia afeto nessa comunicação, mas a comunicação o afetava gerando dor e sofrimento. Assim, antes da violência externa, ela ocorria no ambiente interno por meio da comunicação que afeta cada um de nós que nutre uma comunicação violenta. Ao escutar o meu amigo descrever o seu diálogo interno pude me identificar, porque as minhas confabulações não eram muito diferentes. Elas, muitas vezes, igualmente eram violentas. Às vezes, contra mim, outras vezes, contra os outros. A violência contra mim ficava explícita quando assumia culpas que não existiam, como taxar-me de burro ou de incompetente. Ela igualmente se manifestava quando não me responsabilizava pelo que era responsabilidade minha, como ao não exibir a coragem de fazer algo que estava ao meu alcance fazer. A culpa não ajuda, porque paralisa, e não assumir responsabilidade impede de avançar, porque afasta as possibilidades. Enfim, a violência pode começar na comunicação íntima, nos diálogos internos de cada um. O que você diz para você sobre você? Você o diz com cuidado como quando conversa com um amigo que respeita? Há afeto, emoção positiva, na sua comunicação consigo mesmo?

A saída é para dentro! Pode parecer clichê, entretanto, é uma verdade. Comento que o meu amigo do diálogo inicial chegou em casa transtornado com a sua realidade externa. A esposa, como de costume, perguntou como havia sido o seu dia e ele, alimentado pela violenta comunicação interna, extravasou. Insultou a esposa, ofendeu os filhos e quebrou alguns objetos da casa. Era a violência que carregava dentro de si que encontrava um lugar para eclodir. Por isso, sem autocuidado e sem se respeitar se torna difícil amar os próximos mais próximos. Jogamos sobre eles as nossas frustrações, os nossos medos e os nossos entendimentos de fracassos. Naquele dia, quase que o casamento e a família do meu amigo se dissolveram. Entretanto, ele soube se recuperar. Pediu desculpas. Redimiu-se com ações. Reeducou-se internamente. Desenvolveu competências socioemocionais que estavam adormecidas para que, finalmente, a sua essência, o AFETO, pudesse se sobressair. Ele passou a comunicar-se internamente com cuidado, carinho e respeito para que quando se comunicasse com os outros revelasse quem ele era sem medo. O meu amigo passou a AFETAR O MUNDO COM AFETO.

Moacir Rauber

Skype: mjrauber

Blog: www.facetas.com.br

E-mail: [email protected]

Você é um gênio?

Você é um gênio?

O rapaz era um gênio na sua área, mas era também genioso com os colegas. Para ele pouco importava se a pessoa com quem falava era da sua de outra equipe ou mesmo alguém hierarquicamente superior, ele sempre tinha algo a dizer. Quando a questão se voltava para a área técnica de sua atuação, quase sempre, tinha razão. Mas nem tudo é tecnologia, mesmo numa organização que trabalha com tecnologia. Assim, o seu comportamento trazia prejuízos relacionais, por vezes, maiores do que os benefícios obtidos com a sua grande capacidade técnica. Na área de gestão de pessoas o comportamento do jovem gênio era analisado. Após várias tentativas do responsável dos recursos humanos de conversar com o “gênio” sobre o seu comportamento, o assunto chegou à direção. O diretor o chamou para conversar. A autoconfiança do jovem era tamanha que acreditava que seria mais uma vez promovido. Chegando na sala do diretor, imediatamente se acomodou confortável e confiantemente em uma poltrona. A conversa começou e o diretor, um pouco constrangido, disse:

– Você realmente é um gênio naquilo que faz…

O rapaz estufou o peito e rapidamente respondeu:

– Muito obrigado!

A resposta não expressava gratidão pelo elogio, mas a segurança de quem simplesmente recebia aquilo que merecia. Era o mínimo… devia ter pensado o jovem. O diretor, que não esperava que ele dissesse algo naquela curta pausa, emendou:

– … mas você está demitido.

