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Facetas!


Somos Únicos.
Somos Múltiplos.
By Moacir Rauber

Só o tutorial não basta!

Só o tutorial não basta!

Escutava as instruções do coordenador do retiro. Era um retiro de silencia, mas no final do dia tinha um momento de interação. Ele falava da importância dos exercícios mentais, conduzia dinâmicas de meditação e explorava técnicas para que cada um pudesse assumir o controle da própria mente. Reforçava que a mente nos mente e pode nos levar para lugares que não queremos ir. O coordenador ressaltava a importância de fazer as leituras orientadas e os exercícios programados para o dia seguinte, sob pena de apenas conhecer o conteúdo sem nos beneficiarmos da atividade. Por fim, ele disse:

– Muitas pessoas conhecem os tutoriais das aulas virtuais de atividades físicas, mas não fazem o exercício. De nada serve. A analogia se aplica para a mente…

Faz sentido. Ler os melhores livros sobre os benefícios da meditação ou da atenção plena e não praticar é similar a assistir aos tutoriais das academias de educação física sem fazer o exercício. Depois do tutorial é preciso fazer a atividade. Porém, muitas vezes, a preguiça vence e a pessoa fica no tutorial. A nossa mente, igualmente, precisa por em prática o conhecimento adquirido nas leituras, nos seminários e nos retiros para incorporar hábitos e comportamentos desejados. A reflexão do coordenador seguia no ritmo do retiro e ele se aprofundava em temas para que cada um se responsabilizasse pelas suas escolhas. Estar no ambiente que estávamos, com o dia todo voltado para as leituras e a meditação, fazia com que fosse relativamente fácil manter uma rotina com as suas práticas. Ainda assim, quase todos caíamos na tentação de não seguir o programa do silêncio e de não fazer todas as atividades propostas. Faltava-nos a disciplina para exercer a escolha feita. Portanto, imagine o tamanho do desafio de levar a prática proposta para o dia a dia. Como faríamos os nossos exercícios de meditação no mundo real? O que fazer para incluir uma prática de mindfulness nas 24h que cada um tem, as quais, muitas vezes, não bastam para as atividades correntes? Caso pensemos no antônimo da preguiça chegamos ao workaholic, o sujeito que não se cansa de sempre fazer mais. Notadamente a proposta dos retiros, da meditação e da atenção plena não é essa. Os extremos não são o caminho. Se de um lado está a preguiça e de outro lado o excesso de trabalho, entre eles nós encontramos a diligência, o equilíbrio. A diligência se refere a fazer aquilo que se escolheu fazer com cuidado, interesse e zelo por si e pelos outros, com a urgência e a presteza necessárias. Para ser diligente é preciso discernimento, a capacidade de avaliar as situações com o bom senso e a clareza necessárias para fazer uma boa escolha. Manter-se em movimento ao renegar a preguiça sem comprometer a sua busca de equilíbrio  e harmonia pelo excesso de atividade. É o equilíbrio que leva a pessoa à harmonia. Provavelmente, ao incluir um período de meditação ou de prática de mindfulness no seu dia a dia será necessário deixar algo para trás. Inicialmente poderá parecer difícil fazer a escolha, porém com a prática o menos será mais. Menos estresse e mais resultados. Menos trabalho e mais produtividade. Menos horas e mais conteúdo. Menos aflição e mais fruição.

Por fim, o coordenador disse que a preguiça é parte da natureza humana. Por isso, lembrei-me de um conselho de um empreendedor que dizia: “Preste atenção no preguiçoso. Quando ele procura um atalho vai ter mais trabalho. Muitas vezes, porém, ele usa a sua inteligência para propor uma solução que economiza recursos e esforços!”. Eis o ponto. Ficar somente no tutorial não basta. Depois da ideia é fundamental a atividade. É preciso ter o discernimento para agir com diligência e fazer o que deve ser feito.

Moacir Rauber

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Hoje eu caí em tentação!

Fonte imagem: ceagespoficial.blogspot.com

Hoje eu caí em tentação!

