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By Moacir Rauber

Falsidade Autêntica: é possível?

Falsidade Autêntica: é possível?

Por onde ele passava os cumprimentos eram efusivos, os elogios eram distribuídos a torto e a direito e o sorriso estava sempre presente. Ele era o rei da simpatia. Não esquecia as datas importantes de ninguém. No aniversário mandava um presente. No Natal, Ano Novo e Páscoa sempre enviava uma mensagem. A rede de relacionamentos dele era muito bem administrada. De tão atencioso que era, dava-nos a impressão de que não podia ser verdadeiro. Enfim, o que será que era autêntico por trás do comportamento do “Senhor Simpatia”?

Festa de final de ano. Todos reunidos. Chega um e outro. Os abraços, cumprimentos e sorrisos do “Senhor Simpatia” seguem cumprindo o seu papel, quase sempre acompanhados de um elogio:

– Caramba, a melhor caipirinha do mundo é você quem faz! Diz o “Senhor Simpatia” para um conhecido seu.

Nesse momento, outro presente que ainda não havia sido percebido pelo “Senhor Simpatia” se manifestou, “Ei, você sempre falou que a minha era a melhor do mundo…”. Um leve constrangimento. O “Senhor Simpatia” puxou o recém visto para o lado, deu-lhe um aperto de mão mais caloroso, fez-lhe um afago e cochichou-lhe ao ouvido, “Falei isso para ele apenas para agradá-lo. A tua é a melhor!” E ele seguiu para abraçar uma amiga que chegava.

É muito bom ser recebido com um sorriso, um aperto de mão ou um abraço ou ainda todos eles juntos. É muito bom receber um telefonema, uma mensagem ou um presente em datas especiais. Embora, tão importante quanto recebê-los é que eles sejam autênticos. Ao observar e refletir sobre o comportamento do “Senhor Simpatia”, imaginei que se ele fala isso para um também poderia falar para o outro. Com um é a melhor caipirinha, com outro é o abraço mais caloroso, com mais outro é o sorriso mais lindo e assim pode ser com relação a qualquer elogio do seu repertório. Fica a dúvida: o que será autêntico no comportamento do “Senhor Simpatia”? Difícil saber, porque estamos ensinando muitas técnicas de como fazer para parecer algo que não se é e esquecemos do mais importante que é ser aquilo que se parece. Você quer parecer simpático ou você é simpático? Você quer passar a impressão de ser competente ou você é competente? A sua rede de relacionamentos é de pessoas com quem você se importa ou apenas de pessoas que importam para você? Para tudo existe uma técnica de como fazer para parecer ser, muitas vezes, o que não se é. Pode-se encontrar informações sobre as técnicas de como dar um abraço para que ele pareça verdadeiro sem que a pessoa queira dar um abraço verdadeiro. Existem as técnicas para dar um aperto de mão que passe a impressão de ser respeitoso, de parecer amistoso e de exibir força sem que haja respeito, amizade ou força. E não para por aí. Ao preparar alguém para se candidatar a uma vaga de emprego, nós ensinamos como o candidato deve se comportar na entrevista para falar aquilo que o entrevistador quer ouvir e não para exibir a real competência para a vaga.

Assim seguimos ensinando e aprendendo técnicas para se passar uma determinada impressão sem a real preocupação em ser aquilo que se aparenta ser. Com isso, vive-se um momento em que o único comportamento autêntico, de muitas pessoas, é a falsidade.

Particularmente, acredito que as técnicas que aprimoram o desempenho em qualquer área são importantes para que sejamos mais educados, e isso se aplica às relações sociais. Podemos e devemos usar todos os recursos comportamentais e tecnológicos para melhorarmos as nossas relações sociais e profissionais. Entretanto, penso também que as técnicas devem ser complementares ao sentimento, à emoção e à vontade de se relacionar, que devem autênticas. Transfere-se, desse modo, autenticidade à imagem que se passa por meio da técnica. Por isso, é bom parecer autêntico, mas é fundamental ser autêntico.

