Diferença de idade 2

Moacir Rauber

Num determinado domingo de dia dos pais, a Andreia e eu fomos à missa. Chegamos um pouco antes da hora e escolhemos um lugar na metade do corredor central da igreja. A Andreia sentou-se bem na extremidade de um banco e eu fiquei na minha cadeira de rodas ocupando parte do corredor. Situação normal, pois dificilmente eu saio da cadeira de rodas para sentar em outro local. Não sento em qualquer lugar…hehehe. Até a hora da missa, a igreja ficou completamente cheia. Muitas famílias aproveitavam esse momento para uma reflexão e mesmo para exprimir o sentimento de união entre pais e filhos. Estes faziam a sua homenagem e demonstravam o seu amor. Pais novos. Filhos novos. Pais idosos. Filhos mais velhos e filhos novos também. Tem muito pai bem idoso com filho bem novo. Isso quer dizer que tem muito homem mais velho com mulher bem mais jovem… Naquele momento, podia-se ver gerações diferentes demonstrando que a vida segue seu curso por meio do amor incondicional entre elas. A homilia do padre foi tocante, levando-nos a todos a desenvolver um sentimento terno naquele momento. As pessoas que tinham o privilégio de estarem acompanhadas por seus pais e filhos aproveitavam o momento. A Andreia e eu apenas podíamos lembrar com carinho de nossos respectivos pais. Estávamos de mãos dadas e bem envolvidos com o clima resultante da cerimônia. Havia sido muito especial. A missa terminou. Toda aquela multidão começou a sair. Nós resolvemos aguardar onde estávamos para sair somente quando a maioria já tivesse deixado a igreja. Seria mais fácil para nós e menos incômodo para os demais. As pessoas que vinham da parte da frente da igreja passavam por nós olhando-nos nos olhos. Cumprimentávamos um ou outro que já conhecíamos e mesmo aqueles que apenas tínhamos visto alguma vez. A sensação do momento era agradável. Nisso, vimos uma senhora, que já deveria estar com seus noventa anos, movendo-se bem lentamente empunhando uma bengala na mão esquerda, acompanhada por mais uma ou duas pessoas. Encontrei os seus olhos alegres já de longe. Ela olhou-me com aquele sorriso bondoso que somente a idade traz. Ela foi se aproximando. Quando chegou até nós, parou e tocou-me com a mão suavemente no ombro. Olhou para Andreia ao meu lado e disse: Cuida bem do teu paizinho! Ouvi a frase, mas não a processei direito. Sorri para ela demonstrando ter concordado com o que havia falado. Ela seguiu seu caminho porta afora da igreja. Eu, com meu processador muito lento, continuei um pouco intrigado. Comecei a mover-me para olhar para a Andreia pensando em perguntar: Mas como ela conhece o teu pai?. Entretanto, quando o meu movimento permitiu que eu me deparasse com o seu rosto, eu a vi esborrachando-se de tanto rir. Foi então que entendi… O paizinho era eu!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *