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Facetas!


Somos Únicos.
Somos Múltiplos.
By Moacir Rauber

Quero ganhar dinheiro! E você?

A conversa com aquele jovem de dezoito anos estava interessante. Ele estava empolgado com as oportunidades e com o próprio futuro que se mostrava promissor.

Numa das intervenções eu fiz um comentário:

Que bom! É importante também que se goste do que se faz, não é?

Ele franziu a cara e disse:

– Não sei se concordo com isso. Acho que o negócio que eu fizer tem que dar dinheiro. Isso que importa.

Ele continuou se justificando de que seria muito mais importante que a atividade dele fosse rentável do que prazerosa. Dizia com prazer e com orgulho que com dinheiro ele poderia comprar isso e aquilo, além de ter uma qualidade de vida melhor. Fiquei um pouco impactado com a crueza e a ambição desmedida presentes na resposta do jovem.

Depois de suas argumentações, surgiu um espaço em que eu comentei:

– Muito bem. Então para você em primeiro lugar deve vir o dinheiro, certo?

Ele disse que sim e voltou a argumentar que na vida a gente tem que se preocupar em ganhar dinheiro, por que senão o que será da gente na velhice?

Novo intervalo.

Eu aproveitei para comentar:

– Interessante a tua abordagem. Agora vamos pensar juntos. Imaginemos que você vá a um dentista para tratar os seus dentes. O que você acharia de ser tratado por um dentista que pensasse da mesma forma que você. Antes dos seus dentes, antes do dentista se preocupar em resolver o seu problema ele estaria preocupado com o seu dinheiro?

Fiz silêncio. O jovem também ficou. Nesse momento ele não disse nada.

Continuei a reflexão:

– O que você acharia de ser atendido por um médico que pensasse primeiro no dinheiro? E se você pensasse em programar as suas férias e fosse procurar uma agência de viagens que agisse da mesma forma que você me diz que pensa? Já imaginou o pessoal lá organizando a tua viagem, mas na verdade eles não estão nem aí para a tua comodidade ou conforto?

Outra vez veio o silêncio. A expressão do jovem mudou.

Continuei indagando sobre outras atividades:

– O que você pensaria de comprar carnes de um açougueiro que coloca em primeiro lugar o dinheiro? O que passaria pela sua cabeça de entrar numa farmácia que somente pensa no dinheiro? O que lhe parece se uma companhia aérea pensar sempre no dinheiro em primeiro lugar?

O jovem finalmente disse:

– Pois é, eu não tinha pensado nisso. Não tinha pensado desse jeito.

Depois eu disse:

– Provavelmente, qualquer cliente teu que souber que você pensa desse jeito não vai entrar no teu negócio. Não importa a atividade. Talvez ele entre uma vez, mas assim que ele perceber que está sendo atendido pelo dinheiro em primeiro lugar ele não voltará mais.

– Sabe que eu acho que você tem razão, disse o jovem.

Ainda conversamos sobre o tema. Por fim concordamos que o dinheiro é importante, inclusive para que a atividade seja viável econômica, social e ambientalmente. As pessoas que trabalham precisam do dinheiro para a manutenção da própria vida. Entretanto, também concordamos que o foco de qualquer atividade deve ser o atendimento do objetivo a que ela se propõe, sendo o dinheiro uma consequência natural do processo do trabalho realizado com competência. Por isso, acredito que o dinheiro é simplesmente o resultado do trabalho bem realizado e não deve ser o objetivo principal de se realizar o trabalho.

Você quer ganhar dinheiro? Eu também, mas como resultado de minhas competências.

Fonte da imagem: http://virtualmarketingpro.com

O metal pode ser vil?

As conversas com o meu amigo, muitas vezes, voltavam ao mesmo ponto. Ele dizia:

– O problema do mundo é o dinheiro. Eu fico pensando que se tirássemos o dinheiro deixaríamos de ter tantos problemas. As pessoas se deixam influenciar, deixam-se levar e se deixam corromper pelo dinheiro…

E ele continuava toda a sua argumentação de que a ganância e a ambição desmedidas têm a suas origens no dinheiro. Em tempos de corrupção é uma argumentação fácil. Particularmente eu não concordo, mas já não exporia para o meu amigo as minhas razões para essa discordância. Em parte, vou escrevê-las.

Concordo que a ambição e a ganância podem levar as pessoas a buscar o dinheiro de forma desmedida, porém não entendo que o dinheiro seja a verdadeira razão. Pessoalmente acredito que o dinheiro seja tão somente o símbolo daquilo que as pessoas gananciosas e ambiciosas em demasia procuram. Elas querem o poder que o dinheiro proporciona. Elas querem o prestígio e a influência que o dinheiro em grande quantidade aparentemente assegura. A vilania não está com o dinheiro tão maldosamente taxado de “vil metal”.  Por outro lado, lembro de que o dinheiro também pode ser usado para cumprir com a sua função social primária de atender as necessidades dos cidadãos, assim como para ações de bondade e de caridade. A generosidade também não está com o dinheiro. Desse modo, se por um lado o dinheiro pode comprar um iate, por outro lado é o dinheiro que paga o leite das crianças. Se por um lado o dinheiro pode comprar uma mansão, por outro lado também é o dinheiro que paga a conta de energia das casas humildes. Se por um lado o dinheiro pode comprar um terno Armani, por outro lado também é o dinheiro que paga os materiais para se fazer os exames médicos que nos preserva a saúde. Se por um lado o dinheiro pode ser associado a ganância e a ambição, por outro lado ele pode ser associado a bondade e a caridade. O dinheiro apenas é o símbolo, ele não é a coisa em si. O uso que se dá as coisas, o dinheiro, é diferente das coisas em si, ambição e ganância ou bondade e caridade. As coisas em si que o dinheiro pode fazer depende de cada um.

Em toda a história da humanidade foram criadas e desenvolvidas tecnologias as mais variadas que podem ser símbolos de evolução ou de retrocesso; de vida ou de morte; de construção ou de destruição. Para o bem ou para o mal, aquilo que a humanidade criou depende do seu uso. O uso é determinado pelo comportamento. O comportamento é determinado pelo caráter. E o caráter é individual. Dessa forma, entendo que ambição e ganância são questões comportamentais de cada indivíduo, assim como a bondade e a caridade. O dinheiro pode ser apenas o símbolo de quem cada um é. O dinheiro não é vil. O dinheiro não é generoso. Cada um de nós pode ser um ou outro.