
ANSIEDADE E ESPERANÇA
Quantos likes você pode dar em uma foto?
No Dia dos Avós, minha esposa e eu recebemos uma foto impressa em que aparecíamos com nosso neto de dois meses, acompanhada de uma carta escrita à mão pelos pais, com o pezinho do bebê estampado. Ao abrir o envelope, ver a foto e ler a carta, ficamos emocionados. Eles estavam diante de nós, presentes na carta e presentes com sua presença. Como algo que já foi tão comum pode se tornar tão especial?
Algumas hipóteses: nunca houve tanta comunicação e, ao mesmo tempo, tanta solidão. Se, por um lado, as telas prometem conexão, por outro, parece-me que promovem desconexão. Assim, mesmo tendo milhões de seguidores que dão likes nas fotos postadas, o sentimento de solidão de quem posta aumenta. A pessoa pode estar no seu quarto ou na sua mansão, diante de uma tela pequena ou gigante, conectada ao mundo, mas desconectada de qualquer humanidade. Por isso pergunto: o que há de tão belo numa carta escrita à mão? O que existe de tão lindo numa foto impressa?
Não há como dar um like numa foto impressa nem numa carta escrita à mão. Elas exigem presença e intenção — um movimento de unicidade que alimenta dimensões fundamentais da vida social e familiar. Isso é belo, lindo e insubstituível! Nada disso está presente nas redes sociais ou nos likes virtuais.
Muitas pessoas recorrem à Inteligência Artificial, acessando chatbots para “conversar” como se fossem pessoas. Muitas vezes saem com a impressão de que “pelo menos a IA me entende”. Escapa-lhes que a IA é uma ferramenta complacente, uma caixa de ressonância que apenas emula pensamentos e sentimentos. Com isso, rouba das pessoas a experiência da amizade — uma das sete dimensões de uma vida saudável, segundo José Ignacio Munilla — praticamente eliminando a possibilidade de desfrutar das demais.
Para Munilla, uma vida saudável deve se basear em:
(1) esponsalidade, capacidade de comprometer-se com o outro, especialmente no casamento;
(2) maternidade ou paternidade, experiência máxima do ser humano ao assumir responsabilidade pela vida de outro;
(3) fraternidade e (4) solidariedade, exercitadas pela presença ativa na vida dos demais;
(5) filiação, reconhecer nos pais o privilégio da própria vida;
(6) mesmidade, identidade pessoal descoberta na interioridade profunda, uma relação autêntica consigo mesmo;
(7) amizade, escolha recíproca pela presença de um na vida do outro, contribuindo para o crescimento de ambos.
A amizade perpassa todas as demais dimensões.
A amizade pode e deve estar presente na relação matrimonial, sendo essencial para que se alcance a plenitude do vínculo. Ela aparece nas relações entre pais e filhos — na paternidade, maternidade e filiação — de diferentes maneiras ao longo da vida, exigindo, por vezes, posições firmes, disciplina e correções. Está presente na fraternidade entre irmãos e na solidariedade, quando se reconhece o outro como um verdadeiro outro, não como uma obrigação. A amizade consigo mesmo se revela na mesmidade humilde, não arrogante, de uma unicidade singular com múltiplas facetas. Nada disso se encontra num chatbot que apenas ressoa aquilo que você diz, nem nos likes de um post, que não revelam presença real nem intenção. Num chatbot, não há presença real, e a intenção não se manifesta.
Portanto, o que há de belo numa carta ou numa foto impressa? Elas carregam as bases de uma relação saudável, que se inicia pela amizade intencional e pela presença real. Ao ler a carta, eu sabia que estava diante de algo único e irrepetível, porque aquelas duas pessoas nunca mais escreveriam algo igual nem com a mesma intenção. Palavras escritas são irrepetíveis. Ao olhar aquela foto impressa, pude ver nela a amizade que gera conexão.
Você não pode dar um like numa carta escrita à mão ou numa foto impressa, mas elas fazem parte de um caminho que diminui a ansiedade, reforça a amizade, elimina a solidão e nos devolve a esperança.
Moacir Rauber
Blog: www.facetas.com.br
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