Encerrávamos um dia de intenso trabalho pessoal. Muitas leituras, reflexões e silêncio exterior. Internamente, cada um com os seus ruídos. Estávamos no alto do Morro das Pedras em Florianópolis, um lugar idílico em que os sons da natureza favorecem a que nos conectemos com o Eu mais profundo de cada um. No final do dia um momento de partilha em que cada um relatava as reflexões que havia feito. Dois ou três minutos de troca em que cada um dava e recebia; compartilhava e acolhia; ensinava e aprendia. Uma senhora pede a palavra para compartilhar com o grupo a experiência do dia:

– Acredito que com a meditação, com a preparação emocional e com o apoio do Ser Supremo nós conseguimos tudo o que queremos…

E relatou a sua luta contra a obesidade que acreditava finalmente estar vencendo. Ela disse que durante toda a sua vida sofrera com o seu peso corporal, que a afligia emocionalmente. A condição de obesa gerava nela desconforto e um sentido de inadequação. Assim, sempre que surgia um novo regime, uma nova técnica ou um novo e revolucionário medicamento para emagrecimento ela era a primeira candidata. Entrava num regime, parava de comer por completo e emagrecia. Em pouco tempo voltava a querer comer tudo, por isso engordava. Foram tantas as idas e vindas do seu peso entre um regime e outro que ela havia perdido as contas. Ela variava entre a anorexia e a gula. Internamente, acreditava que o seu desejo quase incontrolável de gosto pela comida, a gula, encontraria a solução no seu oposto ao bloquear esse desejo, a anorexia. Racionalmente, sabemos que a vida não é tão simples. Emocionalmente os desafios são muito mais complexos. Quase sempre, entre os antônimos encontramos o equilíbrio que pode nos levar a harmonia. Gula ou anorexia? Entre eles está a saciedade ou a temperança que se aplica à comida, assim como serve de analogia com os demais comportamentos. A gula por conhecimento não deveria desembocar na anorexia da arrogância de se crer melhor, mas na sabedoria de contribuir efetivamente para aqueles que não tiveram a oportunidade de se desenvolverem. A gula por desempenho não deveria nos levar para a anorexia da competição com o outro, mas para a competitividade de entregar o seu melhor para beneficiar o outro. A gula por manter o foco não deveria provocar a anorexia da falta de visão sistêmica, mas a entender o impacto daquilo que se faz no todo de que se faz parte. Desse modo, o excesso em cada uma das competências exigidas pelo mercado de trabalho pode produzir o seu efeito contrário, uma vez que a solução não está nos extremos, mas no caminho do meio, no equilíbrio. O equilíbrio traz a harmonia que revela um ser humano competente emocionalmente. Por fim, se são as competências socioemocionais que validam as competências técnicas, a meditação e a oração podem ser um bom caminho.

Depois da exposição da senhora sobre a sua convicção de que venceria os seus desafios a partir da internalização de uma nova imagem sobre si mesma, apoiada na oração e na meditação, ela fez um comentário sobre as comidas oferecidas no evento. Disse que tudo estava muito delicioso no café, nos lanches, no almoço e no jantar, mas que ela havia resistido bravamente. Todos ficamos felizes por ela, até o momento que ela complementou:

– Mas hoje eu caí em tentação. Quem é que pode resistir aos churros?

Rimos, porque todos havíamos nos empapuçado com os churros. Quem é que nunca caiu em tentação? Afinal, não somos tão racionais assim. Ekman diz que “somos seres emocionais que raciocinam”, muitas vezes, travando uma dura luta interna. Parece ser verdade!

Moacir Rauber

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Essa vaga deveria ser minha!!! Inveja ou inspiração?

Essa vaga era minha!!!

Estavam os dois amigos esperando o resultado da entrevista para a mesma vaga de trabalho. Haviam estudado juntos no ensino fundamental. Reprovaram no mesmo ano do ensino médio, porque optaram por cair na gandaia. E, por fim, fizeram a mesma faculdade que concluíram juntos. Uma amizade a toda prova que teve uma festa de formatura merecida. Agora era a hora de cada um buscar o seu espaço no mercado de trabalho. Os sonhos de trabalhar em determinadas empresas eram comuns. Por isso, no momento que foi aberta aquela vaga ambos se candidataram. O processo fora bastante competitivo, porém havia somente uma vaga. A quem caberia a oportunidade de realizar o sonho? A porta se abre e a resposta do processo seletivo é dada. O escolhido vibra. O preterido murcha. O que fazer? O amigo que não obteve a vaga reúne as suas forças, aproxima-se do outro, abraça-o e diz:

– Parabéns!!! Tudo de bom pra você!!!