É possível melhorar isso no ambiente organizacional? Se é possível ser autenticamente falso, é muito mais fácil ser autenticamente verdadeiro. Basta que as pessoas sejam transparentes no processo de contratação, nas formas de comunicação, na atribuição dos papéis e das funções, nos processos de treinamento e desenvolvimento e até no momento do desligamento. Autenticidade com respeito permite que cada um seja autenticamente verdadeiro.

Moacir Rauber

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Qual é o seu juramento?

As pessoas quando vão a um hospital, normalmente, estão em um momento difícil. Elas vão para visitar alguém querido que está no hospital ou elas mesmas estão hospitalizadas. Dificilmente alguém vai fazer turismo no hospital para visitar e agradecer aos enfermeiro(a)s. Na última semana fui parar num hospital por um acidente que tive. Já sou usuário de cadeira de rodas, o que me limita a mobilidade que ficou ainda mais prejudicada. No hospital a percepção do tempo muda. Um minuto vira uma hora facilmente que parece uma eternidade. O que pode fazer a diferença para que as dificuldades do paciente sejam minimizadas? Como diminuir a dor de quem lá está sem querer lá estar? É aí que entra o trabalho dos médicos, do(a)s enfermeiro(a)s e da equipe de manutenção. A qualidade de atendimento faz toda diferença para uma rápida recuperação de quem se encontra enfermo. E como fazer para que o atendimento seja de qualidade? Não creio que haja uma única resposta, mas parte dela eu encontrei na semana em que passei hospitalizado. Fui tratado por pessoas que vivem a plenitude do conceito de sua profissão: o(a)s enfermeiro(s).

Até ser encaminhado ao hospital nunca havia pensado na definição de enfermagem como profissão. Agora que estou em casa fiquei pensando em quão bem fui tratado. Fui assistido com respeito às minhas necessidades básicas, considerando as minhas limitações. Fui tratado com cuidado para que a minha reabilitação ocorresse de maneira mais rápida. Fui ensinado a tomar medidas de autocuidado para promover a saúde em todas as suas dimensões. Assim, ao olhar um dos conceitos de enfermagem como sendo “a ciência e a arte de assistir ao ser humano (indivíduo, família e comunidade), no atendimento de suas necessidades básicas; de torná-lo independente desta assistência, quando possível, pelo ensino do autocuidado, de recuperar, manter e promover sua saúde em colaboração com outros profissionais” (http://saudeevidavidaesaude.no.comunidades.net/conceito-de-enfermagem). No momento em que li o conceito de enfermagem entendi que ele estava sendo vivido pelo corpo de enfermeiro(a)s que me atenderam. Entrava um, saía outro e os cuidados continuavam focados no paciente. Desse modo, se o objetivo da enfermagem é “a promoção, conservação e restabelecimento da saúde, dando especial atenção aos fatores biológicos, psicológicos e socioculturais, e com absoluto respeito pelas necessidades e direitos da pessoa a quem se presta esse tipo de serviço” (https://www.portaleducacao.com.br/conteudo/artigos/educacao/o-conceito-de-enfermagem/28733), o objetivo estava sendo alcançado por aqueles profissionais enfermeiro(a)s que me atendiam.

Enfim, foi nessa situação que a pergunta do título surgiu, Qual é o seu juramento? Todas as profissões têm um juramento solene no momento da colação de grau, entretanto, sabe-se muito bem que são muitos os profissionais que não respeitam o juramento e não vivem de forma a honrar o conceito e os objetivos da profissão. Naqueles profissionais que encontrei no período em que estive hospitalizado senti o juramento sendo vivido. Em uma de suas versões o profissional de enfermagem diz: JURO “Dedicar minha vida profissional a serviço da humanidade, respeitando a dignidade e os direitos da pessoa humana, exercendo a Enfermagem com consciência e fidelidade; guardar os segredos que me forem confiados; respeitar o ser humano desde a concepção até depois da morte; não praticar atos que coloquem em risco a integridade física ou psíquica do ser humano; atuar junto à equipe de saúde para o alcance da melhoria do nível de vida da população; manter elevados os ideais de minha profissão, obedecendo os preceitos da ética, da legalidade e da mora, honrando seu prestígio e suas tradições”. Esse é o juramento que está alinhado com o conceito e com os objetivos da enfermagem que senti serem vividos pelo corpo de enfermeiro(a)s do hospital onde estive internado.

