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Facetas!


Somos Únicos.
Somos Múltiplos.
By Moacir Rauber

O mundo era V.U.C.A.? Agora o mundo é B.A.N.I.?

Participar de eventos que tratem da interpretação do mundo é essencial para se manter conectado com o mundo. Entretanto, muitos modismos ditam regras para um mundo, que no meu ponto de vista, nem sempre é real. Em tempos de tweets e lives as frases de efeito tem recebido muito mais destaque configurando-se, muitas vezes, como a base do conhecimento para muitas pessoas. Decisões empresariais são tomadas, costumes são alterados e ídolos são construídos da noite para o dia, assim como reputações são destruídas num piscar de olhos a partir do momento que alguém cria uma hashtag que emplaca. Muita agilidade na superficialidade das pessoas que não tem tempo para desenvolver um conhecimento que as leve a exibir comportamento sábios. Nessa realidade, os palestrantes que iniciavam uma conferência explicando o mundo a partir do VUCA arrancavam suspiros da plateia. O VUCA, que imperou por volta de duas décadas, é passado. Recentemente surgiu o BANI para explicar o mundo em eventos de empreendedorismo, gestão de pessoas, competitividade, inovação ou transformação na Era Digital. Particularmente, acredito que mais uma vez usa-se uma interpretação simplista da realidade humana ao transferir a responsabilidade sobre um mundo interno para o ambiente externo. Era o mundo realmente VUCA? E agora, o mundo é BANI?

O acrônimo VUCA quer dizer volátil, incerto (uncertain), complexo e ambíguo, enquanto BANI representa frágil (brittle), ansioso, não-linear e incompreensível. No VUCA, dizia-se que nós vivíamos num mundo volátil, em que a realidade poderia simplesmente se evaporar de um momento a outro. No BANI, diz-se que se vive num mundo frágil, em que tudo pode se quebrar com facilidade. Entendo que no mundo físico externo a água sempre se volatiliza nas mesmas condições e as estruturas se quebram sob a mesma força. Por isso, a volatilidade e a fragilidade são nossas, porque nos volatilizamos e nos quebramos de forma diferente frente a situações similares. No VUCA, dizia-se que o mundo era incerto. No BANI, diz-se que o mundo é ansioso. Entendo que o mundo é o que é desde que existe. Nós como pessoas temos incertezas e ansiedades, porque essas são sensações que nós temos em relação ao mundo. No VUCA, dizia-se que o mundo era complexo e no BANI, diz-se que o mundo é não-linear. Porém, ao dizer que o mundo é complexo transferia-se para o ambiente externo a nossa incapacidade de compreender uma lógica estabelecida no mundo natural, assim como ao dizer que ele é não-linear não exploramos a nossa capacidade de ver o mesmo mundo sob diferentes perspectivas. No VUCA, dizia-se que o mundo é ambíguo e no BANI se diz que o mundo é incompreensível. Particularmente acredito que a ambiguidade, assim como o incompreensível estão associados a nossa não-linearidade, a nossa complexidade, a nossa ansiedade, a nossa insegurança, a nossa fragilidade e a nossa volatilidade. Ser ambíguo é normal. Estar diante de algo incompreensível pode ser um desafio e um exercício de humildade.

Quem é VUCA? Quem é BANI? O mundo? Não acredito. Tenho a convicção de que eu sou VUCA e BANI! Reconhecer-me como tal me permite fazer as escolhas de um ser humano que quer se desenvolver. Se o mundo é o que é desde que existe, eu posso fazer do mundo o lugar que eu quiser fazer. VUCA, BANI, virtual, físico, digital ou analógico? O que importa é estar presente com as escolhas que se faz no ambiente interno que vão refletir no ambiente externo. Assim, pode-se aproveitar o encanto da flor, a força da chuva e o calor dos raios do sol num movimento contínuo rumo a um mundo melhor que pode nascer dentro de cada um.

E o mundo? Ele é o que é. E as pessoas? Cada uma pode escolher o que quiser ser e fazer.

Moacir Rauber

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Sou um professor doutor!!! E daí?

