
DO RUÍDO QUE DÓI À CONSCIÊNCIA QUE ILUMINA
O retiro de silêncio já estava no sexto dia, sem celular, internet ou televisão. Nesse tempo, o silêncio exterior abria espaço para um processo de reconhecimento interior que havia começado no quarto dos espelhos, onde cada um manteve contato com o “Eu” Profundo; passara pelo presépio da vida real, em que avaliamos nossas relações; e prosseguira para o desafio de escolher uma missão de vida cujo centro nem sempre é você.Nesse ambiente, éramos constantemente provocados: quais dimensões da sua vida precisam se expandir? Sua vida necessita de um salto de qualidade? Há espaço para o risco da aventura ou apenas para o medo asfixiante? Perguntas que não deixavam o coração em silêncio. A elas somavam-se questionamentos que buscavam nos afastar da mediocridade de viver autocentrados. O convite era reordenar nossos afetos para desenvolver uma missão voltada ao outro.
O ruído amedrontador do silêncio interior dava lugar à dor da constatação: temos apegos que nos diminuem, afetos que nos limitam e seguimos centrados em nós mesmos. Muitos não suportam o silêncio e desistem, porque o ruído interior, na ausência de estímulos externos, é doloroso. Contudo, esse ruído que gera dor é prenúncio da consciência de que o fazer deve ajudar, contribuir e melhorar. Afinal, o que você faz ajuda a quem?
Ao responder com honestidade, descobrimos se a Missão tem Propósito e obtemos pistas sobre nossos afetos. Por que e para quem fazemos o que fazemos? Isso nos leva a refletir sobre as dimensões de nossas vidas que podem se expandir com qualidade, abrindo-nos ao risco da aventura com o outro no centro. A consciência de que nossas ações — e nossas omissões — impactam o outro transforma o fazer habitual em escolha deliberada. Assim, tanto quanto brincar eu posso brigar; tanto quanto partir eu posso ficar; tanto quanto estudar eu posso faltar; tanto quanto persistir eu posso desistir; tanto quanto construir eu posso destruir; tanto quanto amar eu posso odiar; e tanto quanto ajudar eu posso atrapalhar, dificultar, abandonar, desassistir ou desservir. É nessa consciência que se realizam as tarefas de uma Missão que se afasta do estereótipo da utilidade, mas que deve ajudar a alguém.
No silêncio do retiro, a noção da Missão de Vida se define como ajudar. Não se trata de ser útil, pois até o inútil existe para que o útil seja reconhecido. Retomo nossa dependência natural como pessoas, patente nos primeiros anos de vida e, quase sempre, evidente no final da jornada. Portanto, a Missão de Vida se conecta com o fazer, ajudar, contribuir e servir sem ser utilitarista. É um ato consciente de Amor que nos conduz à Luz, o último ambiente de nossa casa interior (analogia de Pe. Eliomar Ribeiro).
Na Luz, o meu Eu Profundo se encontra e se resolve. Na Luz, minhas relações no Presépio da Vida são autênticas. Na Luz, minha Missão de Vida tem o foco no outro, fazendo com que eu sirva e seja servido; ajude e seja ajudado; aprenda e ensine; afete e seja afetado. Ainda no silêncio, pergunte-se: quem eu quero ser para ser Luz? Quais valores orientam a minha missão?
A partir daqui, as dores provocadas pelo silêncio no contato com o “Eu” Profundo começam a se transformar em impulso para novas possibilidades. Vemos nossas fragilidades, que nos revelam nossas forças; enxergamos nossos vícios, que nos permitem avaliar nossas virtudes; constatamos a mediocridade própria da condição humana, mas entendemos que podemos rompê-la com escolhas elevadas. São essas escolhas que nos aproximam da profundidade e da sabedoria.
Com isso, podemos nos perguntar:
- Qual é a minha missão no casamento e na família?
- A quem ajudo no meu trabalho?
- Sou Luz ou Escuridão?
É tempo de Natal. Escolha Ser Luz. Ilumine!
“Se a dor acompanha o ser humano, o que é senão tolice desperdiçá-la?”
(José María Escrivá)
Moacir Rauber
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