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Pessoas: “Esticar” ou “Podar”?

Pessoas: “Esticar” ou “Podar”?

A mitologia grega diz que Procusto era um assaltante gigante que capturava as suas vítimas e as levava para a sua habitação. Uma vez lá, ele as deitava na sua cama, uma estrutura de ferro que continha exatamente as suas medidas. Aqueles que se ajustavam perfeitamente eram liberados, juntamente com os seus pertences. Porém, a grande maioria era menor que as medidas da cama, assim, Procusto procurava “esticá-los” até que estivessem do tamanho da sua cama. Alguns dos seus “convidados” ultrapassavam as medidas de sua cama e ele, sem hesitação, “podava” as partes excedentes. Ao ser questionado sobre a sua prática, Procusto respondia que estava fazendo justiça ao eliminar as diferenças entre as pessoas. Quais são os Procustos dos dias de hoje? E no seu ambiente, as pessoas são “esticadas” ou “podadas”?

Nas nossas relações, muitas vezes, somos levados a nos ajustarmos às “camas” dos outros Procustos ou fazemos com que os outros se ajustem às nossas “camas” como Procusto. Somos vítimas e algozes. Não somos inocentes. Basta pensar nos diferentes grupos aos quais pertencemos. Na família, às vezes, queremos “esticar” ou “podar” os nossos filhos, os pais ou os irmãos. Com os amigos, agrupamo-nos por time de futebol, religião, opiniões políticas ou outros pontos em comum, porque queremos caber na “cama”. Ficamos incomodados com pessoas que não se ajustam a nossa “cama” e, por isso, nos afastamos daqueles que consideramos diferente. No ambiente organizacional ocorre algo parecido. A cultura organizacional pode ser um Procusto dos nossos dias. A gestão de Recursos Humanos realiza um processo de seleção em que busca identificar as qualidades únicas do candidato que o tornam relevante para a organização. Na sua chegada na empresa, ele é submetido a uma série de atividades de acolhimento e de integração num processo de socialização organizacional para torná-lo um membro efetivo. Normalmente, ele é apresentado à missão, à visão e aos valores organizacionais, assim como recebe uma mensagem de boas-vindas dos diretores. Busca-se dar ao novo colaborador a possibilidade de entender e de se apropriar dos valores compartilhados na organização. Depois ele chega à sua equipe para desempenhar o seu papel. Em muitas organizações são oferecidas as trilhas de aprendizagem para capacitá-lo para as tarefas e prepará-lo para o desempenho. As diferentes culturas organizacionais podem estar voltadas à inovação, aos resultados, às pessoas ou ao trabalho em equipe, por exemplo, e a preocupação para que o novo integrante se sinta acolhido para poder se integrar é importante. Entretanto, nesse processo, muitas vezes, é tirado da pessoa o que ela tem de melhor: a sua unicidade. Como ele vai inovar, produzir resultados diferentes, respeitar e ser respeitado como pessoa ou ser importante para uma equipe se ele não puder ser quem ele é? Se algumas das suas diferenças podem levar a que se queira “esticá-lo” para que se ajuste ao padrão do ambiente? Se outras diferenças podem fazer com que se queira “podá-lo”, evitando que ele ultrapasse os limites impostos pelo ambiente? É a prática de Procusto no ambiente organizacional que pode ser identificada no clima familiar e nas relações de amizade. O que você percebe e sente nos ambientes em que você circula?

Enfim, a mitologia grega continua atual. Por isso, não importa o ambiente, acredito que muito mais do que “esticar” ou “podar” cabe a cada um de nós reconhecer, compreender, aceitar e respeitar o outro como um verdadeiro outro permitindo que ele desenvolva as suas potencialidades únicas. É nessa unicidade que está a grande contribuição do indivíduo para a família, para os amigos, para a organização e para a organização. “Somo todos diferentes, somos todos iguais” e é essencial que cada um tenha a sua cama.

Moacir Rauber

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