Ser um gênio somente não basta. O conhecimento técnico por trás de cada uma das funções ou cargos que o “gênio” irá desempenhar é o mínimo dele exigido. Não há espaço para não exibir as competências específicas mínimas para cada tipo de trabalho. Desse modo, as grandes corporações têm acompanhado o desenvolvimento e contratado as melhores cabeças reveladas em universidades ou pelo próprio mercado para compor as suas equipes. Equipes, eis a questão. Porém, muitos dos gênios que se destacam nas universidades não têm a mínima noção daquilo que significa trabalhar em equipe. Não desenvolveram as competências socioemocionais que poderiam validar as suas competências técnicas. Não foram instruídos e nem capacitados para entender as pessoas. Por isso, nem sempre se consegue fazer uma equipe de um amontoado de gênios para render aquilo que deveriam render. Muitas vezes, ainda que os melhores talentos técnicos estejam reunidos, não se consegue fazer com que o resultado da equipe seja maior do que a soma das partes. Eis o grande desafio.

Você é um gênio na sua área técnica? Parabéns! O desafio agora é entender de pessoas para que cada um a sua volta possa exibir o seu potencial na totalidade, transformando-o em talento a serviço da sua equipe. Além de ser produtivo, deve ser bom trabalhar e estar com que você é e, com isso, mostrar que o resultado da sua equipe é maior do que a soma dos indivíduos que a compõe nas suas distintas partes. Caso contrário, você até pode ser um gênio, mas não terá ninguém que queira trabalhar com você. Lembre-se de que sem os outros não há equipe, não há organização e não há necessidade nem de gênio nem de genialidade.

Moacir Rauber

Skype: mjrauber

Blog: www.facetas.com.br

E-mail: [email protected]

Voar ou caminhar: o que é melhor?

Voar ou caminhar: o que é melhor? 

A metáfora do ovo de águia que foi chocado por uma galinha e assim nasceu, viveu e morreu foi muito utilizada em treinamentos corporativos. O pano de fundo da reflexão explora o não descobrimento, o não desenvolvimento e o não aproveitamento das reais capacidades de se voar alto. No final da metáfora, descreve-se a cena da águia que ciscava e cacarejava como galinha, admirando a águia que voava majestosamente pelos céus. Ela não havia tomado consciência de quem era e quais seriam as suas naturais habilidades. Na analogia com as pessoas, estimula-se a que elas possam sonhar e acreditar nas suas potencialidades, para com isso fazer mais alcançando a plenitude de suas vidas.

Por outro lado, imaginemos a metáfora invertida. Um ovo de galinha, acidentalmente, vai parar num ninho de águia. A águia cuida dos ovos até que eles descasquem. Os filhotes de águia nascem e entre eles um pintinho. Parece-lhes estranho, entretanto, a águia mãe e os seus  filhotes tratam o pintinho de modo igual. As penas crescem e os filhotes de águia se agitam com a proximidade de alçar seu primeiro voo. O pintinho, que se acredita águia, repete os mesmos movimentos. Ele está no alto das montanhas no ninho das águias. Às vezes, quando olha daquela altura e não vê nada lhe parece estranho, mas se é assim para ele também o é para os seus irmãos. É chegado o dia para que os filhotes de águia deem o seu primeiro voo. A mãe zelosa incentiva um a um a que se lancem no abismo com a certeza de que irão voar. Ela olha para o pintinho e, instintivamente, o deixa por último. Não consegue identificar, mas há algo diferente nele. O primeiro filhote se lança no abismo. Cai e continua caindo. Parece que vai se chocar contra as paredes do precipício. No limite para não se estatelar contra as pedras o milagre da natureza se manifesta em sua plenitude. O filhote começa a bater as asas, um pouco desajeitadamente no início, até que alça o seu primeiro voo como águia que é. O segundo filhote repete o feito. Por fim, é chegada a vez do pintinho. Todos o incentivam. A sua própria autoconfiança o estimula, porque afinal ele é uma águia assim como a sua mãe e os seus irmãos. Ele está na borda do precipício. Estica as suas asas num movimento de aquecimento, assim como o fizeram seus irmãos. O pintinho tem a impressão de que as suas asas são mais curtas, mas agora não é hora para dúvidas. A mãe, com certo temor, o incentiva. Os irmãos, na maior empolgação, o encorajam. E o pintinho, sem saber da sua real natureza, se lança. Lá vai ele até o limite e começa a bater suas asas… O final não precisa ser contado. A mãe se lamenta. Os irmãos se entristecem. E a vida segue sem o pintinho que acreditava ser águia.