Há muitos anos eu era administrador de uma escola de espanhol e estudava nela. A nossa aula havia começado às 8h e, apesar de ser segunda-feira, estava animada. Ríamos das diferentes expressões encontradas na língua de Cervantes. De repente ouço uma confusão na recepção. Saí da sala rumo a secretaria e no caminho encontrei a secretária chorando. Ela me disse que uma senhora entrara na escola e ameaçou chamar a polícia caso a tradução não estivesse ali em quinze minutos. Nesse momento eu já sabia de quem se tratava…

Na sexta-feira anterior eu atendera uma professora da universidade, que recém havia chegado na cidade vinda da capital. Ela havia nos procurado para fazer uma tradução de um artigo que seria enviado para um congresso no exterior. Eu lhe havia dito que era tarde e teríamos pouco tempo para fazer o trabalho. Ela, gentilmente, insistiu, dizendo-me que era importante, caso contrário ela perderia o congresso. Dispus-me a procurar por um professor que aceitasse o trabalho. Por fim, um dos professores aceitou fazer a tradução, que deveria ser entregue até às 11h da segunda-feira. Estranhei, porque no momento da confusão eram 9h. Ela estava irritadíssima. Cumprimentei-a e fomos até a minha sala. Ela me olhou com raiva e começou a gritar:

– Não pense que só porque você me convidou para a sua sala isso vai ficar assim… Eu sou uma Professora Doutora… e continuou descrevendo toda a sua formação, além de insultar a secretária e a mim. 

Eu a escutava sem nenhuma reação. Deixei-a continuar esbravejando. Finalmente, ela não encontrando mais impropérios, calou-se. Eu aproveitei para perguntar:

– Posso falar?

Abri a minha gaveta, retirei um bloco de orçamentos, mostrei-lhe o documento que ela havia assinado e perguntei-lhe num tom de voz calmo, porém sarcástico:

– A senhora saber ler? Veja o que a senhora assinou na sexta-feira. E por favor, leia o horário que foi combinado para a entrega do serviço…

Sem alterar a voz, continuei:

– Digo-lhe mais. Se a tradução não estiver aqui até às 11h eu lhe pago uma viagem para onde a senhora quiser ir… Agora a senhora pode se retirar e voltar no horário combinado.

Ela empertigou-se toda e saiu. No horário combinado ela estava de volta. Mostrei-lhe o documento e disse:

–  Antes exijo que a senhora peça desculpas para a secretária.

Na saída da professora doutora agradeci:

– É muito bom que a nossa cidade receba pessoas com tamanha qualificação e educação vindas de centros maiores. Nós realmente temos muito que aprender com pessoas como a senhora…

Esse episódio demonstra claramente que se o conhecimento não servir para melhorar as pessoas como seres humanos ele perde a sua função. Ser doutor ou doutora em qualquer área não deveria dar prerrogativas, mas sim o compromisso de melhorar o ambiente em que se atua. Isso porque os doutores do saber representam a elite em seu sentido mais amplo. Não tem falta de recursos econômicos para levar uma vida digna e ainda desfrutam do prestígio de um título conseguido. O título é resultado dos seus esforços, sim, entretanto somente é possível pelo acúmulo de conhecimento de toda a humanidade. E na grande maioria das vezes, o título de doutor é resultado da contribuição compulsória da comunidade que mantém os centros que produzem doutores.

Por fim, acredito que o conhecimento faz toda a diferença para melhorar a qualidade de vida das pessoas, desde que acompanhado da humildade e do respeito. “Sou professor doutor”. E daí? Se não for para ser melhor como pessoa, para que serve ser doutor? Para que serve o conhecimento?

Moacir Rauber

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(Re) Criar a Humanização? É preciso compostar a vida para transformar e inovar

(Re) Criar a Humanização?

É preciso compostar a vida para transformar e inovar

Escutava como o jardineiro que, antes era apenas um trabalhador, havia se transformado em jardineiro. Ele dizia que fora contratado para cuidar do jardim do monastério. O espaço era lindo. Ele foi orientado a cortar a grama no momento adequado, a podar as árvores quando se fazia necessário e a regar as plantas sempre que faltava água. Ele, igualmente, aprendeu a produzir e a repor adubo para aquelas plantas que pareciam ter menos vigor. Como trabalhador, ele desempenhava a sua função porque era dela que ganhava o seu salário para alimentar a sua família. Tudo isso era supervisionado pelo monge que se encantava com a beleza da natureza e o seu processo de transformação, enquanto o trabalhador que ainda não se via como jardineiro, não entendia muito bem a importância daquilo tudo. Dia após dia as conversas com o monge sobre as conexões e a interdependência do que ocorre na natureza passaram a fazer sentido para o jardineiro. Começava a transformação do trabalhador em jardineiro. Qual era o sentido daquilo que ele fazia? Esse era o ponto. Isso ficou claro para o jardineiro numa conversa mais longa que teve com o monge que refletiu sobre o processo:

– Tudo se transforma na natureza, assim como nas pessoas… e trouxe o exemplo da compostagem que produzia o adubo orgânico que usavam no jardim.

