
Um Texto Humano: livre de Inteligência Artificial
Desde 2008 mantenho o blog www.facetas.com.br no qual exponho minha visão de mundo e reflexões por meio de textos. Entendo que, para pôr para fora por meio da escrita, antes é preciso ter posto para dentro por meio da leitura, do estudo e da experiência. Uso a Inteligência Natural (IN). Porém, com o advento da Inteligência Artificial (IA), surgiu uma infinidade de “escritores”, poetas, compositores, romancistas, redatores, cronistas e críticos, entre outras atividades que usam a escrita como ferramenta. Espanto-me com pessoas que hoje dizem que escrevem sem nunca ter lido, estudado ou experienciado aquilo sobre o que “escrevem”. De onde vem o conteúdo escrito? Sabemos a resposta.
Desde que a IA se tornou disponível como ferramenta, há muitas pessoas que se apropriam daquilo que foi reunido, categorizado, ordenado e armazenado por ela. Assim, preparam um prompt, que é uma solicitação em linguagem natural, e a IA produz aquilo que foi pedido, usando a base de conhecimento e informações disponível em seus servidores, apropriada do mundo. De que maneira? Não sei, mas não é o foco no momento. Gera-se uma resposta ampliada à solicitação feita pela pessoa que vai além da sua área de domínio do conhecimento. Ainda assim, considera-se o resultado como autoria de quem a pediu. Por isso, os novos “autores” escrevem textos, crônicas e livros; compõem músicas e poemas; fazem críticas; revisam artigos e conteúdos sem nunca terem lido, estudado ou aprendido por experiência sobre o tema. A prática é lícita, ética e apropriada?
Lícita, sim. Ética, nem tanto. Apropriada, depende de cada um.
Em 1921, no livro intitulado A vida intelectual, Sertillanges escreveu: “Recusa-te a ser um cérebro destacado do próprio corpo e um ser humano que tem a própria alma diminuída”. Era um convite para desenvolver o intelecto que está em você por meio do estudo, do esforço e da dedicação. Era um alerta contra o emburrecimento individual e a diminuição da alma.
Em 2011, antes da comprovação do fenômeno da perda de inteligência individual de uma geração para a outra constatado pela primeira vez (DUTTON & LYNN, 2015), escrevi um texto intitulado “O conhecimento que nos emburrece”, alertando para a terceirização do cérebro. Nele, alertava que o conhecimento está disponível nas bases tecnológicas, não está mais nas pessoas.
Em 2023 escrevi o texto “Pensar dói? Para inteligência artificial não…”, no qual resgatava que as gerações anteriores aprendiam o ciclo completo daquilo que produziam e consumiam. Hoje, porém, produzimos e consumimos alimentos, água e tecnologia sem saber suas origens, desconectados da natureza e do próprio esforço. Dizia: “Pensar, igualmente, pode ser cansativo e até doer; porém, transferir a arte de pensar para a inteligência artificial requer cuidado”. Portanto, ao usar a inteligência artificial, seja criterioso, porque, sem critérios, ela vai dispensar o pensar; ela vai diminuir você.
Em 2025, a reflexão foi sobre a importância de lembrar que a IA é uma ferramenta; ela não é você, independentemente da sua função, papel social ou organizacional. Nós somente nos habilitaremos a usar a IA com competência se formos perseverantes em desenvolver a nossa Inteligência Natural. Isso acontece se dedicarmos nossas horas à leitura, ao estudo, ao trabalho e à experiência.
Sempre fui empolgado com a vida. Não tão conservador a ponto de não experimentar o novo, nem tão afoito a ponto de sempre ser o primeiro a experimentar tudo. Assim, uso a IA para produzir imagens (com os respectivos créditos) para os meus textos, pesquisar artigos que me interessam, além de outras aplicações práticas. Há alguns anos fiz uma incursão musical. Dei um prompt para a IA compor uma música para a minha esposa, usando parte de nossa história. Em poucos minutos tinha letra e música prontas. Entusiasmado, apresentei o resultado para ela, que ficou feliz. Em seguida, contei-lhe que havia sido feito com IA. A felicidade desapareceu, dando lugar à frustração: “Pensei que tivesse sido você…”. Ficou a lição!
Enfim, com a IA qualquer incompetente (eu) compõe letra e música; porém, é preciso lembrar que, como compositor, continuo incompetente. Com a IA qualquer apaixonado pode ser um “poeta”; um iletrado pode ser um “escritor”. Porém, “poeta” e “escritor” esquecem que continuam apenas apaixonados e iletrados. Assim, desafio aqueles que publicam textos, músicas ou poemas produzidos com a ajuda (ou autoria) da IA a informar ao seu público essa verdade. Por que o desafio? Porque quando eu ler algo teu, escutar uma música tua ou me deparar com um poema teu eu quero encontrar você. Quero saber que há alguém que verdadeiramente pensa, sente e se emociona por trás da obra.
ATENÇÃO: não se trata de não usar a IA, mas de combinar a IA com a IN, com discernimento suficiente, para não perder a alma.
Moacir Rauber
Para escrever, leio e estudo o tempo necessário para entender determinado tema. Escrevo em etapas. Crio o meu prompt mental, penso, escrevo, apago, leio, pesquiso, escrevo, deixo descansar e, por fim, concluo. Desse processo não abro mão. Demora, aparecem as minhas limitações e até dói, mas sou eu. Por isso, ao ler um texto publicado por mim, esteja seguro de que se trata de uma Reflexão Livre de IA; trata-se de Inteligência Natural. É um Texto Humano.
Com inteligência artificial qualquer um pode escrever, quem quiser pode compor música ou poesia. Para usar a Inteligência Natural, vai ter que pensar, ler, estudar, aprende e vai doer, porque é humano. O resultado? Tem alma.
E o teu texto, tem alma? Então ele é HUMANO!
Moacir Rauber
Blog: www.facetas.com.br
E-mail: mjrauber@gmail.com








