SOMOS DESERTORES DA ETERNIDADE?

Fonte: Pixabay

Somos desertores da eternidade?

Começava a oficina dirigida aos professores para o resgate de recursos internos. No início, cada participante se apresentava dizendo o nome e a expectativa. Muitos falavam de maneira lacônica; outros demonstravam alguma curiosidade. Em todos, porém, havia um traço comum: a ansiedade. Ao final das apresentações, uma das professoras comentou:

— Acho que quase todos aqui funcionam à base de ansiolíticos… — e soltou uma risada nervosa.

A fala gerou silêncio. Não houve concordância nem discordância explícita, mas uma desesperança ansiosa podia ser vista no semblante dos presentes. Por que há tanta ansiedade num mundo com tantos recursos? Qual o motivo da desesperança entre professores?

Perguntas que admitem diferentes respostas diante de uma mesma realidade. Aponto uma: a aceleração constante do tempo.

Acredito que vivemos num mundo cada vez mais acelerado, em que a hiperconectividade nos expõe a estímulos contínuos aos quais nos viciamos. O WhatsApp é acessado de minuto em minuto; os vídeos do Instagram a cada meia hora; os e-mails geram a aflição de serem respondidos imediatamente; e a internet precisa estar presente em todos os ambientes, sob pena de provocar ansiedade, angústia e desespero. Trata-se de um fenômeno global que atravessa todas as faixas etárias e estratos sociais. Com isso, desconectamo-nos da vida — esse instante presente entre duas eternidades. O resultado é a aceleração, que cria a cultura da pressa e da incerteza, levando-nos a viver como se não houvesse tempo para viver. É paradoxal.

Na sala de aula, não é diferente. Professores cansados e estressados pelo excesso de conectividade são levados para lugares onde não estão. O mesmo ocorre com diretores, colaboradores e pais. Quanto aos alunos — crianças e adolescentes — soma-se a falta de educação, pois não aprenderam a respeitar o outro, seja adulto, idoso ou professor. Uma geração ensimesmada, marcada pela autoidolatria estimulada por pais ausentes, em que o “eu” ocupa sempre o primeiro lugar. Cada aluno é um imperador dos próprios desejos.

Assim, a sala de aula se transformou num espaço onde reina uma impaciência estrutural presente em outros ambientes, deixando de ser um local de ensino e aprendizagem. Temos professores sem autoridade, ansiosos e desesperançados diante de alunos desinteressados. O que fazer? Qual é o antídoto?

Em uma palestra de Monsenhor Munilla, ouvi a frase: “Somos desertores da eternidade!”. Nela, creio, está implícita a resposta para nossa ansiedade e desesperança constantes. Com o avanço tecnológico em níveis geométricos e até exponenciais, houve a consequente aceleração do comportamento humano. Enquanto a tecnologia utiliza suas últimas descobertas para dar o próximo passo, o comportamento não acompanha o mesmo ritmo. A tecnologia nos auxilia, mas também nos torna mais superficiais. Já não precisamos do mesmo esforço para alcançar resultados semelhantes. Entretanto, sua disponibilidade nos cerca de estímulos atrativos e viciantes, mantendo-nos em estado permanente de excitação — daí a ansiedade. Por outro lado, essa mesma excitação nos afasta da transcendência e da espiritualidade que acompanham a trajetória humana e nos aproximam da eternidade — daí a desesperança.

Portanto, o antídoto passa pela escolha individual de renunciar para combater a ansiedade e de parar para resgatar a esperança. Mas, como parar num mundo acelerado?

A escolha é de cada um. Saímos da expectativa para o compromisso.

Uma pausa para admirar a natureza e seus milagres; para refletir sobre o privilégio da vida e suas maravilhas; para desfrutar do mistério que não compreendemos — tudo isso exige compromisso. Da mesma forma, renunciar ao turbilhão de estímulos artificiais e superficiais para conectar-se ao presente, reconectando-se à eternidade, pede compromisso com o silêncio, a escuta, a oração, a meditação e o afeto.

São comportamentos que desaceleram a superficialidade da conectividade tecnológica, criando espaço para a diminuição da ansiedade e o resgate da esperança. O antídoto, portanto, passa pela necessidade de cuidarmos daquilo que não vemos, tirando o foco exclusivo dos sentidos. Exige o compromisso de olhar para aquilo que não se vê — a eternidade — para diminuir a ansiedade e recuperar a esperança.

Não podemos desertar da eternidade.

Moacir Rauber

Blog: www.facetas.com.br

E-mail: mjrauber@gmail.com

Home: www.olhemaisumavez.com.br

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