
TODOS FAZEM…
A velocidade indicada era de 100 km/h, porém um carro após o outro o ultrapassava pela faixa da esquerda, indicando que a velocidade que praticavam estava acima da recomendada. Ele seguia na faixa da direita, respeitando o limite, juntamente com outros veículos. Como queria chegar mais cedo ao destino, pensou:
— Se todos andam acima da velocidade, também vou…
E acelerou, deslocando-se para a faixa da esquerda.
“Se todos fazem…”, talvez seja um dos pensamentos que mais nos levam a tomar decisões equivocadas, representando a voz do ladrão interior. Não é porque “todos fazem” que aquilo que fazem está correto.
Lembro-me da minha infância. Por vezes, voltava da escola com algum pedido sobre uma moda de consumo. Em casa, dizia que queria um tênis de determinada marca. Minha mãe respondia que era muito caro, e eu argumentava: “Mãe, todos têm. Só eu não.” Ela respondia: “Você não é ‘todos’, e não são ‘todos’ que têm, porque o filho da vizinha não tem.” Abaixava a cabeça, resignado, porque sabia que ela tinha razão. Primeiro, eu não era “todos”, assim como ninguém o é. Segundo, “todos” não tinham o tênis que eu queria. Da mesma forma, não eram “todos” que andavam acima do limite de velocidade. A escolha e a consciência são individuais.
Santo Agostinho disse: “A verdadeira consciência não emite seus juízos segundo o costume da maioria”, expressando a importância do exame de consciência individual antes de tomar uma decisão, porque não há exame de consciência coletiva. A maioria nem sempre é sinônimo de discernimento ou sabedoria. Muitas vezes, a partir da maioria, despertamos em nós a voz do ladrão, como quando pensamos: “Se todos sonegam imposto…”, “Todos estacionam na vaga para pessoas com deficiência…” ou ainda “Se todos excedem o limite de velocidade…”, entre tantos outros exemplos em que usamos um falso “todos” para justificar escolhas equivocadas. Por isso, o exame de consciência é essencial antes de qualquer decisão. E ele começa com algumas perguntas para si mesmo, entre elas:
- As justificativas para a minha escolha são honestas? Ao responder à pergunta com honestidade, quase todas as dúvidas desaparecem, porque sabemos a diferença entre o honesto e o desonesto. Ao optar por não pagar os impostos devidos, trata-se de um ato desonesto, ainda que “todos” o façam.
- A quem afeto com a minha escolha? Ao resolver estacionar numa vaga reservada para pessoas com deficiência física, não tendo nenhuma, porque “todos” fazem, refere-se a um ato de desrespeito, afetando com desamor as pessoas com deficiência.
- O que realmente quero com a decisão? Ao exceder o limite de velocidade, estou agindo por vaidade, orgulho ou com a intenção de obter alguma vantagem indevida? A resposta poderá revelar a verdadeira intenção da futura ação, incluindo se há cuidado nela.
Frente a uma decisão, responder às perguntas acima poderá trazê-lo de volta à honestidade, ao respeito e ao cuidado para consigo e para com o outro.
Vivemos um período de relativismo legal e moral; entretanto, sabemos exatamente a diferença entre o honesto e o desonesto, o respeito e o desrespeito, o cuidado e o descuido. Sabemos, da mesma maneira, a diferença entre o certo e o errado ou se estamos sendo justos ou injustos. O relativismo disseminado em expressões como “todos fazem”, ou a ideia de que tudo depende da perspectiva de quem olha, não torna algo desonesto em honesto; não transforma o desrespeito em respeito; e não muda uma ação de descuido em cuidado.
Entendo que “todos fazem” pode ser a voz do ladrão interior, que nos aproxima da soberba e do egoísmo ao acreditar que as nossas necessidades são mais importantes ou urgentes do que as do outro.
Por fim, confronte as tuas decisões ao final do dia com mais uma pergunta:
O que fiz hoje contribuiu para uma vida melhor?
Se sim, ainda que o mundo não seja justo, você pode ser, porque você não é “todos”.
Moacir Rauber
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