Não se trata de desestimular a que as pessoas não queiram voar. A questão vai um pouco além da analogia de que todos tenham que sonhar alto. Acredito que o foco deva ser naquilo que cada um queira fazer e ser dentro da sua natureza. A pretensão é desmistificar o tamanho dos sonhos e valorizar aquilo que é importante para cada um. Quem disse que voar é mais importante que caminhar? Por que caminhar seria melhor do que nadar, por exemplo? Isso tudo depende da sua natureza. Depende: quem é você? O que você quer? Qual é a sua personalidade? Depois escolha fazer aquilo que você quer fazer. Voar, caminhar ou nadar não importa. As analogias são interessantes para destacar competências e as possibilidades, mas cabe a cada um ter a consciência de que somos humanos. Dessa forma, é fundamental você fazer as escolhas alinhadas com a sua natureza, porque a felicidade está conectada com ela. Evoluir sem desrespeitar a sua natureza é um desafio individual. Nem melhor nem pior.

Moacir Rauber

Blog: www.facetas.com.br

E-mail: [email protected]

Home: www.olhemaisumavez.com.br

Às vezes, é preciso parar…

Mas ele é cego…

Sempre trabalho com a ideia de que é importante olhar mais uma vez para todas as situações com a pretensão de ver nelas oportunidades. Todos os eventos em que nos envolvemos, no meu ponto de vista, oferecem as mais variadas oportunidades. Podem ser eventos fortuitos ou não, com graves ou suaves consequências, entendo que se pode dirigir para eles um novo olhar. Não digo que sejam situações fáceis ou que seja simples fazê-lo.

Outro dia, enquanto apresentava essa ideia, um rapaz me interrompeu e disse:

– Acho que não concordo muito com isso… Eu tenho um amigo cego, daí me pergunto: como ele vai olhar mais uma vez? Ele não vê nada…

Fiquei um pouco surpreendido com a pergunta. Não foi pela sua dificuldade, mas por não haver entendido o sentido metafórico de olhar mais uma vez. Respirei, calei os meus julgamentos e respondi:

– Muito bem, eu tenho que concordar contigo, disse.

Prossegui comentando que o sentido de olhar não se limita a capacidade dos olhos de traduzir em imagens aquilo que está à nossa frente. Olhar mais uma vez é muito mais do que isso. Quando você leva o carro para a mecânica e pede para que “deem uma olhada” não é para que o fiquem admirando. Quando alguém faz um check up médico e diz que deu “uma olhada na saúde” também não tem o sentido de ver, mas sim de analisar, examinar, investigar e observar a situação para, a partir dela, fazer um diagnóstico que lhe permita tomar as ações adequadas. É esse o conceito que está por trás da expressão Olhe mais uma vez! Em cada situação novas oportunidades. Avançando para o ambiente organizacional, existem muitos cegos, surdos e paraplégicos em diferentes níveis hierárquicos e de gravidade. São tantos os líderes cegos que, ao não olharem mais uma vez para o ambiente e para as pessoas, não veem a necessidade de estimular a autonomia em busca da excelência por meio do alinhamento da missão organizacional e do propósito individual. No ambiente organizacional, são tantos os líderes surdos que não escutam as pessoas e os sons do ambiente e deixam de incentivar programas de desenvolvimento individual e prejudicam o crescimento organizacional. São tantos os líderes que estão paraplégicos de tanto correr, porque com a aceleração não permitem que a organização caminhe na direção escolhida. Para que não sejamos cegos, surdos e mudos é fundamental se manter na mente do aprendiz e assim ampliar a visão sobre o ambiente, escutar os sons do meio e mover-se na direção pretendida. Para isso, muitas vezes…

… é fundamental fechar os olhos para ver; é essencial silenciar para escutar; e é indispensável parar para se manter no caminho.

Enfim, no ambiente organizacional ou relacional, muitas vezes, não se sabe quem são os cegos, os surdos e os paraplégicos entre nós. Isso depende de cada um e da amplitude das suas ideias. Com relação ao amigo que não havia entendido a metáfora, somente posso lhe agradecer, porque o seu questionamento me fez olhar mais uma vez. Essa ideia está descrita no final do livro “Olhe mais uma vez”(p. 147): “É importante viver sabendo que podemos falar sem proferir palavras; que podemos ouvir sem escutar os sons; que podemos ver sem as imagens; que podemos caminhar sem mover as pernas; enfim, que podemos aprender a aprender mantendo a mente aberta e em sintonia com o mundo percebendo as oportunidades que nos rodeiam.”