O sorriso no rosto, entretanto, ocultava outra emoção. Ele não estava feliz. Sentia raiva, tristeza e inveja, porque acreditava que aquela vaga deveria ser sua. Ele lutou, estudou e fez o que estava ao seu alcance para conquistar o trabalho na empresa dos seus sonhos. Para ele, agora, os sonhos se desmoronavam. Ele tinha consciência de que deveria ficar feliz pelo seu amigo, porém, naquele momento não dava. Ele não conseguia parar de sentir inveja. Inclusive, desejava que o seu amigo não se saísse bem no trabalho. Sentia-se mal pelos seus pensamentos e se perguntava: “será que sou uma pessoa tão horrível assim?”. Particularmente entendo que não, esse jovem não é tão horrível assim. Ele é normal. Nunca sentir inveja é que não seria humano. Contudo, a diferença está com o que ele vai fazer com essa emoção surgida frente a um fato. Caso ele continue nutrindo a inveja inicial, ela se transformará em sentimento que poderá despertar novas emoções negativas. Por isso, a importância de tomar consciência daquilo que desencadeou a emoção para poder assimilar, entender e modificar o sentimento que dela será gerado para que surjam novas e boas emoções. Aquele que continuar nutrindo a inveja vai convertê-la em sentimento que o transformará num invejoso, tornando-o numa pessoa “horrível”. O que fazer? Muitas vezes se acredita que se algo não é bom o seu contrário deveria ser. No entanto, a vida não é tão linear. O antônimo de inveja é o desinteresse, uma percepção tampouco apropriada para o convívio e para as boas relações. Por isso, a busca do equilíbrio entre inveja e desinteresse é o caminho que nos leva à inspiração. Por fim, se a inveja é desejar possuir aquilo que o outro possui, o desafio é observar, reconhecer, assimilar e transformar essa emoção inicial em admiração e que sirva de inspiração para trilhar o próprio caminho. Desse modo, pode-se falar em desenvolvimento humano.

A quem nunca lhe pareceu que a grama do vizinho era mais verde? Quem nunca sentiu uma dorzinha de cotovelo porque o outro é um sortudo? Isso, é normal. Por isso, não se trata de negar a nossa dualidade humana entre boas e não tão boas emoções. Trata-se de encontrar alternativas para observar fatos sem julgar as pessoas; de sentir sem se culpar para transformar; de entender para afetar com afeto ao fazer as escolhas que o tornem melhor. Esse caminho vai permitir que cada um encontre a sua vaga. Aquela vaga era do amigo!

Moacir Rauber

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Pão duro ou mão aberta? No equilíbrio a Generosidade!

Pão duro ou mão aberta? No equilíbrio a Generosidade!

A vida estava por terminar. Ele trazia em suas lembranças a luta, o trabalho e a abnegação presente em sua jornada para poder acumular uma riqueza que nem os seus filhos conseguiriam gastar. Agora ele se retorcia de dor na cama, porém a sua preocupação continuava dirigida para a sua fortuna. O que faria com os imóveis? Qual o destino das suas empresas? Como seria administrado o seu fundo em ações? Enquanto estava nesse dilema outra vez tiveram que chamar a enfermeira de plantão que controlou a situação. Entretanto, todos ali sabiam que a sua partida era uma questão de tempo. Não havia mais o que fazer. Ainda assim, ele não conseguia se desconectar das suas riquezas materiais. Sabia que trabalhara muito para juntar a fortuna que não queria abandonar. Tinha noção que havia feito coisas que até Deus duvidava para fazer “bons negócios”. Nunca gastara um centavo com algo que não fora obrigatório. Por isso, estava ali no leito de hospital sem direito a acompanhante. Pensava:

