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AINDA QUE DÊ ERRADO… ESTÁ CERTO!

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AINDA QUE DÊ ERRADO… ESTÁ CERTO!

Ele se preparava para uma cirurgia que poderia ser complicada. Minha esposa e eu o escutávamos falar sobre o procedimento, o período de internação e o tempo de recuperação. Ao final, fiz o comentário: Vai dar tudo certo! Ele ficou calado e, em seguida, respondeu:

– Verdade, porque ainda que dê errado, vai estar certo!

Ficamos um pouco encabulados com a sua resposta, porém ela traz várias reflexões possíveis, entre elas: (1) manter o foco naquilo que está sob controle; (2) desenvolver a confiança nas relações pessoais e profissionais; e (3) nutrir a força individual da fé e da esperança. Como essa postura pode nos ajudar no nosso dia a dia organizacional, familiar e social?

O autor coreano Byung-Chul Han fala da “sociedade do cansaço”, em que saímos de um modelo disciplinar para um modelo de desempenho. Abandonamos — em parte — o hábito de obedecer, seguir regras e tradições, e adotamos a autonomia, acreditando poder tudo. Criamos a falsa ideia de que somos autossuficientes e não precisamos seguir as ordens de ninguém, apenas as próprias. Entretanto, isso é um engano.

Quando deixamos de seguir ordens ou comandos externos em nome da autorregulamentação, criamos um chefe muito mais exigente do que qualquer outro poderia ser: nós mesmos. Desse modo, temos sistematicamente aprendido a nos “amar” e a projetar o “Eu Ideal”, que supostamente nos levaria à plenitude, acreditando que sou especial porque sou único. Então, todos são especiais, porque todos são únicos. Ao nos voltarmos para nós mesmos, passamos da autoestima para o egoísmo, no qual acredito ter o direito a tudo. Entretanto, quando não alcanço o êxito que penso merecer pelo fato de ser único, frustro-me e deprimo-me, esgotando-me de maneira a gerar uma sensação de cansaço contínuo. Já não posso criticar o meu chefe, porque ele sou eu. Nos arrogamos uma importância tamanha que passamos a atribuir todo o nosso sucesso apenas a nós mesmos. Cremos que a autonomia deveria nos manter no topo, uma vez que “eu posso”. Ao perceber que, muitas vezes, não podemos tudo, nos deparamos com o “Eu Real”, que nos leva ao burnout, consumindo-nos pela frustração de não sermos tão especiais quanto acreditávamos.

A vida, cedo ou tarde, nos coloca em situações que nos fazem lembrar de que, muito mais do que independentes ou interdependentes, somos dependentes. Para isso, basta recordarmos o ciclo da vida: ao nascer, dependemos; ao aproximarmo-nos da morte, dependemos; e por que entendemos que, ao viver, seria diferente? Entendo que nada muda — apenas a nossa falsa percepção de controlar tudo à nossa volta.

Byung-Chul Han resgata a importância do equilíbrio entre a vida contemplativa e a vida ativa, pois é a arte de contemplar que nos permite compreender o motivo da atividade. Citando São Gregório, ele afirma que um bom programa de vida exige tempo de silêncio intencional, “de tal modo que a chama da contemplação que se acende no coração transmita toda a sua perfeição à atividade”. Dessa maneira, é na contemplação que se dá sentido ao que se faz, mantendo o foco naquilo que está ao alcance da própria ação. Ao compreender o sentido daquilo que se faz, estabelece-se a confiança que desperta a fé e a esperança, transcendendo do ativo para o contemplativo. O cansaço de uma atividade que tem sentido é prazeroso: não consome, alimenta.

Ao retornar à fala do amigo que se preparava para uma intervenção cirúrgica, estava clara a confiança que ele tinha nas pessoas que fariam o procedimento. Ele também demonstrava consciência ao se ocupar apenas daquilo que estava sob seu controle, mantendo a fé e a esperança. Por fim, entendo que sua postura nos conecta diretamente com o transcendente, que a contemplação nos permite acessar. Saímos do “Eu Ideal” e nos contentamos com o “Eu Real”.

E você, está satisfeito com o seu “Eu Real”, ainda que a vida não tenha sido como imaginada?

Moacir Rauber

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