Que venha um tempo para não incluir ninguém…

Que venha um tempo para não incluir ninguém

O evento estava lindo, as pessoas se respeitavam e a diversidade estava presente na unicidade dos quase cem participantes. Essa era a observação dos fatos que eu fazia a partir da minha percepção. Por outro lado, havia um grupo de pessoas que não estava satisfeita, pois consideravam que não se havia tido a preocupação com a inclusão e que algumas categorias ou classificações de pessoas estavam sub representadas no evento. Desse modo, elas apresentaram a sua reclamação para o grande grupo, que foi recebida com o respeito que a opinião alheia requer.  Uma reclamação expressa um pedido que parte de uma observação, muitas vezes, baseada em percepções individuais que são tomadas como fatos. Não se tem aqui a pretensão de dizer que a reclamação acima estava baseada num fato ou numa percepção individual. Quero destacar que a reclamação apresentada era um pedido que trazia em si sentimentos e representava uma necessidade daqueles que reclamavam. O grande grupo acatou e respeitou a reclamação. Nas rodas menores de conversas, o tema voltou à tona, pois é um assunto delicado. Afinal, estávamos falando de inclusão. Nesse momento, uma das pessoas disse uma frase que me marcou:

– Respeito a opinião de quem reclama, entretanto não concordo porque ninguém foi excluído…

A pessoa seguiu o seu raciocínio dizendo que para falar de inclusão, antes deveria ter sido praticada a exclusão. Concordei com a argumentação. Sei que falar de inclusão é algo que mexe com pessoas, que por um motivo ou outro são classificadas por meio de rótulos que, por vezes, terminam por marginalizá-las criando minorias excluídas. É um processo histórico que tem gerado danos naqueles que são estigmatizados por um rótulo. Diferentes etnias? Negros, Amarelos, Vermelhos e Brancos. Culturas que se chocam? Ocidental, oriental entre outras. Escolhas que divergem? Direita, esquerda ou sei lá mais o quê. Pessoas com Deficiência? Cegos, surdos, mudos, amputados ou deficiência intelectual. Estes últimos, formam um grupo que se eu aceitasse classificação integraria, já foram considerados deficientes, aleijados, inválidos, incapazes, excepcionais e descartáveis. Sim, em determinadas sociedades uma pessoa com deficiência era descartada para minimizar o risco do grande grupo. Essa era a exclusão que hoje exige um trabalho de inclusão.

É importante entender que os grupos sempre se organizaram com o objetivo de proteger os seus integrantes dando-lhes a sensação de pertencimento. Na origem de um grupo, categoria ou classificação existem ou são identificadas determinadas características que servem para que alguns se aproximem e que outros se afastem ou sejam afastados. Aqueles que são incluídos passam a pertencer ao grupo, formando o “nós”. Outros são excluídos e não pertencem ao grupo, formando o “eles”. Isso é exclusão. Esse é o tipo de pensamento que depois exige a inclusão. Por isso, acredito que o grande desafio, para que não se precise mais falar em inclusão, seja o de não excluir, a começar pelo fato de não rotular um “nós” e “eles”. Muitas vezes ouço expressões como, “Eles, pessoas com deficiência…”, entre outras, que me excluem ao me transformar num “eles”. Tenho uma deficiência física, mas isso não me descaracteriza como Ser Humano. Sou “nós”.

Ao lembrar que cada pessoa é única e indivisível, não há como classificar ou rotular e não seria possível excluir, eliminando a necessidade de se incluir. Portanto, lutar para não classificar ou rotular aquilo que não é classificável rotulável, as pessoas, é um dos passos para não excluir e, portanto, não precisar incluir. Por isso, desejo que tenhamos um tempo em que não se exclua a ninguém, transformando a inclusão descartável.

Isso porque entendo que a única classificação aceitável é a de Ser Divinamente Humano.

Moacir Rauber

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