A reflexão do monge começava sobre a importância de mudar a forma de entender o “homem” (espécie) e a natureza. Não se trata de pensar “o homem e a natureza”, mas de construir o mundo sabendo que o “homem” é parte da natureza. Ele não está a parte dela, dizia. A natureza em sua essência é sábia, por isso ela deve ser reconhecida para que a humanidade a ela se reconecte, humanizando as relações e as organizações. Como é possível ser necessário humanizar se somos humanos? Arrematou. Entende-se que o Ser Humano, ao se colocar a parte da natureza, perdeu parte da sua humanidade. Portanto, o passo essencial no presente é (Re) Criar a Humanização para Transformar e Inovar com e não contra a natureza. O monge voltava a introduzir a analogia da compostagem como um exemplo de humanização, transformação e inovação. Entenda-se que compostar é a ação da decomposição da matéria orgânica que gera adubo natural. Assim, compostar é transformar, que é o movimento de passar de uma forma a outra ou de um estado a outro. Dessa forma, transformar é inovar, que é tornar algo novo, renovar, restaurar ou simplesmente fazer algo de forma diferente daquela que era feita. Aquilo que ele explicava acontecia, porque enquanto o monge falava o trabalhador se transformava. As cascas, os restos, a madeira e tudo que é orgânico se transforma. Nós, seres humanos, somos orgânicos e precisamos aprender a nos transformar e a inovar com humanidade. O que fazemos com as emoções? Como transformamos os sentimentos? Perguntas inquietantes que o monge fazia para si mesmo e para o seu ouvinte. Sua reflexão seguia enquanto os dois acrescentavam mais uma camada de restos orgânicos na composteira. A partir dessa conversa a transformação do trabalhador em jardineiro ficava clara para o jardineiro, porque ele entendeu o sentido daquilo que fazia. Cuidar, podar e regar as plantas do jardim passou a ser muito mais do que um trabalho para o jardineiro, tornou-se um modo de vida. Ao entender que o seu trabalho gerava bem estar e qualidade de vida para outras pessoas, o jardineiro se humanizou e se transformou, passando a inovar no jardim do monastério. O jardim está ainda mais lindo!

Enfim, acredito que compostar as nossas emoções e os nossos sentimentos permitirá que transformemos os nossos restos emocionais em adubo que vai nos impulsionar para transformar e inovar com humanidade. Afinal, se somos humanos qual é o sentido de não agirmos com humanidade? Precisamos aprender a compostar a vida para seguirmos conectados como humanos.

Moacir Rauber

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Inspirado por: Guillermo, “mais um jardineiro no mundo”

Até que de repente…

Até que de repente…

De repente, do nada, fica-se sabendo que um amigo se sagra campeão olímpico, que outro conseguiu um emprego sensacional e um terceiro tem uma empresa de sucesso. A maioria das pessoas se espanta. Muitas delas pensam e falam:

Mas que sujeito de sorte. Nasceu com aquilo virado pra lua mesmo!!!

Entretanto, quase nunca as pessoas se lembram que o “de repente” foi construído gradativamente. Como se conquista uma medalha olímpica? Qual o caminho para o trabalho sonhado? O que fazer para construir uma empresa de sucesso?