– Não vou gastar meu dinheiro com isso. Pago impostos…

Do lado de fora, os filhos esperavam as notícias. Nenhum deles estava preocupado com as preocupações do pai. A avareza do pai sempre fora questionada pela mãe, pelos filhos e pelas pessoas com as quais convivera. Muitas vezes lhe haviam dito para fruir um pouco daquilo que acumulara, mas ele era um pão duro. Um dos filhos, notadamente um folgazão, sempre vivera como um nababo. Adulava o pai para obter as vantagens da sua riqueza. Ele era um verdadeiro mão aberta com o dinheiro que o pai se recusava a gastar. A situação pode parecer caricata, porém é verdadeira e se repete em diferentes famílias, organizações e culturas. De um lado, existem os avarentos. De outro, os esbanjadores. O avarento pode estar no papel de um líder, de um cônjuge, de um amigo ou de um colega de trabalho. São pessoas que não dão, não ensinam e não compartilham. Eles não confiam em ninguém e guardam para si as informações para manter a sua relevância pelo que possuem. Assim, podemos ter chefes mesquinhos, cônjuges miseráveis, amigos sovinas e colegas fominhas que apenas querem ganhar da posição, receber do amor, tirar das amizades e exaurir dos colegas. O esbanjador não se importa com aquilo que recebe e com aquilo que dá ao desperdiçar os recursos, os amores, as amizades e as relações. Não sabe o valor de se comprometer consigo e com o outro. O esbanjador não aprecia o esforço do líder para fazer com que a organização se mantenha; não reconhece a força de uma amor; não considera os benefícios de uma amizade; e não entende a interdependência com os colegas. Por isso, o desafio para se manter a esperança está no equilíbrio entre a avareza e o desperdício que se entende como generosidade. O que é generosidade?

No equilíbrio entre os antônimos da avareza e do desperdício surge a generosidade que é a capacidade de entender a importância de dar e de receber; de compartilhar e de acolher; e de ensinar e de aprender. Com a generosidade brotando do fundo de nosso ser podemos viver sem ser pão duro, em que acumular seja um meta e sem desperdiçar os recursos recebidos com a irresponsavelmente de um mão aberta. No equilíbrio da generosidade se manifestam as vozes da esperança de que podemos afetar o mundo com afeto, fazendo dele um lugar melhor para se viver.

Moacir Rauber

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Vozes da Esperança: a Força da Esperança no trabalho Orientado para o Amor

Você ama o próximo? É bom e importante amar o próximo, esteja ele longe ou próximo. Porém, é indispensável amar o próximo mais próximo, porque só assim todos os próximos serão amados pelos próximos, incluindo cada um. E amar o próximo que está próximo exige esforço e dedicação. É uma construção.

O que você está construindo?

A Força da Esperança do Trabalho Orientado para o Amor não é utopia. É uma necessidade!!!

Participe: dia 05-2-2021 no FACEBOOK do Instituto Cecília Costa – Educação & Desenvolvimento do Potencial Humano | Facebook

Verdade mais verdadeira do mundo?

Verdade mais verdadeira do mundo?

Quase cinquenta anos depois, numa conversa de final de ano entre um causo e outro, entre fatos e exageros um dos irmãos questiona:

– Verdade mais verdadeira do mundo?

Não era necessário dizer mais nada. Imediatamente voltamos a nossa infância. O nosso código de honra fora acionado como nos tempos em que a ele recorríamos para tirar uma dúvida sobre uma situação não tão bem explicada.