Qual é a sua profissão? Qual é o seu juramento? Você o vive na prática? As respostas para essas perguntas não sei, mas quero registrar aqui que são muitos aqueles que vivem em conformidade com o juramento de sua profissão simplesmente ao tratar o paciente/cliente com Amor e Respeito.

(Inspirado no Corpo de Enfermagem do HCO)

Moacir Rauber

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Poderia ter sido pior…

Lá ia ele visitar o amigo que sofrera um acidente. O sujeito estava todo estropeado e ficaria por um bom tempo fora de circulação pelas sequelas físicas. Na chegada do amigo, cheio de dores, ele esboçou um sorriso. Os comentários do visitante eram famosos pela sua presença de humor, às vezes, um pouco maldoso. Os dois começaram a conversar. O acidentado explicou o que havia acontecido. O visitante prestava atenção. Era realmente impressionante como um pequeno detalhe, o descuido ou a falta de prevenção podem fazer estragos na vida de qualquer um. Ao final da exposição, o amigo visitante comentou:

– É realmente complicado. Mas olhando daqui acho que “poderia ter sido pior…”

O amigo acamado se remexeu nervosamente no leito. Como é que alguém em sã consciência poderia dizer que poderia ter sido pior? Porém, ele observou o sorriso irônico no rosto de seu amigo e, logo, perguntou:

– Como assim? Poderia ter sido pior?

O amigo visitante exibiu um largo sorriso antes de responder:

– Poderia ter sido comigo…

O acamado não resistiu e riu também.

É um diálogo que aconteceu entre dois amigos, que revela uma intimidade que somente está presente na confiança de uma grande amizade. Porém, a observação tem lá as suas razões de ser. Primeiro, ela revela a visão otimista a partir da percepção de mundo de um pessimista. Acredito ser interessante a observação do pessimista num momento em que todos são induzidos a serem apenas otimistas. Entendo que ser positivo ou otimista não se trata de negar o negativo ou ser pessimista, mas sim de entender o negativo ou o pessimismo para extrair o positivo e o otimismo. Segundo, a expressão expõe que cada um deve cuidar dos seus problemas, porque não há situação mais difícil do que aquela vivida por cada um quando se está com um problema. E nesse ponto entramos numa tendência em que as pessoas buscam negar o negativo para expor apenas o positivo. Nos dias correntes, as vidas das pessoas expostas nas redes sociais retratam o positivo de tal maneira que faz com que o outro creia que a sua própria existência é um fracasso. O mundo virtual criou a possibilidade de que cada ser humano seja a estrela do próprio show. As fotos, as postagens e os vídeos mostram o sucesso individual no trabalho e no amor. As pessoas se esforçam para compartilhar detalhes de uma vida glamourosa que expresse uma realidade, muitas vezes, inexistente. É importante estar bem no trabalho e no amor? Claro que sim. Acho que devem ser compartilhadas as boas experiências a que cada um tem acesso. Entretanto, sabemos que a vida não é sempre um mar de rosas, embora muitas pessoas tenham a necessidade de passar essa impressão. Entendo ser esse um movimento resultado de um individualismo que ultrapassa o respeito à individualidade na busca pela atenção. Todo o ser humano precisa de atenção, mas encontrar o equilíbrio entre a exposição e o recato para entender o negativo de forma otimista a partir de uma visão positiva ainda que se tenha uma vertente pessimista é essencial.

É fácil? Não, é preciso de bom senso que não é uma medida exata. Aquilo que pode ser bom senso para um não o é para o outro. Afinal, tudo está ligado ao comportamento humano representado numa infinitude de visões e de interpretações de mundo originados na individualidade de seres múltiplos. Entretanto, por meio do estudo e da aquisição de conhecimento podemos melhorar o bom senso e aprimorar a nossa intuição, porque, afinal, são esses seres que nós somos e com que nos relacionamos. São essas as pessoas que nós gerimos, ou por quem somos geridos, atendemos, convivemos, compartilhamos, vendemos e, quando bons gestores, resolvemos os seus problemas.