Aprofundando-se um pouco na história da conquista de uma medalha olímpica, por exemplo, pode-se entender que o “de repente” pode ser dividido em anos de treinamento e dedicação. Esses anos são divididos em meses, em semanas, em dias e em sessões com horas intermináveis de repetições dos mesmos exercícios. O “de repente” que os outros veem não passa de uma rotina diária que leva a pequenos ganhos gradativos. São exercícios para ganho muscular, força e resistência. São outros exercícios para melhorar a técnica. São os estudos para acompanhar a reação do próprio organismo frente aos diferentes tipos de treinos. São as análises para a acertar a regulagem dos equipamentos, em esportes como o remo que usam barcos. É a busca constante de informações sobre novas técnicas e os índices dos outros atletas. Essa rotina somente é sabida por quem se dispõe a percorrê-la. E isso se aplica àquele que conquistou o emprego sensacional e àquele que viabilizou a sua empresa. Podemos falar das competências socioemocionais que são as responsáveis pela excelência das competências técnicas. O atleta precisou de muita resiliência, confiança e determinação para manter o foco naquilo que queria enquanto os seus amigos estavam na mesa de um bar. A pessoa que conquistou o emprego sonhado precisou de muita aprendizagem, flexibilidade mental e espírito de equipe para alcançar a vaga sonhada, enquanto os demais estavam vendo suas séries preferidas. O amigo que “de repente” era um empresário de sucesso desenvolveu muito domínio próprio, competitividade e autonomia para que a empresa pudesse se manter no mercado, enquanto muitos jogavam a culpa nos demais pelos próprios problemas. São todas competências socioemocionais que validam as competências técnicas para ser um exímio atleta, um excelente colaborador e um notável empresário. Nada aconteceu “de repente”. São todos eles exemplos de superação de pessoas que souberam fazer as escolhas. Certamente eles precisaram de ambição e se perguntaram: o que eu quero? Tiveram que exibir energia e se indagaram: quanto vale para mim o que eu quero? Aprofundaram-se no autoconhecimento para descobrir: quem sou eu? As minhas escolhas vão me levar para onde quero ir? Por isso, são poucas as coisas que acontecem “de repente” na vida. Quase tudo acontece gradativamente até que de repente se está diante de uma conquista.

Enfim, sempre que se vê alguém em uma posição de destaque na sua área, antes de acreditar que o sujeito é um cara de sorte, lembre-se: há uma história, um caminho e muito esforço resultado de escolhas individuais que levou a que essas pessoas superassem as dificuldades e alcançassem os seus objetivos. Porém, entenda-se que a superação não é algo extraordinário. A superação é a capacidade de realizar atividades ordinárias que produzem resultados extraordinário “de repente”.

O que aconteceu “de repente” na sua vida?

Moacir Rauber

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Proteja esta casa dos tigres!

Proteja esta casa dos tigres!

Toda manhã a mulher vai até a frente de sua casa e grita:

– Proteja esta casa dos tigres!

Logo em seguida ela volta para sua casa e segue a rotina diária. Finalmente um vizinho que acha aquilo tudo muito louco toma coragem e vai falar com ela:

– Por que você faz isso todo dia? Não há tigres aqui. Eles estão há milhares de quilômetros…

Ela responde:

– Tá vendo? Funciona!

Outra das piadas extraídas do livro Plato and Platypus walk into a Bar… (Thomas Cathcart & Daniel Klein). É um convite à reflexão de como, muitas vezes, desenvolvemos hábitos e comportamentos que não produzem nenhum resultado e estão completamente desconectados da realidade. Isso vale para as pessoas e para as organizações. Quantos hábitos e costumes que nós conservamos que não acrescentam nada em nossas vidas? Quantos tigres nós afugentamos todos os dias?

As organizações também têm os seus tigres. Os seus rituais, os hábitos e comportamentos exibidos por muitos líderes nas organizações, muitas vezes, são exemplos disso. Quem nunca se defrontou com a expressão, “Aqui sempre se fez assim…” e seguem afugentando tigres que não mais existem. Essa prática pode revelar uma cultura organizacional que oculta as próprias incompetências ao criar inimigos imaginários. Uma cultura é formada por políticas e diretrizes que são percebidas por todos, conectando-se à missão, aos valores e à visão. Igualmente, a cultura pode gerar sentimentos e atitudes não tão facilmente perceptíveis. Desse modo, a cultura mobiliza e estimula relações informais com o estabelecimento de normas de grupo que ratificam uma forma de ser organizacional a partir dos comportamentos individuais. Nada contra conservar elementos culturais que definem as fronteiras dos comportamentos, que dão um sentido de identidade, que estimulam a estabilidade das relações, que servem como orientadores de sentido e que mostram as regras do jogo. Afinal, a cultura define quem somos no jogo. Entretanto, é importante saber qual é o jogo que está sendo jogado. Uma cultura organizacional que cria os inimigos imaginários tende a sufocar comportamentos e atitudes que poderiam manter a organização no jogo. Afugentar tigres que não existem é conveniente para organizações incompetentes a partir de sua liderança. Ao escolher um inimigo externo a organização acusa para se escusar das responsabilidades. Com isso, inibe-se a inovação e a criatividade individual e organizacional; não se presta atenção aos detalhes do público interno e externo; perde-se o foco dos resultados; descuida-se das pessoas; fragiliza-se o espírito de equipe; exacerba-se a agressividade; e rouba-se a estabilidade das pessoas no ambiente organizacional. Um cultura organizacional com os inimigos externos, normalmente, cria um desfavorável clima organizacional interno, desperdiçando tempo, energia e as competências que poderiam levá-la a se manter competitiva. É fundamental conservar aquilo que nos define como pessoas e como organização, porém é essencial mudar para evoluir na direção que se quer.

