A lógica do Cisne Negro e o Corona Vírus

A lógica do Cisne Negro – 16 jul 2008
por Nassim Nicholas Taleb (Autor), Marcelo Schild (Tradutor)

É o Corona Vírus um Cisne Negro? De onde virá o próximo Cisne Negro?

Não havia lido um livro com argumentação tão boa e tão bem estruturada como O Cisne Negro, de Nicholas Nassim Taleb, que demonstrasse que nós não somos tudo aquilo que pensamos ser, nem para mais, nem para menos. Eu o li em 2008 e lembro claramente do três pilares de sua teoria: é improvável, é impactante e é óbvio. A teoria do Cisne Negro é fascinante, porque ela trabalha sobre aquilo que nós desconhecemos, portanto, não se poderia trabalhar. Se nós não conhecemos algo como podemos trabalhar com essa hipótese? Por isso, o Corona Vírus me parece tão claramente um Cisne Negro.

Ao esclarecer que antes da descoberta da Austrália pelos europeus todos os cisnes eram brancos, o autor nos deu a certeza de que existem muitos outros cisnes negros a serem descobertos em diferentes áreas, que podem surgir ou não. Por isso, sempre (já é um problema dizer “sempre”) que acreditamos ter chegado ao final de algo, que concluímos uma etapa esgotando todos os recursos, que descortinamos a última fronteira das novas descobertas e que exaurimos todas as possibilidades de encontrar uma solução, surge-nos a imagem do Cisne Negro. Uma justa metáfora para expressar a nossa incapacidade de prever, planejar, projetar, traçar, planificar ou qualquer outro sinônimo que nos remeta a um futuro que desconhecemos, composto por variáveis que não estão sob nosso controle e que dificilmente um dia estarão.

O autor conduz o texto de forma brilhante, transformando assuntos duros numa forma palatável de leitura interessante e entretida. A teoria do Cisne Negro fundamenta-se por ser (1) altamente improvável, por isso dificilmente previsível; por ter (2) grande impacto, causado por sua imprevisibilidade; e (3) facilmente explicável, depois de ocorrido o fato. É ou não é o caso do Corona Vírus? Hoje todos os “especialistas” explicam o seu surgimento, porém, se são especialistas por que não previram? Por que não foram tomadas as providências?

Com essa abordagem o livro descreve fatos históricos e também nos remete a outros comuns do dia-a-dia, fazendo as ligações com as bases da sua teoria. Tudo nos parece tão óbvio, depois de acontecido, por mais espetacular que tenha sido quando visto pela primeira vez. Ele consegue assim, demonstrar a incapacidade da humanidade de prever grandes eventos.

Enfim, o livro nos leva a questionar a função do planejamento, que não deveria ser encarado de forma tão contundente, uma vez que ele dificilmente é exato. Leva-nos a contestar as opiniões dos supostos especialistas das mais diversas áreas, que normalmente usam o passado para nos passar a falsa a impressão de que sabem algo sobre o futuro. Por fim, induz-nos a ser críticos com relação ao nosso conhecimento, para que não sejamos presunçosos; e a ser maleáveis com a nossa ignorância, sem que seja fonte de acomodação. Tem-se, assim, um livro que nos alerta para a possibilidade do surgimento de inúmeros Cisnes Negros em nossa existência. Deve-se apenas estar preparado para o altamente improvável, para o fortemente impactante e para o óbvio, depois de sucedido.

Fica a pergunta: de onde virá o teu Cisne Negro? Ainda bem que não se sabe…