Enfim, antes de invejar a vida maravilhosa do outro, que nem sempre é resultado das suas próprias competências, lembre-se que o que parece ser positivo para um pode não ser se aplicado a mim. Mais uma vez, creio que a fala do “poderia ter sido pior, poderia ter sido comigo” revela uma visão otimista da perspectiva de um pessimista que reconhece o positivo ainda que de forma negativa.

Moacir Rauber

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Não se ensina truque novo para cachorro velho…

Lá estava eu com minha aluna de dezenove anos que comentava sobre o seu avô desempregado e que se recusava a voltar a estudar. Ela disse:

– Ele tem muitas ideias fixas. Talvez ele já seja muito velho para aprender algo novo…

– Quanto anos ele tem?

– 54.

– Hum, você está me chamando de velho? Eu tenho 53…

Ela ficou constrangida. Eu ri. Ela se explicou, dizendo que ela não achava o avô velho, mas realidade ele é que se achava velho para fazer uma faculdade ou mesmo para se inscrever num curso profissionalizante. Ela o incentivava e o desafiava para procurar algo novo para fazer, porém ele resistia. Concordo com a análise dela. Ninguém com cinquenta e poucos anos precisa ser velho, mas qualquer um pode ser velho. A postura do avô da minha aluna dá razão a expressão “não se ensina truque novo para cachorro velho”. Porém, será a expressão verdadeira?

Acredito que há muito conhecimento nas expressões populares que representam o conhecimento do senso comum. São tantos os ditados que carregam em si conhecimento e sabedoria que a ciência terá ainda muito trabalho pela frente até que consiga entendê-los, explicá-los, comprová-los e/ou refutá-los. Porém, nem todos os ditados devem ser internalizados como verdades absolutas, cabendo a nós discernir entre àqueles que trazem em si sabedoria e àqueles que nos induzem a assumir crenças que nos limitam.

Nas minhas andanças envolvo-me com pessoas dos oito aos oitenta anos. Muitas vezes, vejo jovens que se comportam como velhos e idosos que agem como jovens. Com relação a aprendizagem encontro a mesma realidade em total desacordo com a expressão de que não se pode ensinar truque novo para cachorro velho. Há jovens e idosos que acreditam que já sabem de tudo e que não precisam e não conseguem aprender mais nada. Por outro lado, há jovens e idosos que acreditam que podem continuar a aprender, porque a plenitude da vida se revela na aprendizagem contínua. Entendo que ao manter a mente aberta para a aprendizagem se pode continuar a ter novas experiências, independentemente da idade.

A realidade de que se pode aprender sempre está comprovado pela neurociência que constatou a neuroplasticidade cerebral que permite que o fenômeno da aprendizagem seja uma escolha individual. Da mesma forma, a história é rica em exemplos de idosos sábios e a sabedoria somente se consegue alcançar com a aprendizagem contínua. Porém, percebo que a expressão “não se ensina truque novo para cachorro velho” permeia boa parte das pessoas em nossa sociedade. É uma expressão até simpática, mas extremante prejudicial para quem internaliza a suposta verdade presente nela, impedindo-as de se apropriarem da vida em todas as suas fases. Jovem? Adulto? Idoso? Pouco importa, o ditado “não se ensina truque novo para cachorro velho” não se aplica às pessoas, porque o Ser Humano pode aprender sempre. Depende das escolhas, inclusive das do avô da minha aluna.

Importante destacar que o ditado foi criado e dirigido a um cachorro mais velho que na visão de seu dono não aprendia mais. Porém, o ditado foi desmentido inclusive para os cães, porque o programa televisivo “Caçadores de Mito” comprovou que cachorros velhos também aprendem.