Por fim, em tempos de rápidas mudanças tecnológicas é fundamental saber escolher o foco das ações. Onde está o inimigo? Já faz algum tempo que o ser humano não tem predadores naturais. Criar inimigos onde não há pode revelar um cultura de autossabotagem organizacional a partir da liderança que termina por limitar as pessoas que a compõem. Quais tigres você está afugentando?

Moacir Rauber

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Presença física ou virtual? Não importa…

Presença física ou virtual? Não importa…

Ao encerrar o primeiro semestre letivo da universidade foi feita uma avaliação sobre os resultados das aulas, das dificuldades, dos desafios e das aprendizagens. Tudo foi intenso. As dificuldades foram muitas desde o primeiro dia de aulas virtuais, assim como os desafios de elaborar estratégias para manter a conexão com os alunos. Como resultado dos desafios e das dificuldades vieram as aprendizagens, como a criação de materiais didáticos e a adoção de novas estratégias para as aulas presenciais que migraram para o ambiente virtual. Além do mais, ficou a constatação de que aquilo que é virtual não é antônimo de real, assim como virtual é presencial.

Aulas virtuais síncronas podem ser consideradas presenciais? Acredito que sim. No semestre, avaliei os resultados de duas turmas conforme a presença e a participação e, no final, elas fazem a diferença. Todos os professores foram orientados a continuar registrando a presença dos alunos em sala de aula. O conteúdo era passado, discutido, lido, apresentado, trabalhado individualmente e em grupos, assim como vídeos eram exibidos e seminários realizados. O desafio para os professores foi grande, porque a presença e a participação dos alunos exigiam foco e presença num movimento ativo de aprendizagem. As metodologias ativas nunca fizeram tanto sentido como nas aulas presenciais do ambiente virtual. Para o professor, quando os alunos se conectavam sem ligar a câmera, dava a sensação de estar falando sozinho, exigindo-lhe autoconfiança e energia para continuar. Para os alunos a exigência também aumentou, porque eles foram solicitados a participar e a interagir nos trabalhos individuais e em grupos com mais frequência. Precisavam ler, resumir, estruturar e apresentar seu entendimento sobre o tema em questão. Além disso, os alunos estavam em seu ambiente doméstico ou de trabalho sujeitos a distrações que resultava difícil manter o foco. O semestre iniciou com as aulas contando com a presença física dos alunos e dos professores, migrou para as aulas síncronas virtuais e, entre expectativas e frustrações, terminou com aulas presenciais virtuais. E o que foi constatado ao final? Examinei a presença no ambiente virtual e os resultados do processo de avaliação dos alunos realizado em âmbito nacional sobre o conteúdo ministrado. Fiquei impressionado com a relação entre a presença no ambiente virtual e os resultados positivos da avaliação. Nas duas turmas em que analisei caso a caso as notas finais estiveram diretamente ligadas a presença em sala de aula virtual. Alunos que participaram de todas as aulas tiveram as maiores notas. Alunos que menos participaram das aulas tiveram as menores notas. Destaque-se: as notas não foram atribuídas por mim. Portanto, entendo que aulas síncronas dadas no ambiente virtual são aulas presenciais.

Enfim, o virtual não é antônimo de real, mas pode ser antônimo de físico. A presença é outra questão. Estar num ambiente ou noutro vai muito além da presença física. Antes da pandemia as pessoas usavam a tecnologia de seus celulares para se ausentarem das salas de aula, ainda que fisicamente estivessem nelas. Nesse momento, as pessoas usam essa mesma tecnologia para estarem nas salas de aulas, ainda que não fisicamente. Certamente continuaremos a ter alunos e professores que estarão ausentes, seja no ambiente físico ou virtual, naquele processo em que um disfarça que ensina e outro faz de conta que aprende. Porém, essa é uma escolha individual. O que realmente importa para aprender e ensinar é quando entregamos aquilo que temos de mais valioso para com quem estamos: a nossa presença. Ambiente físico ou virtual? Não importa. Importa mesmo é que seja real!

Moacir Rauber

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Quem quer ser feliz?

Quem quer ser feliz?

A busca pela felicidade talvez seja o objetivo final de cada ser humano na sua jornada. Isso passa pela presença e pelo relacionamento com os outros, porque “nenhum homem é uma ilha” (Thomas Morus). Por isso, nos organizamos em sociedade com regras, condições e limites entre os direitos e os deveres individuais. Ao longo da sua história a humanidade modificou hábitos e costumes, bem como criou e desenvolveu a tecnologia que nos acompanha. Igualmente, a forma de transmissão do conhecimento sofreu alterações. Nas sociedades mais antigas eram os conselhos de anciãos que ditavam as regras, um costume transversal a quase todas as culturas, ainda que elas não tivessem conexão entre si. Assim foi na Grécia de Esparta, nas sociedades asiáticas ou nas comunidades indígenas das américas em que os conselhos de anciãos eram reverenciados. Eles também eram os responsáveis pela transmissão dos rituais, dos costumes e das diferentes mitologias que envolviam as mais diversas culturas. Aquilo que se transmitia presencialmente passou a ser registrado metodologicamente e a transmissão do conhecimento já não exigia a presença do outro. O grande conselho de anciãos foi substituído pela ciência. Porém, a busca humana continua sendo pela felicidade. O que isso nos revela?

A metodologia científica foi e é responsável pela melhoria de muitos indicadores de saúde e de qualidade de vida naquilo que se refere ao desenvolvimento de equipamentos, medicamentos, tratamentos e a tecnologia aplicada que se fundamentam na lógica. Considere-se ciência como o “corpo de conhecimentos sistematizados adquiridos via observação, identificação, pesquisa e explicação de determinadas categorias de fenômenos e fatos, e formulados metódica e racionalmente” (https://pt.wikipedia.org/wiki/Ci%C3%AAncia). Portanto, a aquisição e a transmissão de conhecimentos que usam o método científico precisam ser lógicas. Assim, entendo que ao usar a ciência para todas as áreas, inclusive substituindo o “conselho de anciãos”, se perdeu algo. O Ser Humano não é lógico. A sua busca é a felicidade. Entenda-se felicidade como sendo “um estado durável de plenitude, satisfação e equilíbrio físico e psíquico, em que o sofrimento e a inquietude são transformados em emoções ou sentimentos que vão desde o contentamento até a alegria intensa ou júbilo” (https://pt.wikipedia.org/wiki/Felicidade). A felicidade, igualmente, não é lógica, pois é uma busca pelo bem-estar espiritual e uma paz interior que não pode ser parametrizada como a ciência exige. A busca pela felicidade é um movimento único, individual e singular. Entendo que a metodologia científica não a lograria entender. Mais recentemente surge a neurociência que consiste no “estudo sobre o sistema nervoso e suas funcionalidades, além de estruturas, processos de desenvolvimento e alguma alteração que possa surgir no decorrer da vida” (https://www.passeidireto.com/). A neurociência constata muitos dos fenômenos que ocorrem na cérebro há milhares de anos. A plasticidade cerebral, dada como uma descoberta da neurociência, está presente na formação do conselho de anciãos. As sociedades antigas sabiam que a probabilidade de maior sabedoria com o passar da idade era grande. Ou seja, podemos aprender por toda a vida estava implícito na formação do Conselho de Anciãos. Portanto, essa descoberta da neurociência não cria algo, mas traz à luz algo que acontece.

Por isso, acredito que, em muitos casos, a ciência e a neurociência vão nos levar a uma viagem de retorno às nossas raízes. É um caminho de reconexão como os nossos ancestrais. Ainda precisamos do “Conselho de Anciãos”, assim como a ciência e a neurociência são fundamentais. A ciência é lógica. A neurociência constata muitos fenômenos lógicos que acontecem no cérebro. O ser humano nem sempre é lógico. A felicidade não é lógica. Porém, usar a ciência para melhorar tudo aquilo que é lógico pode nos aproximar da felicidade que não é lógica. No final, é preciso fazer sentido!

Moacir Rauber

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Que tipo de aprendiz é você? Mosca, zangão ou abelha 1?

Que tipo de aprendiz é você? Mosca, zangão ou abelha 1?

Há duas semanas escrevi o texto “Que tipo de aprendiz é você? Mosca, zangão ou abelha?” em que explorei as competências da abelha, deixando em segundo plano o zangão e a mosca. A abelha, como metáfora, traz em si qualidades para um aprendiz, como a perseverança, a dedicação, a organização e a humildade. No final do texto perguntei: e a mosca e o zangão? O que podemos aprender com eles? Que trabalhadores são eles e qual analogia serve para nós?

A mosca e o zangão podem nos ensinar como podemos ser aprendizes de diferentes maneiras em qualquer ambiente. Se a abelha é exemplo da aprendizagem organizada e coletiva, a mosca e o zangão podem exemplos de aprendizagem no caos e na solidão. A abelha frequenta o jardim e procura a flor, o belo, e volta com o néctar para a colmeia, o coletivo, para realizar o seu trabalho. A (1) mosca zanza de uma planta a outra sem um paradeiro para encontrar os dejetos, o feio, para cumprir a sua missão. A mosca encontra os restos de matéria orgânica em cantos ocultos do jardim, transformando-os em adubo para que as flores sejam ainda mais vistosas. Elas aproveitam aquilo que os demais já não querem. Porém, igualmente a abelha, a mosca poliniza outras plantas, contribuindo ainda mais para a continuidade da vida no jardim. E na nossa sociedade, quantos trabalhos existem que a grande maioria das pessoas se negaria a fazer? São profissões que podem não ter o prestígio de outras, mas nem por isso são menos relevantes. São os cuidadores de idosos que cumprem um papel que a família já não quer ou não pode mais. São os limpadores de esgotos subterrâneos que permitem que as nossas ruas e casas permaneçam limpas. São os analistas de laboratórios que trabalham com os nossos restos orgânicos para que possamos manter a nossa saúde, entre outros exemplos de trabalhos não glamourosos. Entretanto, para exercê-los é preciso aprender e trabalhar no caos para manter a ordem. O (2) zangão no seu comportamento exibido ao bater as asas para chamar a atenção no meio do jardim, talvez busque espantar a solidão. Ele tem um porte diferenciado das demais abelhas, porém vive uma vida solitária com a única função de garantir a fecundação da abelha rainha. Não produz mel, não interage com outras abelhas e é nascido de um embrião não fecundado. A sua função é solitária desde o nascimento. Da mesma maneira, quantas profissões existem que nós não vemos o esforço solitário de alguém que precisa se manter em evidência? A área de vendas externas exige muita exposição, mas é uma atividade solitária que demanda esforço e iniciativa. Os profissionais que trabalham com a revisão de textos sequer têm o seu nome registrado no trabalho como forma de reconhecimento. Um consultor de empresas entra numa organização, analisa, compila e fornece alternativas para depois sair de cena. Eles quase nunca têm equipes, mas contribuem para o coletivo. São trabalhos solitários e essenciais em nossa sociedade. Portanto, a mosca nos ensina a aprender a ordem a partir do caos, enquanto o zangão nos ensina o sentido dos trabalhos individuais, porque ambos refletem no coletivo. Haja competência emocional para aprender e ensinar como a mosca e o zangão…

Acredito que tudo o que existe tem uma função. Aquilo que não tem mais função vai para o museu, adquirindo nova função.  Ninguém é mais ou menos importante por causa da função. Se da abelha podemos a aprender a ser aprendizes organizados e coletivos, a mosca e o zangão nos ensinam a sermos aprendizes no caos e na solidão. Porém, é essencial ter em mente o sentido daquilo que se aprende para saber o resultado daquilo que se faz. Assim, tornamo-nos aprendizes com apreço por aquilo que aprendemos; dedicados para aprofundar o conhecimento e o seu uso; tranquilos mentalmente para ser perseverantes e entender que a paciência é uma virtude do eterno aprendiz.

Abelha, mosca ou zangão? Se eles existem, há uma função. Qual é a sua função?

Moacir Rauber

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