Início da década de 1970. Vivíamos os três irmãos uma realidade que a nós nos parecia ser a única possível na face da terra. Tínhamos entre 4 e 8 anos e cumpríamos a rotina dos filhos de agricultores: ajudar na lida diária, ir à escola e frequentar a catequese. No dia a dia tínhamos que tirar leite, tratar os porcos, cuidar das galinhas e capinar na lavoura. Além disso, caminhávamos por quase quatro quilômetros até a escola. Aos sábados tínhamos a catequese e uma vez por mês íamos à missa no domingo. Na catequese aprendíamos os mandamentos cristãos e um deles dizia que não se pode usar o Santo Nome de Deus em vão. Dessa forma, quando estávamos diante de uma situação que exigia confirmar se fosse verdade ou não estávamos tentados a dizer “Eu juro por Deus!”. Entretanto, não era recomendável porque confrontava um dos mandamentos. O que fazer? Qual seria a solução para saber quando alguém estava dizendo a verdade ou poderia estar sonegando alguma informação sobre “a importante tarefa” de quem era a vez de secar a louça naquele dia? Ou como fazer para saber se realmente um dos irmãos havia feito ou deixado de fazer algo ordenado pelos pais? Responder em nome de Deus não era permitido. Assim, criamos um código que deveria ser usado com cuidado, porque jamais deveria ser quebrado. Era um tratado de honra. Desse modo, surgiu a expressão “Verdade Mais Verdadeira do Mundo” para mediar e garantir que a verdade estava sendo dita sem que um mandamento estivesse sendo quebrado.

Ao escutar a pergunta “Verdade mais verdadeira do mundo?” rimos a plenos pulmões, porque lembramos imediatamente do que se tratava. Destaco aqui a importância da estratégia criada e dos valores subjacentes ao código de honra. Estabelecemos normas, condições e um formato para usar um recurso que tratava com o outro, mas principalmente desafiava a relação de cada um consigo mesmo. Quando a pergunta era dirigida a você por um dos irmãos, ele o instigava, o provocava e o experimentava, levando o indagado a uma conversa interior profunda. “Estou sendo verdadeiro?”, “estou me aproveitando de alguma situação?” ou ainda, “sou de confiança?”. Ao ser confrontado com a pergunta a conversa era íntima. Enquanto não se proferia a resposta, o diálogo interno fazia com que cada um se questionasse e avaliasse os reflexos da situação na sua relação consigo mesmo e com os outros. O código de honra criado e estabelecido entre os irmãos tinha a capacidade de estimular o comportamento verdadeiro, mantendo a motivação para cumprir com aquilo que foi escolhido livremente por cada um. Os códigos de honra podem ser explícitos ou podem estar implícitos no ambiente em que circulamos ou nas relações que estabelecemos. Eles estão presentes e, quase sempre, sabemos como nos comportar para que se mantenha a coerência interna que traz em si os princípios e os valores individuais.

Qual é o seu código de honra? Qual é a sua “verdade mais verdadeira do mundo”?

Moacir Rauber

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Radical e Resignado: no equilíbrio as vozes da esperança!

Radical e Resignado: no equilíbrio as vozes da esperança!

Escutava o meu amigo que dizia viver um momento de descrença muito grande. Uma desesperança com o ser humano. Para ele, participar de reuniões, grupos de trabalho ou uma roda de amigos (quase todos virtuais) era um martírio. Parecia-lhe que ao menor sinal de discordância, divergência ou de uma posição que pudesse parecer politicamente incorreta os olhares acusadores surgiam. Nas reuniões e nos grupos de trabalho ele optou por se calar. Nas rodas de amigos ele escolheu sair. Numa de nossas conversas ele me disse:

– Parece que se vive numa ditadura da harmonia…

Ao escutá-lo tive que lhe dar razão. Por mais que se fale em respeito às diferenças e ao acolhimento da diversidade numa repetição de lindos discursos, a prática tem se mostrado perversa. Nessa reflexão comentou que para ele

…as pessoas defendem que é importante pensar diferente, desde que todos pensem iguais.

Ele disse, “É por isso que cansei de tudo. É a ditadura da falsa harmonia!”. Sorri, porque concordei. Harmonia pode ser entendida como a presença da paz e da concordância no ambiente por meio da ausência de conflitos. Acredito ser fundamental haver harmonia, entretanto, há que se lembrar que a harmonia necessita que haja a sensação de prazer e a ausência de tensão no ambiente, por isso entendo que o conflito pode estar presente. Caso assim não seja assim, é a ditadura da harmonia, porque alguém teve que se calar em nome dela. Esse raciocínio me levou para um texto lido sobre o radical e o resignado. Explora-se a ideia da existência predominante de dois tipos de pessoas: os radicais e os resignados. Ele dizia que há um grande grupo de radicais que buscam se afastar daquilo que é tradicional, conservador ou usual, extremando-se no movimento de fazer com que o outro mude. Muitas vezes, são agressivos, ofensivos e hostis, porque se creem os justos num mundo de injustiças. Também há um grupo significativo de resignados que aceitam as situações sem que haja um movimento para mudá-la, conformando-se. Quase sempre, são submissos, obedientes e dependentes. Igual aos radicais, acreditam que o mundo não é justo. E, por fim, há um grupo de pessoas que se equilibram entre os radicais e os resignados que mantém a esperança. E o que é esperança? É esse sentimento de acreditar ser possível mudar algo com a força da própria existência, juntamente com a fé e a caridade nas ações. Utópico? Não, possível.