 

Moacir Rauber

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As crianças querem crescer 1

O esporte é uma escola da vida. Estive num clube de remo que aos domingos pela manhã recebe por volta de cinquenta remadores mirins. É encantador ver o empenho e a dedicação daqueles jovens atletas. Cada um deles, com seus sete, oito ou nove anos, tem as suas responsabilidades. Os adultos carregam os barcos do barracão até a água, mas eles precisam carregar os seus remos. Peças do equipamento que medem quase quatro metros, embora não pesem mais de um quilo. No retorno, eles precisam lavar os barcos. Chega a ser emocionante observar o ir e ver daqueles pequeninos carregando os seus remos ou lavando os seus barcos, exibindo nos seus rostos a expressão de orgulho por estar contribuindo com a sua parte no processo de aprendizagem de um novo esporte.

As crianças querem aprender. As crianças têm vontade de crescer. Por que então se tem uma geração de adolescentes de quarenta anos? Por que tantos jovens não conseguem assumir as suas responsabilidades ou entender que as suas ações ou não ações impactam as pessoas a sua volta?

Certamente que se trata de uma perspectiva de quem observa parte do processo. Parece-me que parte dos pais não quer deixar que os filhos cresçam ao navegarem entre dois extremos no processo de educação, o excesso e a falta de atenção. Por um lado, vê-se um grupo de pais que criam os seus filhos numa bolha de proteção com a ideia de não deixar que seus filhos nunca sintam nenhum tipo de frustração. Os pais querem ser os responsáveis pela felicidade dos filhos e passam a paparicá-los como se fossem príncipes e princesas. Adotam a postura de superproteção, passando a mensagem para os filhos de que eles não são capazes de se responsabilizarem pela própria felicidade. Subliminarmente, chamam os seus filhos de incompetentes. Por outro lado, um grupo de pais não dá a devida atenção aos filhos que crescem rodeados de presentes num ambiente hiper estimulado com a sensação de serem um estorvo na vida dos próprios pais. Assim, os aparelhos e equipamentos eletrônicos mantêm as crianças tão ocupadas que elas não têm tempo de se frustrarem ao não viverem as emoções reais dos desafios presentes no relacionamento humano. Em ambos os casos, entendo que não se trata de amor, mas de egoísmo, resultado de um movimento narcísico por parte de pais que não aguentam a ideia de ser mal avaliados pelos filhos. O que acontece nos dois extremos? Os pais criam pessoas com Deficiência Emocional.

A superproteção ou a falta de orientação impede a que os filhos cresçam emocionalmente, relegando-os o papel de fracos e alienados.

Crianças naturalmente criativas, bondosas e generosas se tornam apáticas, chatas e mimadas. Foi-lhes roubada a autonomia, porque elas não aprenderam a esperar, a negociar, a ceder ou a se frustrar. Não desenvolveram os músculos emocionais que crescem nos momentos de dor e de tristeza que naturalmente devem fazer parte de nossas vidas. Por fim,

os pais criam filhos que se tornam aleijados emocionais e tiranos sociais que escravizam os pais ao não assumirem o protagonismo da própria vida.

Aos quarenta anos ainda estão em casa sendo tratados como crianças.

Ao observar os atletas mirins, percebe-se que as crianças querem crescer e querem ser responsáveis. As crianças querem assumir o protagonismo das suas vidas, bastando para isso que os pais não os tratem como incompetentes pela superproteção ou como um estorvo pela falta de tempo. E os esportes trazem em sua natureza o benefício de assumir a responsabilidade. É preciso disciplina e respeito para desenvolver as competências do esporte e também do relacionamento com os outros. É preciso suportar algumas chateações, como carregar os remos e lavar os barcos, para desfrutar do prazer de remar por lazer ou competição. É fundamental passar pela frustração de não poder remar em dias de muito vento. Juntamente com as habilidades esportivas são desenvolvidas as competências emocionais reais que vão permitir que as crianças cresçam e se transformem em adultos responsáveis por suas escolhas. Enfim, …

… é essencial vivenciar as dificuldades para poder modular a felicidade de ser um adulto responsável por si mesmo no respeito das relações com os outros.