Como anda a sua visão?

Como está a sua audição?

E a sua mobilidade? Será que é preciso parar para ser mover?

Às vezes, é preciso ressuscitar nossas capacidades…

FELIZ PÁSCOA!!!

Moacir Rauber

Blog: www.facetas.com.br

E-mail: [email protected]

Home: www.olhemaisumavez.com.br

O Mundo não vai parar…

O mundo não vai parar…

Mais um dia e mais uma briga começava. O filho, com dezoito anos, se sentia incompreendido pelo pai, pois acreditava que ele não sabia nada do mundo atual. Para ele, o pai não entendia a importância das redes sociais, não via a as amizades do mundo virtual com bons olhos e não aceitava que ele se divertisse com os jogos. Por outro lado, o pai se ressentia porque o filho não fazia as tarefas, não colaborava com a organização ou com a limpeza da casa e, além de tudo, não estudava e não trabalhava. Os dois viviam sozinhos desde que a mãe os deixara logo que o filho tinha seis meses. Em todos esses anos sempre viveram bem, entretanto, de uns tempos para cá, nada mais funcionava. A cumplicidade antes presente em todas as atividades que faziam juntos agora se chocava num antagonismo perceptível na presença um do outro. Depois de algumas acusações para lá e para cá o filho disse:

– Pai você não me entende. Sou um adolescente e preciso do meu espaço. Da minha privacidade. O mundo não me entende!!!

Uma cena que, provavelmente, se repete em muitos lares pelo mundo, geração após geração, na relação entre pais e filhos. Não há nada de novo no conflito. O pai admitia que não entendia o filho nessa fase, porém o que o assustava era a sua postura frente à vida.

Onde já se viu? Adolescente com quase vinte anos? Com essa idade eu já namorava sério e trabalhava. Meu avô já era responsável por manter uma família aos vinte... Retrucou irritado.

O mundo não te entende? E quem disse que o mundo precisa te entender? O mundo não vai parar por tua causa… Complementou.

O pai disse que a conversa terminou por ali. Assim, passaram os últimos cinco dias sem conversar. Escutei o desabafo do pai. Não disse nada, mas o meu diálogo interior foi ativado. Sem julgar um ou outro, certo ou errado, nem bom ou ruim, concordei com o pai quando ele disse que o mundo não vai parar para o filho, assim como não parou para ninguém. O mundo não parou para faraós, imperadores, bruxos ou feiticeiros, assim como não parou e nem vai parar para os ricos ou famosos da atualidade ou do futuro. O mundo simplesmente é e segue o seu caminho com você ou sem você. Portanto, acredito que cabe a cada pessoa entender o mundo para nele se posicionar. Qual é o meu papel no mundo? O que posso contribuir? O que espero receber? Creio que entender que o mundo não vai parar por minha causa é fundamental para saber ser e estar nele, fazendo dele um lugar melhor com a minha presença. No ambiente organizacional não é diferente. No olhar da organização para o indivíduo, saber avaliar quais as competências, características e perfis individuais podem contribuir para que a equipe seja melhor, mais competitiva e que entregue mais resultados é essencial. Na perspectiva do indivíduo para a organização, saber avaliar onde posso contribuir mais para estar bem com os meus objetivos é um passo dado rumo a realização pessoal. Trata-se de um processo de retroalimentação positiva. Em suma, entender que o mundo não vai parar por ninguém e que ele, igualmente, não é justo, permitirá que cada um possa se posicionar no mundo sendo justo.

Enfim, voltando para o diálogo entre pai e filho, estou seguro que os dois vão se entender outra vez, porque afinal o sentimento de amor existe entre eles. O exercício de entender o mundo pode tardar um pouco tanto para pai como para filho, porém os primeiros passos, talvez, passem pela importância de arrumar o próprio quarto e de ajudar na organização da casa. A saída é para dentro, porque o mundo não vai parar.

Moacir Rauber

Blog: www.facetas.com.br

E-mail: [email protected]

Home: www.olhemaisumavez.com.br

Somos únicos. Somos múltiplos.