A esperança é o entendimento de que o mundo não é justo, mas que eu posso ser justo.

A esperança é a compreensão de que eu posso ser firme sem ser agressivo ou submisso; que eu posso ser coerente sem ser ofensivo ou obediente; e que eu posso ser colaborativo sem ser hostil ou dependente.

O equilíbrio entre os extremos vai criar a autêntica harmonia com a esperança de que a existência dos conflitos nos fará melhores.

Enfim, a esperança numa autêntica harmonia não necessita de radicais nem de resignados. Ainda assim pergunto: o que há de positivo no radical? Ele não é resignado. O que há de positivo no resignado? Ele não é radical. Por isso,

…a esperança da autêntica harmonia necessita de pessoas que atuem dentro das suas áreas de influência sabendo que o mundo não é justo, mas que cada um pode ser.

Caso haja confronto, há radicalismo. Caso não haja nenhum conflito, há resignação. São as vozes equilibradas da esperança que resultarão na autêntica harmonia.

Moacir Rauber

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Os limites do AFETO!

Os limites do AFETO!

Lia sobre a diferença entre conhecimento e sabedoria no meu canto, mas escutava algumas conversas alheias. Não via as pessoas, porém pude identificar que se tratava de pai e filho. A conversa entre os dois começou sobre alguns passeios que haviam feito no final de ano e da diferença com relação aos anos anteriores. “Este ano estávamos somente nós, né pai?” disse o filho. A conversa avançou para uma onda de sonhos, desejos e ambições do filho. Ele queria ser engenheiro, sonhava ser piloto de aviação e dizia que iria trabalhar para ajudar nas contas da casa. O pai o escutava. Numa das pausas o pai perguntou se o filho havia concluído todos os trabalhos do ano que o permitiriam concluir o ensino médio. O filho disse que ainda faltava um, mas que o professor era o culpado porque não o ajudava. O pai o ouvia. O filho falou, justificou e se isentou de qualquer responsabilidade, acreditando que havia feito uma bela figura diante do pai que estava em silêncio. Depois da pausa, a voz do pai mudou de tom. Não exibia mais os traços da voz festiva que havia escutado até então. Tornou-se firme ao perguntar:

– Você quer ser engenheiro? Você sonha em ser piloto? Você quer ajudar nas contas? É tudo muito bonito, mas quando você vai terminar o Ensino Médio?

O filho tentou mais uma vez argumentar. O pai não o deixou, porque assim como ele o havia ouvido agora era a sua vez de se calar. Ao falar, o pai respeitou o que o filho havia dito, porém assumiu o seu papel pôr os limites, dar as orientações e se dispor para acompanhá-lo no processo. Entretanto, destacou que caberia ao filho fazer aquilo que estava ao seu alcance fazer, sem responsabilizar os outros pelas ações que eram sua responsabilidade. Naquele momento de nada servia sonhar em ser engenheiro, imaginar-se pilotando um avião ou querer buscar trabalho se ele não havia se dedicado o suficiente para fazer um trabalho de conclusão de curso. Dizer que o professor não o ajudara para não entregar um trabalho que tinha diretrizes, prazo e datas estabelecidas e conhecidas no início do ano não condiz com as pretensões de futuro do filho. Era necessário concluir os trabalhos que estavam ao seu alcance para concluir o Ensino Médio era indispensável para realizar qualquer um dos sonhos que o filho havia dito ter. Por fim, o pai concluiu:

– Estudar e aprender é uma opção de transformar potencial em talento, meu filho. Se você acredita que pode ser um engenheiro e piloto de aviação para contribuir com a sua cota na casa, certamente você pode, mas você deve querer pagar o preço de estudar e aprender. Você pode fazer o trabalho? Então faça e depois siga o seu caminho.

