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O PESO DO “EU IDEAL”: VOCÊ SABE DIZER “NÃO” PARA VOCÊ?

Imagem criada COPILOT IA

Você sabe dizer “não” para você?

O evento buscava apresentar as melhores práticas de gestão para alcançar as metas da organização. O último palestrante conduziu sua fala com maestria, mantendo o público conectado. Quase ao final, afirmou:

— Você é o único responsável pelo seu sucesso. Vibre alto, atraia o positivo e manifeste sua melhor versão. Transforme seus sonhos em realidade agora!

Aplaudimos intensamente. A energia emanada contagiava, renovando as intenções para mais um período de trabalho em que cada um é, ao mesmo tempo, senhor e escravo de si mesmo. Trata-se de uma crítica à produtividade ou ao desejo de realizar sonhos? Não. É um convite ao discernimento entre o “Eu Real” e o “Eu Ideal”.

O “Eu Real” reconhece o cansaço, as fragilidades, as incertezas e as limitações que nos permitem crescer. Já o “Eu Ideal” nos pressiona a buscar uma versão perfeita de nós mesmos, sem limites para as realizações. Essa busca incessante nos conduz ao cansaço, à exaustão, à depressão e ao colapso emocional.

No livro Sociedade do Cansaço, Byung-Chul Han descreve a transição da sociedade disciplinar para a sociedade de desempenho. Na primeira, obedecíamos a alguém — um chefe, o dono da empresa ou qualquer figura de autoridade. Alguém ordenava, e nós cumpríamos. Parecia duro. Na segunda, a sociedade de desempenho, o chefe ou o dono já não exerce tanto poder, pois conquistamos a liberdade de escolha. Podemos obedecer ou não. A obediência agora é a nós mesmos. Entretanto, a pressão interna que exercemos é maior do que a anterior. Tornamo-nos escravos de nós mesmos na busca pelo “Eu Ideal”.

A sociedade de desempenho nos adoeceu. Os números de pessoas à beira de um colapso mental — e de tantas outras que já colapsaram — mostram que, ao sermos nossos próprios chefes, a pressão aumentou. Quem é o único responsável pelo próprio desempenho realiza um movimento de coerção livre para maximizar a produtividade. Assim, tornamo-nos simultaneamente exploradores e explorados, carrascos e vítimas, senhores e escravos na busca implacável pelo “Eu Ideal”.

A busca pela versão perfeita de si mesmo é uma cilada que nos coloca em competição constante conosco. Como empresário, sou o mais duro senhor de escravos de mim mesmo. Como colaborador, a presença permanente de um “ideal” inalcançável me conduz ao esgotamento. Na sociedade de desempenho, somos o que produzimos, porque somos, ao mesmo tempo, produtores e produtos. Em qualquer cenário, a coerção interna é dura, cruel e implacável, resultando em sensação de fracasso, esgotamento físico e quebra emocional. A pior concorrência não está no outro; está dentro de nós. Nessa corrida, a vitória sempre se transforma em derrota. Por isso, é essencial aprender a dizer “não” para si mesmo.

Mais uma vez: não se trata de rejeitar a produtividade, mas de fazer escolhas livres que nos permitam encontrar o “Eu Real”.

Quem é o “Eu Real”? É o “Eu” que nos coloca em contato com fragilidades e forças, vícios e virtudes, competências e incompetências, possibilidades e limitações. Reconhecer a importância de dizer “não” para si mesmo é exercer a liberdade. Trata-se de recuperar a potência negativa — a possibilidade de não fazer — como uma escolha positiva. A potência de agir é essencial, mas a potência de não agir também é.

A afirmação de que cada um é responsável pelo próprio sucesso tem sua verdade, mas cabe ao “Eu Real” definir o preço dessa busca para não morrer tentando alcançar o “Eu Ideal”. É preciso aprender a dizer “não”.

Você sabe dizer “não” para você mesmo?

Você é um viciado em trabalho?

Você é um viciado em trabalho?

Final de ano chegando num ano que começou de uma forma e vai terminar de uma maneira inimaginável. Entretanto, vejo algo que não mudou. Alguns comentários recorrentes sobre o excesso de trabalho a que muitas pessoas se sujeitam. Observando os diálogos em alguns grupos de profissionais dos quais participo, leio conversas assim:

Nem me fale. Não sei o que fazer primeiro. Estou atolado de tanto trabalho.

– Eu sei o que é isso. O dia deveria ter 48h para dar conta de todos os compromissos até o final do ano. Não vejo a hora de que ele acabe… como se o responsável pelo excesso de trabalho fosse o ano.

Poderia ser o que muitos chamam de vício de trabalho, workaholic. Também poderia ser o hábito da reclamação. No caso de ser um workaholic, assim como os demais viciados, a pessoa tem prazer naquilo que faz. Diferentemente de outros vícios, o viciado em trabalho conta com a aprovação daqueles que estão em seu entorno. Os superiores parecem felizes. A conta corrente agradece. Os amigos se impressionam. O próprio viciado propala aos quatro ventos as suas capacidades de trabalhar ininterruptamente por não sei quantas horas, quantos dias, meses ou anos sem necessitar de férias ou convívio social sem que seja em função do trabalho. O único assunto é trabalho. Orgulha-se disso, o que torna mais difícil para se curar do vício. Para curar-se de um vício, normalmente, precisa-se tomar consciência de que ele é negativo. Para vícios ligados a consumo de entorpecentes ou álcool o próprio convívio social pode nos levar a que nos apercebamos da sua negatividade. Alguém se orgulharia em dizer, “eu sou alcoólotra” ou “eu sou viciado em cocaína”? Provavelmente não. Porém, para se livrar do vício é fundamental que a pessoa tenha a coragem de olhar para si mesmo, reconhecer e responsabilizar-se pela necessidade de mudar. É fácil? Não acredito que seja, mas é um caminho para conter um vício modificando hábitos. Para o vício de trabalho parece não haver a força do convívio que nos leve a tomar consciência de sua negatividade, uma vez que há orgulho nisso. De todas as formas, o primeiro passo seria reconhecer que o excesso de trabalho é prejudicial. Enfim, é essencial entender que há algo que não está bem ao se exceder no trabalho. Existem outras dificuldades, entre elas a de procurar um profissional para auxiliá-lo. Para obter os serviços de um profissional que o ajudaria a livrar-se do vício, o viciado em trabalho precisará pagá-lo. Para pagá-lo terá que trabalhar ainda mais. E o ciclo recomeça num verdadeiro círculo vicioso. É fundamental mudar a narrativa para modificar comportamentos ao se responsabilizar pelas escolhas sem se culpar. Pergunte-se: do que você vai abrir mão? Mais: sujeitar-se a trabalhar em excesso é uma escolha? Reclamar da rotina exagerada de trabalho é uma opção? Como usar as horas do seu dia é uma decisão? Sim, todas elas são escolhas, porém é inevitável que o tempo passe. Por isso, entendo que trabalhar em excesso não é um vício e sim uma escolha.

O que você vai fazer com as suas 24h diárias? Trabalhar, reclamar ou usufruir? São escolhas. Desejo que cada um decida trabalhar melhor, não mais ou demais; que opte por reclamar menos para agradecer mais e elogiar com autenticidade; por fim, que cada pessoa entenda a importância de valorizar o privilégio da vida ao escolher usufruir do tempo na presença das pessoas que lhe dão sentido. É fácil? Para mim não, mas é uma escolha.

Moacir Rauber

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