Príncipes? Tiranos? Adolescentes de quarenta anos? Deixe-os para os filmes e a ficção.

 

Moacir Rauber

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Uma caixa d´água ou uma piscina?

Tenho uma amiga que é fora da caixa. Ela lê muito, fala sobre diversos assuntos, participa da vida social intensamente, luta para ter o que deseja e, principalmente, diverte-se com aquilo que tem. Lembro-me do dia em que fui visitá-la em sua casa pela primeira vez, isso há quinze anos. Estacionei em frente da casa, desembarquei e fui recebido pelo seu marido, também meu amigo. Conversamos e logo perguntei pela minha amiga. Ele disse:

– Ela está lá nos fundos. Na piscina… e deu uma risadinha meio irônica.

Não entendi muito bem na hora. Cruzamos pela garagem em direção aos fundos da casa. Era meia tarde e o sol brilhava intensamente, prejudicando a visão. Entretanto, pude ver um terreno baldio, uma pequena edícula na lateral e no meio do terreno algo parecido com um buraco cheio de água e um guarda sol. Pensei que talvez a piscina estivesse noutro lugar, mais distante, porém de repente vejo a minha amiga sair da edícula e se jogar dentro daquele buraco respingando água para todos os lados. Entre as gargalhadas ela me cumprimentou e disse:

– Você ainda não conhecia a minha piscina, não é?

E lá veio mais uma risada.

Foi assim que eu encontrei a minha amiga num dia de verão de 40 graus naquela caixa d´água de mil litros batizada de piscina.

A piscina era o desejo dela. A caixa de água era a sua realidade. Infeliz por isso? Não, nem um pouco. Criatividade e bom humor? Sim, a criatividade para transformar uma realidade não ideal na realidade em que se pode desfrutar daquilo que se tem com bom humor.

Muitos, provavelmente, ficariam tristes ou se lamentariam porque não tinham a piscina ideal para poder se refrescar no verão. O foco da maioria das pessoas sempre está voltado para tudo aquilo que elas não têm. Parece que somente poderiam ser felizes caso tivessem o ideal daquilo que desejam. Por isso, lamentam-se, “Se eu tivesse uma piscina eu seria feliz”; “Se eu tivesse um carro novo eu seria feliz”; “Se eu tivesse um emprego melhor eu seria feliz”; “Se eu tivesse uma namorada eu seria feliz”; e assim seguem as lamentações pelo que não tem sendo infelizes com aquilo que tem. E você, está bem com aquilo que tem?

Alguns poderiam dizer que sentar numa caixa d´água e acreditar que se está numa piscina é uma fuga da realidade. Particularmente entendo que não. Acredito que foi o início do processo de construção de uma realidade, porque hoje a minha amiga tem uma piscina real na frente da sua casa. Na mente dela, todos os dias ao chamar aquela caixa d´água de piscina ela fazia algum movimento para que o desejo se transformasse em realidade. Ela se refrescava na caixa e lembrava do que podia fazer para mudar essa realidade. Depois ela fazia. Era a projeção de um sonho com movimento. Eis a diferença.

Desse modo,

“É fundamental desfrutar daquilo que se tem e lutar por aquilo que se quer”.

O seu carro não é o ideal para você? Cuide daquele que você tem, usufrua dos benefícios que ele traz e mova-se em direção a conseguir o veículo pretendido. O seu trabalho não é o desejado? Dedique-se a sua função como se ela fosse o melhor trabalho do mundo que certamente você estará se movendo na direção de conseguir o melhor trabalho do mundo. Não tem uma namorada? Aproveite o que a vida lhe oferece, seja feliz com as relações que você tem e a namorada virá também.

Ser feliz com aquilo que se tem não é se acomodar com aquilo que se tem.

Trata-se de desfrutar da realidade atual e trabalhar com dedicação e leveza em direção à realidade desejada.

Um caixa d´água ou uma piscina? Depende da perspectiva. A minha amiga é fora da caixa porque ela consegue ver uma piscina numa caixa. E a felicidade? Ela está dentro de cada um.

Moacir Rauber

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