O filho se calou e parece que entendeu a posição do pai. Entendi que o pai afetou com os limites do afeto. Foi uma fala forte de alguém que tem a sabedoria da vida para alguém que busca o conhecimento. O afeto do pai estava presente ao assumir a sua responsabilidade de querer saber, de se posicionar e de se colocar à disposição para acompanhar o filho. Qual era a intenção do filho? Quais seriam as suas ações? O pai certamente afetou com afeto a vida do filho, porque ele não se propôs a fazer aquilo que era responsabilidade do filho fazer. Por fim, observei que o passado vivido pelo filho havia sido lindo. Percebi que o seu futuro poderia ser promissor. E compreendi que é o presente que vai definir se o passado do filho no futuro será igualmente bom.

Os limites do afeto podem ajudar a que o conhecimento se transforme em sabedoria.

Moacir Rauber

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O que você perde ao desistir?

O que você perde ao desistir?

Sabe aqueles dias em que você se levanta sem muita disposição? Pois é, tem dias que são assim. Lembro-me de um dia que merecia celebração e o meu ânimo não estava muito bom. Todo dia deve ser celebrado, mas aquele dia era especial, porque meu sobrinho, que morava comigo, concluía o Ensino Médio com muito bom aproveitamento. A conquista era toda dele, mas para mim era motivo de orgulho ter participado do processo. O dia tinha uma extensa programação. Começava com uma missa de agradecimento pela manhã. No final da tarde tinha a colação de grau. Logo após o jantar e uma festa de confraternização num dos bons hotéis da cidade. Tudo como manda o figurino. Eu havia me proposto a participar da missa e da colação de grau, mas não da festa. Assim, na festa o meu sobrinho poderia fruir com toda a liberdade da celebração de uma conquista individual com aqueles com quem ele compartilhou segredos e fofocas; sucessos e fracassos; amores e desamores, entre outras tantas histórias vividas com o entusiasmo de quem tem 17 anos.

A missa estava programada para às 10h30 na capela do colégio. Para nós somente era necessário percorrer a distância de uma quadra. Quando nos aproximamos da capela veio o choque. Não me lembrava do tamanho da escadaria que era a única forma de acesso à capela. Assim como o colégio, a capela estava abrigada num prédio antigo e não tinha nenhuma estrutura de acessibilidade. Para um usuário de cadeira de rodas como eu era uma dificuldade a mais. Fiquei baqueado. Olhei para o meu sobrinho que sempre solícito logo se dispôs a me ajudar. Faltava cruzar a rua. Olhávamos para os obstáculos de longe. A movimentação dos amigos e familiares dos formandos era intensa em frente a capela. Olhei para o meu sobrinho e disse:

– Vai lá. Aproveita para agradecer o ano que você teve e a tua conquista. Eu não vou. Dá uma olhada… A escada é tão íngreme que chega a ser perigoso…

Despedi-me e voltei para casa. Chegando em casa senti que havia perdido a chance de compartilhar algo relevante com uma pessoa importante. Uma escadaria é um obstáculo para um usuário de cadeira de rodas? Claro que é, mas o que realmente muda é o olhar que cada um dirige aos obstáculos que encontra em seu caminho. Em minha andanças me deparei com muitas dificuldades, mas naquele dia eu vi a escadaria como obstáculo e isso me fez menor. Eu desisti. Desistir me proporcionou uma sensação de alívio imediato, por não ter que enfrentar as escadas e os olhares curiosos das pessoas. Por outro lado, com o passar do tempo ao chegar em casa gerou-me uma sensação de frustração muito grande. Ao desistir perdi a oportunidade cuidar, de amar e de afetar com o AFETO da presença. Ao desistir perdi para mim mesmo…

E você, está perdendo o que ao desistir?

Que em 2021 cada um de nós possa escolher estar presente!!!

Moacir Rauber

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