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Ator de si mesmo!

Ator de si mesmo!

O rapaz entra em casa e começa a praguejar contra tudo e contra todos. A senha do cartão havia sido recusada por três vezes o que fez que ele fosse bloqueado. Em alto e mau tom dizia:

– É uma m… Sistema mais burro. Não consegue identificar a gente. Daqui a pouco terei que fazer como os velhinhos e anotar tudo.

Seguiram os impropérios proferidos contra os demais, quando na realidade havia somente um único responsável por ter esquecido a senha do cartão: ele mesmo. A raiva e a revolta demonstradas eram, mais uma vez, uma atuação, porque enquanto proferia os palavrões a câmera do celular registrava tudo no vídeo de si mesmo. As pessoas têm cada vez mais atuado do que vivido. Preferem contar a sua vida ao invés de vivê-la. Outros, preferem simplesmente assistir a encenação da vida dos demais. As representações feitas nos vídeos e nas edições dos momentos escolhidos para gravar e compartilhar, quase sempre, não são verdadeiras. São atores de si mesmo que se acreditam especiais. Entretanto, no seu íntimo sabem que isso pode não ser verdade, o que leva a que muitos sucumbam frente a síndrome do impostor. A síndrome do impostor representa um tipo de comportamento em que a pessoa duvida de suas capacidades, gerando a sensação de que será exposto revelando ser ele uma fraude em relação ao que se propõe fazer como especialista. E isso atinge pessoas que cumprem com um trabalho real. Assim, frequentemente, profissionais de todas as áreas são acometidos pela síndrome, levando a muitos que se afastem do trabalho até que consigam recuperar sua autoconfiança. E o que dizer de tantas pessoas que somente representam a si mesmos? Entendo que todas as pessoas são únicas, singulares, múltiplas e plurais. E especiais? Depende. Você pode ser um atleta, um artista ou um profissional especial, mas para isso precisará de dedicação, empenho e esforço. Terá que sair da zona comum de que todos somos únicos, singulares, múltiplos e plurais e desenvolver alguma capacidade a um nível muito acima da média. Ser um “virtuose”, que é alguém que exibe uma habilidade de execução técnica ou de conhecimento num grau muito alto. Para ser especial em algo há que ser excelente, exímio, notável, perfeito, virtuoso. Representar a si mesmo o torna especial? Não creio. Parece-me que cedo ou tarde a síndrome do impostor vai alcançar essas pessoas. Por quê? Porque as emoções que exibem na câmera não são reais. Os fatos que apresentam, muitas vezes, são manipulados. A alegria que expressam é exagerada. A tristeza que demonstram é artificial. Na verdade, são impostores. Se alguém que cumpre um papel real pode ser atingido pela síndrome do impostor, imagine o que acontecerá com quem sabe que é um impostor. O que fazer? Creio que, talvez, o primeiro passo seja olhar para dentro de si com sinceridade para se reconhecer como único, singular, múltiplo e plural para em seguida identificar uma habilidade que é somente sua e com esforço, dedicação e empenho desenvolvê-la a um patamar acima da média. No final, se você for autêntico será especial!

Voltando aos atores de si mesmo, parece-me um desafio enorme poder se ver como um ser humano único, singular, múltiplo e plural para reconhecer que do outro lado da câmera está um ser igual. Para ser especial é essencial ser autêntico para pelo menos reconhecer que é sua a responsabilidade de saber a senha do cartão. Com isso, talvez deixe de representar para poder ser quem realmente é. Se for bom estar com quem você é, você é especial, porque no final do dia você vai dormir consigo mesmo e não com o ator de si mesmo.

Moacir Rauber

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